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Gentileschi e os anciões

“Gentileschi, mantendo-se na esteira do realismo caravaggiano ao representar o conto, parece ver-se refletida na Susana bíblica, uma espécie de auto representação de sua condição quando jovem, diariamente assolada por homens lascivos.”

            O primeiro trabalho da jovem pintora Artemisia Gentileschi (1593-1656), Susana e os Anciões (1610), pintado aos dezessete anos, é uma obra que, por motivos ocultos, teve sua primeira versão ocultada. Atualmente a pintura nos revela, por meio da técnica de raios-x, uma versão desconhecida da imagem que pode conter uma realidade de fatos suprimidos, na qual podemos constatar uma maior profundidade de conteúdo que aparenta traçar correspondência entre a vida da artista italiana e a temática da obra. Podemos desconfiar que a pintura, neste caso, constitui uma continuidade da vida da autora.

 

            A imagem obtida por meio de raio-x revela uma maior angústia e sofrimento frente ao abuso, sofrido tanto pela figura bíblica Susana quanto pela artista italiana Artemisia Gentileschi. Segundo o romance de Susan Vreeland, The Passion of Artemisia: A Novel, a jovem pintora foi violentada aos 17 anos por Agostino Tassi, um assistente do ateliê de seu pai. Quando julgaram o ocorrido fato, procuraram testar a veracidade da versão de Gentileschi. Estigmatizada, não pôde ficar em Roma, sendo arranjado a ela um casamento de conveniência, o que a obrigou a partir para Florença, onde tornou-se a primeira mulher a entrar para a Academia de Artes. (VREELAND, 2002)

 

            Cumpre informar que esse julgamento, ocorrido em 1612, durou sete meses e recebeu considerável publicidade e publicações a seu respeito. As transcrições do julgamento revelam que Artemisia foi torturada, além de passar por exames ginecológicos com todo o maquinário que estava à disposição da corte, numa tentativa de testar a veracidade da acusação que foi proferia pela vítima. Podemos dizer que o ônus da prova recai pesadamente sobre ela. (VREELAND, 2002)

 

            Artemisia afirmou que, sob o pretexto de olhar para uma pintura perto do quarto, Agostino empurrou-a para dentro do recinto, jogou-a na cama, cobriu a sua boca para que ela não pudesse gritar, e, forçosamente, entrou nela. Resistindo, ela jogou uma faca sobre ele, ferindo-o ligeiramente no peito, mas não foi capaz de pará-lo. Depois, informou que era virgem, e ele prometeu casar-se com ela, numa nítida tentativa de salvaguardar sua honra. As próprias palavras de Gentileschi são gráficas e brutais, uma voz esticada ao longo dos séculos. (GARRARD, 1989)

 

            Os testemunhos de alguns participantes do caso foram tão ultrajantes que nem ousamos repeti-los; cumpre informar que o juiz interveio várias vezes e os acusou de mentirosos. Quem possuir interesse em ler na íntegra o caso, aconselhamos que consulte o livro de Mary Garrard, Artemisia Gentileschi: The Image of the Female Hero in Italian Baroque Art, de 1989, publicação que inclui documentos, acompanhados de notas e análise do fato.

 

            Agostino Tassi foi condenado, mantido na prisão por mais de oito meses após o julgamento, mas, em seguida, foi liberado prematuramente pelo juiz que, aparentemente, o perdoou. Orazio, pai de Artemisia, entrou com uma ação contra seis das testemunhas de Agostino por falso testemunho. (GARRARD, 1989)

 

            Susana e os Anciões, temática escolhida pela pintora, constitui um tema do Antigo Testamento, adição no Livro de Daniel considerada apócrifa – texto ou obra adicionado em período posterior – pelos protestantes. Na história da bíblia, Susana repele os avanços sexuais de dois homens mais velhos em sua comunidade, homens que lhe surpreendem durante o banho. Envergonhados por sua recusa, eles determinam arruinar a sua reputação, chantageando-a para que se submeta sexualmente aos dois idosos. O caso é levado a julgamento, que acaba em discordantes depoimentos, mas que provam sua inocência.

 

            Gentileschi, mantendo-se na esteira do realismo caravaggiano ao representar o conto, parece ver-se refletida na Susana bíblica, uma espécie de auto representação de sua condição quando jovem, diariamente assolada por homens lascivos. Podemos ver, também, que o homem com cabelos escuros, demasiadamente jovem para corresponder a um ancião, pode ser identificado como Agostino Tassi. Dessa forma, a pintura de Gentileschi imprime, como que a ferro em brasa, a marca indelével de seu próprio sofrimento.

 

            Susana e os anciões é um retrato extraordinariamente simpático de uma indefesa jovem diante de seus agressores, o que contrasta fortemente com a imagem revelada por meio da técnica de raio-x. Se a imagem por si só causa angústia, em vista de que a personagem parece voluptuosa e conivente com os desejos dos idosos, o raio-x revela agonia e terror em um nível mais intenso, situando o real como um caminho que aponta os sofrimentos do corpo na textura imaginária do mito. A personagem desafiante, ali, empunha uma faca contra seus agressores. A faca, arma relatada pelo tribunal como autodefesa, transforma Susana de vítima a vingadora, e não mais como conivente com a situação. O raio-x apenas mostra o que estava escondido na pintura: uma corporeidade que revela uma terceira possibilidade de compreensão.

 

            Contudo, o que pode ter motivado Gentileschi a ocultar a primeira versão da pintura não parece estar visível por meio da técnica de raio-x. Podemos interpretar que o fato de Gentileschi optar por ocultar a primeira versão da pintura não corresponda a uma forma que demonstra a fraqueza ou a omissão frente ao ato intrusivo, até porque ela valer-se-ia desse tema algumas vezes mais durante sua carreira como pintora. Acreditamos, neste caso, que as pinturas podem constituir uma ferramenta usada na intenção de exorcizar o trauma sofrido, e ocultá-los constitui parte da violação imposta por poderes seculares e ranços culturais, onde o desejo do opressor ainda encontra eco, e a voz da vítima ainda é silenciada, omitida ou deturpada.

 

 

Referências

 

GARRARD, Mary D. Artemisia Gentileschi: The Image of the Female Hero in Italian Baroque Art. Princeton: Princeton University Press, 1989. 664 p.

VREELAND, Susan. The Passion of Artemisia: A Novel. First Edition. London: Publish Penguin Books. 2002. 352 p.

 

marlonjaanjos@gmail.com

Mestre em artes visuais. Neoísta.

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