Literatura

Fragmentos em Technicolor (parte 02 de 02)

capa: detalhe de Eric Fischl – Untitled from Floating Islands – 1985 (metade direita)

 


La gazza ladra

 

P.L. estanca à porta do banheiro. De repente os escritos na porta deixam de fazer sentido. P.L. comeu filés de carne de porco no almoço, era, sim, era por isso que parte dos combatentes religiosos na praça da estação a mirava com olhos de júri, sim, o terço judeu certamente, este que falava algo sobre a imoralidade e apontava para mim, sim. O corredor do banheiro entupia-se com pessoas lindas, pra que tantas? Um casal de garotas encostado na parede se tocava e me olhava de canto de olho e ria, e ria. Nunca tive desejo por meninas até ali, embora Apauê. Jesus morreu pelos pecados de alguém, mas não pelos meus. Dixit autem ad illam: remissa sunt peccata tua. Talvez a pessoa mais bela que eu tenha visto em toda a vida fosse aquela saindo do banheiro, esbarrando na porta embriagada enquanto esfregava uma das narinas enquanto ajeitava pra baixo com uma das mãos encharcadas o vestido ridículo e transparente enquanto suas gotas de orvalho suado piscavam no ritmo daquela tosca música brasileira, oh! Tannhäuser, Tannhäuser!, enquanto ela esfregava uma de suas narinas e por uma de minhas narinas ela entrava com aquele cheiro ridiculamente brega e doce que a tornava ainda mais infantil e boba e bela e entrava pelos meus hormônios e neurônios e eu nunca tinha me apaixonado na fila do banheiro de uma boate mas ela era tão tosca e tão bela! – P.L. tem dificuldades em reconhecer os símbolos na porta. Uma espécie de Conan, um bárbaro latinoamericano a observa do balcão, um pirata de regata com músculos de aço que posa qual marfim ao beber seu copo da mais pura água! (ouvem-se aplausos da plateia de senhoras) Tannhäuser! oh, Götterdämmerung! o casal de meninas evapora lentamente numa nuvem úmida, a parede se mancha aos poucos de lilás. P.L. vê um bebê ser carregado num cesto rosa por uma loura camponesa e P.L. deseja-os. Não sabe o quanto bebeu, nem se bebeu, e nem quanto, se bebeu. Pensava se acaso Virgílio ainda demoraria muito para sair do banheiro esfregando as felinas narinas, pensava se Virgílio tinha de fato entrado no banheiro. A tosca valquíria rodava flutuando pelo corredor carregada por seus ares doces, e quanto a amei e quanto queria que morresse despencada do alto de seu vulgar morro de estupidez e quanto eu a amei. P.L. tem dificuldades em reconhecer os símbolos na porta e aqueles em seu entorno rebolam o bumbumtamtam enquanto os chimbais de Wagner anunciam a abertura dos portais do sagrado mijo dentro de onde toda a atividade humana resume-se ao degustar do alívio. P.L. lia os grafites ao seu redor com toda a lentidão permitida por seu estupor e ao seu redor o corredor enchia-se de pequenos querubins danados com estúpidos cheiros doces, e aconteceu de P.L. pensar consigo mesma apenas por um instante o que demônios estava a fazer ali, na escuridão do estrobo a luz . luz . luz . mais luz . LUX! e P.L. lia em eletrônicas piscadas os grafites nas paredes da boate e eles soavam como a voz de Apauê, onde é que estava, onde é que ela estava? Et vidi de mari bestiam ascendentem, habentem cor nua decem et capita septem, et super cornua eius decem diademata, et super capita eius nomina blasphemiae, quem é que grafita isso na boate?, e era como aquele que ia ao banheiro com suas cabeças e aqueles cheiros tão doces e creio que demorariam tanto lá dentro não fossem os sinos que dobravam pelo anúncio do openbar de vodka pelos próximos dez minutos naquela caverna sudorípara, Mother Russia! o casal na minha frente me olhava com olhos de fome, com aqueles ímpios olhos de Mefistófeles e os dedos qual dança e qual manejo de uma harpa nefasta e os dedos perversos causavam tremores em uma em outra e em mim e os ímpios olhos me comiam enquanto eu, tola, pensava em Apauê molhada lendo, lambendo, os grafites do corredor que se enchia de doces cupidos gostosos que eu comeria, todos. Intravit itaque rex et Aman, ut biberent cum regina. P.L. olhava em torno com olhos turvos. Algo de sua natureza ébria não se podia explicar, tal como são os sagrados mistérios velados aos homens. Ela via uma das meninas como uma concha a sugar o rosto da outra, babando uma cremosa espuma de Vênus enquanto a harpa emitia as mais sagradas melodias. P.L. tem dificuldades em reconhecer os símbolos na porta. Lohengrin!, não mais se vê em torno o pirata-esteróide com sua trança única, um pervertido e disfarçado chicote de Sade, demasiado profano para o bronzeado sagrado daqueles querubins hormonais que fecundam o corredor da boate com suas secreções da cor do crepúsculo. Think not so slight of glory; therein least Resembling thy great Father: he seeks glory. A loura camponesa passa com seu bebê dourado no cesto violeta e P.L. os deseja, mas não tanto quanto deseja a diabólica madame Mme., que passa carregando seu prateado filho sobre os seios e come-o, dedo por dedo, mecha por mecha, no fundo do corredor negro iluminado apenas pelo verde amanhecer do Hades, até se transformar na própria e completamente sexy filicida Salomé, que serve aos mancebos alguns bloodymarys turbinados sobre uma bandeja enquanto grita que Jesus morreu pelos pecados de alguém, mas não pelos dela. P.L. sente-se impotente e desgraçada pelos desejos que a habitam, e pelo fato de Apauê não estar ali, e por Virgílio ter descido ao Inferno através da privada, deixando trancada a porta atrás de si, impedindo que o resto da fila pudesse mijar. Chovia no corredor da boate e uma moça inteira de rosa segurando uma sombrinha rosa abria caminho entre todos ao passar gritando o nome de Zeus enquanto era fotografada por um poeta latinoamericano que bebia um pingado. Salomé sumira logo antes disso, demasiado profana para o bronzeado sagrado daqueles querubins hormonais que criavam qual índios dançando o milagre da chuva através da condensação de seus dourados e inocentes vapores hormonais. A voz de Apauê soava pelos alto-falantes. Sicut lilium inter spinas, sic amica mea inter filias. As meninas Jesus e Satã tocam suas harpas sagradas enquanto seus lábios incham cerejas paraíso-escarlates e ela se sente tão suja por ter comido filés de porco no almoço, eram dois suculentos, dois suculentos filés de porco. P.L. vê Siegfried passando entre a cortina de vapores das centenas de legiões que se amontoam no corredor da boate, legiões demandando o acesso ao templo das narinas corridas e mijo naquele buraco com cheiro de bode, eles eram tão doces! não, não era Siegfried, saia daqui, não é Siegfried, deixe-me em paz, nem em sonho seria Siegfried tão novo, tão novo, tão belo, mas é tão belo, tão belo, é Tadzio, é Tadzio! tão belo e tão novo e tão dourado Tadzio! Ai de mim! Cum ergo surrexisset Philisthaeus et veniret et appropinquaret contra David, festinavit David et cucurrit ad pugnam adversum Philisthaeum. E ela debruçada sobre uma balaustrada de estrelas! E P.L. pouco podia enxergar em sua falta de foco. Seus lábios pronunciavam “Tadzio” lentamente enquanto suas costas encharcadas encostadas na parede de hormônios mal a sustinham de pé. Se tivéssemos mundo suficiente e tempo! As moças à sua frente iam além do nirvana entrando juntas no cubículo enquanto as caixas acústicas retumbavam ao som de bumbum granada, que P.L. jurava ser Die Geschöpfe des Prometheus. O diabo está nessa porta.

Não se sabe o tempo passado até que P.L. chegasse ao banheiro, nem o tempo que passou lá dentro, não se sabe nem mesmo se alguém mais entrou depois dela; dissesse que a inconsciência é a mãe da eternidade. A memória de Tadzio já era distante e a do corredor inexistia. Despeço-me. Oh, Caroline, tell me why you wanna leave this way? Atrás da lâmpada azul no teto o céu se abre em seu glorioso negro e sem estrelas. Chove, e embora não se veja a chuva escura, sente P.L. a pele reagir ao fino choque do frio. É, para ela, a concretude de sua frágil realidade: o negro glorioso e o frio. Chove. Chovem gotas de tequila evaporada. Talvez fossem os jovens desformes lá de fora de quem ela não mais lembrava, pingando sobre seus olhos como gotas humanas e viscosas. Não há hormônios no cubículo de P.L. Ela se encosta numa das paredes, que vibra.

Vibra.

Vibra.

o casal. Jesus geme enquanto um Satã tocador de alaúde recita trechos d’a imaginação de J.-P. Sartre com voz de Pato Donald, perguntando em seguida se Rosa teria sido um covarde ao não firmar Diadorim como um belo bem dotado dono de uma porra enorme cangaceiro de cílios postiços – seus olhos naqueles olhos e tanto de Diadorim, o verde mudava sempre, disse-me hoje o Dr. Murta que devem-se ao parto tardio de gêmeos, o que facilita o estrabismo – e grita deus ex-machina! deus ex-machina! e grita deus ex-mah! a cada vez deus ex-ahhh! e a cada vez que grita deus ex-machina! Jesus urra de prazer e as paredes todas vibram e chove, chove, starving hysterical naked, e Jesus toma o rosto de Satã entre suas mãos e esfrega entre seus peitos e exclama, olhando para o céu de um negro glorioso, que as páginas escritas por Jane Austen não serviriam nem mesmo pra forrar aquele banheiro nefasto e Zeus numa ejaculação em forma de raio angry fix manifesta-se em aprovação glória! e Rosana nas alturas! e glória! – quem é Rosana? Caroline, tell me where you gonna go tonight? quem disse isso? e Jesus pergunta ofegante enquanto seus mamilos são chupados qual é a fruta que Eva sorveu até babar-se em orgasmos múltiplos e disse Satã “era buceta.” e disse Satã tocador de alaúde que o fruto. Dixit autem serpens ad mulierem: nequaquam morte moriemini! E Jesus treme em espasmos ao ter seus mamilos beliscados pelas unhas rosas de Satã, cuja calcinha branca jaz ensopada no canto entre a parede e o vaso sanitário, e seus lábios unidos explodem cerejas paraíso-escarlates e gritam uma boca dentro da outra num bíblico gozo engolido e soprado até as entranhas e evaporam completamente subindo ao céu – de um negro glorioso – e os gemidos de Jesus Cristo distanciam-se até sumirem qual estrela no horizonte crepuscular enquanto, num retorno, uma cereja perfeita cai… cai… cai… qual joia. um presente do Olimpo aos mortais carregado pela própria Íris, cai diretamente dentro do vaso mijado; um sacro chuá de três pontos.

P.L. lê na parede à sua frente que ginja tem gosto de cona: quam pulchri sunt pedes tui in calceamentis, filia principis! Flexurae femorum tuorum sicut monilia, quae fabricata sunt manu artificis.

Vinicius F. Barth
Doutor em Estudos Literários pela UFPR. Tradutor das Argonáuticas de Apolônio de Rodes. Escritor e ilustrador. Autor do livro de contos 'Razões do agir de um bicho humano', (Confraria do Vento, 2015) e do livro de poemas e ilustrações '92 Receitas Para o Mesmo Molho Vinagrete' (Contravento Editorial, 2019). Ilustrador de Pripyat (Contravento Editorial, 2019). Estudante de saxofone.

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