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Interrogando Rafael Araujo

Confira o Interrogatório que fizemos com o venezuelano Rafael Araujo, autor de maravilhosas visões arquiteturais de elementos da natureza. Veja aqui não só a beleza das conchas e das borboletas, mas também do puro cálculo matemático.

“Admirado ao descobrir a obra de M.C. Escher, vi que havia um mundo natural que podíamos calcular (ou, ao menos, ele parecia poder fazê-lo). Um mundo natural que vinha me fascinando através da observação do crescimento das plantas, dos padrões de distribuição das folhas, das espirais sempre presentes.”

  •  Como, onde, quando e por quê.

      

          Sempre tive habilidade para o desenho, desde a infância, e um dia alguém me comentou que as linhas paralelas se uniam em um ponto no horizonte, o que me levou a explorar o mundo tridimensional da perspectiva de maneira intuitiva. Admirado ao descobrir a obra de M.C. Escher, vi que havia um mundo natural que podíamos calcular (ou, ao menos, ele parecia poder fazê-lo). Um mundo natural que vinha me fascinando através da observação do crescimento das plantas, dos padrões de distribuição das folhas, das espirais sempre presentes.

 

          Posteriormente estudei arquitetura, porque é uma carreira muito ligada ao desenho e que permite aprender a compor, a fazer composição.

 

          Em arquitetura trabalhei fazendo perspectivas profissionais (à mão, sem o CAD), que eu coloria posteriormente, e com isso desenvolvi a técnica da cor de forma paralela.

 

          Sempre que tinha um tempo livre, me dedicava a calcular espirais em todas as variações possíveis e com a precisão que permite o manejo da técnica ao milímetro, produto da prática profissional.

 

  • Existem linhas quando você olha a natureza?

     

          Há linhas, e, mais importante ainda, existem padrões, nem sempre fáceis de ler para o olho não treinado, mas que estão aí para quem sabe vê-los, ou, talvez, intui-los.

 

          De alguma maneira, consciente ou não, todos tendemos a reagir diante deles (os padrões), e os reconhecemos como parte de nossa memória visual do que deveria ser o mundo. A mente tende a qualificá-los como certos, de forma quase automática, poderíamos dizer.

 

 

  • Houve algum tipo de mudança no seu trabalho com a chegada dos meios digitais? Além disso, por que trabalhar manualmente?

     

          Quando o CAD apareceu foi mais fácil calcular as perspectivas comerciais, mas no meu trabalho pessoal de cálculo eu sempre estive ligado à mesa de desenho, utilizando linhas de suporte, de referência, de simetria, e desfruto do trabalho manual e da trama gráfica que vai ficando como um substrato de fundo e como uma base de onde se lançam a voar as mariposas em sequências pré-estabelecidas por mim, entre esse emaranhado de linhas e andaimes geométricos.

 

          O CAD, em resumo, não significou nada no meu trabalho atual, que é renascentista em sua origem.

 

  • Por que borboletas e conchas? Eles são de alguma maneira mais geométricos que outros elementos naturais?

 

          As conchas são, definitivamente, muito “geométricas”. Cada uma delas, segundo a sua variedade, é uma equação congelada em carbonato de cálcio. A fórmula é relativamente simples e bela ao mesmo tempo.  

 

          Sucede que elas são os sujeitos perfeitos para exemplificar, em cores e movimento, trajetórias de espirais, já que de outra forma seriam umas meras curvas tridimensionais interessantes, mas áridas para quem não é um especialista na matéria. As borboletas, por outro lado, permitem perceber a ordem e a magia implícitas das espirais em ascenso enquanto batem as suas asas dentro de um cálculo platonicamente perfeito. A alma aspira à perfeição platônica.

 

  • Fale um pouco de suas paisagens. Como é a arquitetura em seus landscapes? É um tipo de escape das linhas estruturais da série de cálculos?

      

          As paisagens são obras de perspectiva “livre”, onde os cálculos das distâncias e a percepção de profundidade e imensidão se conseguem (ou não) através do manejo das cores, e não com linhas de fuga. Nas paisagens que faço, poderíamos dizer que, por comparação com meu outro trabalho, pouco ou nada há de desenho. São composições de cores estrategicamente dispostas, que dão tridimensionalidade à tela.

Provavelmente, antes da existência da fotografia, todo naturalista necessitava dominar o desenho e a pintura antes de pensar em vir da Europa civilizada para visitar as “Regiões Equinociais”. Ainda hoje em dia, uma das reações da mente diante da beleza do mundo é tratar de reproduzi-la em um traço, em um desenho, um esboço… Até que apareceram os telefones celulares!!!

  • Como você descobriu o interesse do público no seu trabalho? Foi uma surpresa?

     

          Sim e não. Num ambiente doméstico eu sempre fui reconhecido como possuidor de um certo talento plástico, digamos. Depois, quando me atrevi a dar o salto de sair ao público, sim, foi e continua sendo uma surpresa contínua ao ver que é verdade, que é verdadeira a reação de terceiros (ou seja, de pessoas que não conheço) diante do meu trabalho, que inclusive estão dispostas a pagar por ele!… Nesse sentido eu não deixo de recomendar, para todo aquele que deseja transitar pelo caminho da arte, que trate de fazê-lo para o mundo, para fora, compartilhando, expondo-se para que seja criticado ou querido. É fundamental estabelecer um “círculo virtuoso”, onde seu trabalho passe às mãos de terceiros, de forma que você se veja na obrigação de fazer coisas novas, e, se possível, melhores.

 

  • O que é para você a proporção áurea, o PHI? Há um significado pessoal?

     

          Na verdade, a ordem absoluta não existe e nem está restrita a um número particular, o PHI neste caso. PHI representa a idealização dessa ordem, e ele em si mesmo é um número único, presente nas relações matemáticas e geométricas únicas. Agora a Espiral de Fibonacci, que se constrói com uma sucessão de números cujo quociente é PHI, é uma aproximação da “Espiral Ideal”, a espiral das galáxias, do alinhamento das sementes de girassol, os tornados, etc, etc… Mas é isso, uma aproximação. Eu afirmo que o número de espirais similares é infinito, como são infinitas as situações em que as espirais são protagonistas, e que desse infinito número delas, a espiral de PHI representa a todas no ideal de nossa consciência coletiva desde que se tem memória. Nesse sentido o PHI é único.

 

  • Desde Da Vinci até Escher, quais são as suas influências e heróis?

     

          Gosto muito dos pintores flamencos, como Jan van Eyck, ou o alemão Albrecht Dürer. Leonardo o teórico, Michelangelo o pragmático. Escher foi meu ídolo de juventude, que me abriu os olhos ante o universo N-Dimensional, e o valor do conhecimento e domínio da técnica como meios de transcender o cotidiano.

 

  • Projetos futuros?

     

          Trabalhar.

 

  • Existe algo que você sempre quis responder e nunca te perguntaram? =)

     

          Não. Não sou de grandes conflitos pessoais. Me indigna, sim, o manejo imperdoável da sociedade de consumo para com os recursos naturais, assim como o uso criminoso e irresponsável dos plásticos!

vinicius.rnott@gmail.com

<p>Doutorando em Estudos Literários pela UFPR. Tradutor. Estudante da literatura grega antiga. Autor de artigos científicos que ninguém nunca vai ler. Escritor. Autor do livro de contos ‘Razões do agir de um bicho humano’, publicado pela Confraria do Vento em 2015. Curioso do desenho e da fotografia. Nunca um entusiasta.</p>

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