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Açores Profundos

Festa do Divino Espírito Santo, ilha de São Jorge, 2004.

Em um dos trabalhos mais sensíveis que já passaram pela nossa R.You!, apresentamos a fotografia do açoriano Paulo Monteiro, que documenta a religião, as festas e a cultura do seu arquipélago num processo artesanal infinitamente belo.


“Enquanto este pequeno povo insistir em manter a sua identidade cultural, cá estarei para documentá-la, tentando aliar informação e estética, Fotografia e Antropologia.”

Nasci na ilha de São Miguel, arquipélago dos Açores, em junho de 1963. Sou fotógrafo autodidata.

 

Tenho desenvolvido projetos de fotografia documental sobre vários assuntos, como religiosidade popular, festas profanas, arquitetura, Natureza, ou o mundo do trabalho. Mas considero-me essencialmente um fotógrafo humanista.

 

As minhas fontes de inspiração são as fotografias de Henri Cartier-Bresson, William Eugene Smith, Sebastião Salgado e Cristina García Rodero, entre outros.

Sempre utilizei equipamento fotográfico de 35 mm. Desde de 2010, trabalho com corpos Leica R5 e R6, equipados com objetivas Elmarit de 35mm e Summilux de 50 mm. Creio que nunca mudarei para a tecnologia digital. Todos os filmes e todas as fotografias em papel são revelados por mim, utilizando reveladores também feitos por mim, a partir dos compostos químicos de base. Sou, portanto, um artesão e alquimista da fotografia, que mantém com câmaras e lentes, filtros e ampliadores, com filmes e papéis, grãos de prata e químicos, uma relação afetiva, da qual nascem imagens. Imagens monocromáticas, que traduzem, por um lado, o azul do mar omnipresente que separa as ilhas, mas que as une, que as protege pelo isolamento, que lhes dá trabalho e alimento; por outro, os rostos, as vidas e os gestos das gentes.

Dança de Carnaval, ilha de São Miguel, 2013.

Momentos após a cerimónia do batismo de um barco de pesca artesanal, ilha de São Miguel, 1998.

Embora tenha feito algumas incursões noutras paragens, o meu território de eleição tem sido estas ilhas onde nasci e onde sempre vivi.

 

Ilhas banhadas por um mar agreste e sem fim. Feitas de lava negra, áspera e dura. Como as vidas de homens e mulheres que há quase seiscentos anos tiveram a ousadia de vir e cá ficar para sempre. Ou que a isso foram obrigados, que naquele tempo era assim, obedecia-se aos tiranos para que o chicote batesse com menos força. Aqui construíram a sua cultura. Que anos depois filhos e netos levaram para longínquas paragens: Canadá, Estados Unidos, Bermuda, Brasil, Uruguai, Havai. Terras onde procuraram sonhos, construíram vidas, e lançaram sementes do modo de vida que levaram das suas ilhas. Transportaram na alma o culto ao Divino Espírito Santo, e adaptaram-no às terras que encontraram. Sei que ainda persiste, com formas diferentes em cada terra que povoaram. O mundo, que então ainda apenas começara o fenómeno da globalização, permitia a construção das diferenças que hoje tendem a esbater-se sob a hegemonia de um poder económico sem rosto e sem caráter.

Procissão de Santa Filomena, ilha das Flores, 2013.

Festa da Sagrada Família, ilha do Corvo, 2008.

Oficialmente, o arquipélago foi descoberto pelos portugueses no século XV. Os primeiros povoadores destas ilhas trouxeram consigo práticas religiosas ancestrais, cujos rituais ainda hoje são executados de uma forma mais ou menos pura. Esses rituais assumem formas muito diferentes em cada uma das ilhas. Essas diferenças são consequência do isolamento a que cada uma das ilhas esteve votada durante séculos.

 

Desde sempre, as ilhas foram afetadas por terramotos, por erupções vulcânicas e por tempestades, atacadas por corsários e por piratas. Isolados do mundo, frequentemente abandonados pelo seu rei, os açorianos sempre pediram proteção divina, praticando rituais que ainda perduram.

 

De origem não religiosa, mas igualmente interessantes, os rituais de Carnaval são praticados principalmente por uma juventude irreverente, que assim encontra uma forma saudável de divertir-se e de afirmar a sua identidade cultural.

Romeiros da Quaresma, ilha de São Miguel, 2001.

Festa do Divino Espírito Santo, ilha Terceira, 2014.

“O universal é o local sem paredes”, escreveu Miguel Torga em “Traço de União”. É nesse pressuposto que há anos percorro todas estas ilhas, de lugarejo em lugarejo, de rua em rua, entrando nas casas onde me abrem as portas. Vou aos lugares mais recônditos, alguns com poucas dezenas de habitantes. Tenho acompanhado procissões, peregrinos e foliões.

 

Como açoriano e como fotógrafo, parece-me importante e urgente documentar esses rituais, antes que sejam adulterados pela globalização, pelo turismo de massas, ou pelo poder político, que frequentemente se apropria da cultura popular como forma de obter apoio do povo, “… pois estes Açores a preto e branco, que durante séculos pairaram no tempo como uma bola de sabão, estão prestes a rebentar e a desaparecer.” [1]

 

Procissão de Nossa Senhora das Candeias, ilha do Pico, 2008.

Procissão de Nossa Senhora da Guia, ilha do Faial, 2012.

Além disso, a crise económica e financeira que afeta o mundo, e Portugal em particular, começa a ter consequências na realização destas festas. Há sinais preocupantes do declínio de uma cultura que, se não for documentada a tempo, desaparecerá sem deixar quaisquer vestígios.

 

Para mim, esta série será sempre work in progress. Enquanto este pequeno povo insistir em manter a sua identidade cultural, cá estarei para documentá-la, tentando aliar informação e estética, Fotografia e Antropologia.

 

 

Santa Bárbara, RG, ilha de São Miguel, março de 2015

Paulo Monteiro

http://paulomonteiro.jimdo.com/

Festa do Divino Espírito Santo, ilha Graciosa, 2006.

Cortejo de Reis, ilha de São Miguel, 2014.

vinicius.rnott@gmail.com

Doutorando em Estudos Literários pela UFPR. Tradutor. Estudante da literatura grega antiga. Autor de artigos científicos que ninguém nunca vai ler. Escritor. Autor do livro de contos 'Razões do agir de um bicho humano', publicado pela Confraria do Vento em 2015. Curioso do desenho e da fotografia. Nunca um entusiasta.

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