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Leonardo contra Paris

Até que ponto somos mais verdadeiros do que as imagens que criamos de nós mesmos em redes sociais? Vinicius F. Barth comenta o livro Leonardo contra Paris, de Márcio-André.

“Márcio-André joga com o extremo da necessidade de exposição virtual, criando uma vida extremamente bem sucedida a partir da miséria de um sujeito fracassado.”

         Desde o início da minha vida como leitor, um fenômeno curioso sempre me chamou a atenção: o modo quase metafísico como as diferentes leituras se complementam; de como leituras posteriores modificam as anteriores, e de como as leituras que acontecem contemporaneamente em nossas trajetórias se entrelaçam e crescem. Um texto, para um leitor, é um constante objeto de transformação causada pela vida, pelo cotidiano e pelas leituras seguintes. Um livro já terminado nunca é um livro morto; sempre renasce por meio de uma referência tardia ou de uma lembrança casual. É uma planta. É como uma piada que você demora dias, meses ou anos pra entender. Esse é o riso tardio, um sentido que você descobriu muito tempo depois – mas nunca tarde demais. Todo grande romance é como uma grande piada.

 

         O fenômeno mais recente desse tipo que se deu comigo foi há alguns dias, quando De Profundis, de Oscar Wilde, jogou uma luz bastante valiosa sobre a minha leitura anterior, Leonardo contra Paris, livro ao qual essa coluna está dedicada. De Profundis é um texto escrito em forma de carta por Oscar Wilde durante o seu período de prisão, e está adereçado a ‘Bosie’, apelido de Lord Alfred Douglas.

 

         Na abertura de um parágrafo de De Profundis, diz Wilde:

“É trágico ver quão poucas pessoas chegam a ‘possuir suas próprias almas’ antes de morrer. ‘Nada é mais raro num homem’ – diz Emerson – ‘do que um ato independente’. E é verdade. A maior parte das pessoas são outras pessoas. Seus pensamentos são os pensamentos dos outros, suas vidas são uma imitação de outras vidas, suas paixões, citações de um texto já lido.”[1] (tradução de Júlia Tettamanzy)

         Essa citação, importante para a reflexão que busco aqui, ressoa ainda duas sentenças proferidas alguns parágrafos antes, quando Wilde faz referência a conversas passadas tidas com Bosie: “Durante uma de nossas crises, você me escreveu dizendo ‘você não é nada interessante quando desce do seu pedestal’.

 

          A segunda diz:

E se desejar uma frase para ler durante a madrugada ou no meio da noite, que sirva tanto para os momentos de prazer quanto para os de sofrimento, escreva nas paredes de sua casa, com letras que o sol possa dourar e a lua pratear, a frase: “Tudo que acontece ao outro, acontece também comigo”.

         As sentenças e os grifos definem, do modo como eu leio, o personagem de Leonardo, e eu gostaria de apresentá-lo sob essa luz.

 

         Leonardo contra Paris, novela escrita por Márcio-André e editada pela Confraria do Vento, trata de um jovem cuja carreira como escritor ficou apenas na promessa. Além disso, ele mantém, por meio de redes virtuais, acesa a falsa chama de sua genialidade e do seu sucesso. Logo no início da obra, presenciamos uma falsa festa de despedida no Leblon promovida por Leonardo, que anuncia sua ida a Paris para lecionar na Sorbonne, mas parte, em seguida, para viver numa casa herdada da família em São João de Meriti-RJ.

 

         Essa é a sua situação de início.

 

         Leonardo, personagem completamente dúbio, sofre uma severa queda social e passa a construir, desde Meriti, um Leonardo fictício, que é professor convidado da Sorbonne e reconhecido mundialmente como um grande emergente em sua área. Ele manipula, por redes sociais, o seu eu-social. O Leonardo que o mundo vê é o Leonardo virtual, e paradoxalmente passa a ser o Leonardo real.

 

         Isso é importante. O sucesso social é o fator decisivo, pois, retomando Wilde, ‘você não é nada interessante quando desce do seu pedestal’. Essa máxima parece refletir, de certo modo, o sintoma de uma geração: a nossa. A frustração que define a ‘geração Y’ é o que move a farsa de Leonardo. Márcio-André joga com o extremo da necessidade de exposição virtual, criando uma vida extremamente bem sucedida a partir da miséria de um sujeito fracassado. Em alguma medida, grande parte da população ligada a redes sociais teria motivo para invejar as imagens criadas por ela mesma.

 

         Na vida real de Leonardo – a miserável – tudo é rebaixado quando comparado à sua vida anterior – de bom status social por causa de um romance que ele teve com uma celebridade – e à sua vida virtual. Tem em Meriti poucos amigos, perdidos na vida. Arranja ali uma mulher, pobre em todos os aspectos e desprezada por ele. Há a sua herança, uma casa favelada. Leonardo é arrogante com relação a esse ambiente em que agora vive. Carrega consigo a soberba de Paris.

 

         Conforme o texto avança, descobrimos que a virtualidade falsa de Leonardo em Paris ganhou vida. Ele está listado entre os professores convidados da Sorbonne. Ele recebe visitas de amigos em Paris. Vê fotos dele mesmo com os amigos. Ele é, de fato, uma pessoa de sucesso. Ele existe, e é um outro.

 

          “Tudo o que acontece ao outro, acontece também comigo”.

 

         A segunda máxima de Wilde toma corpo. A confusão ontológica que envolve Leonardo e ele-mesmo-outro inverte os papeis, joga o protagonista na condição desfavorável de um ser esquecido no canto de Meriti. Ele é o menos importante, enquanto seu outro-eu disfruta do privilégio de ter realizado as grandes ações que ele mesmo, Leonardo, não foi capaz de realizar. Ele está em Meriti, o Outro está em Paris, fazendo um baita sucesso. Mais importante, o Outro é admirado de um jeito que ele queria ser e não consegue.

 

         Embora tudo isso pareça muito confuso, o sentimento da inveja é muito palpável, bem como o da frustração. Sentimo-la quando um colega da mesma área atinge resultados superiores aos nossos. Sentimo-la quando sonhamos assumir uma posição que desvanece no despertar. E sentiríamos, com toda certeza, quando um Eu inventado em meio a devaneios toma os nossos sonhos para ele e os realiza competentemente.

 

          “Naquela noite tratou de sonhar que Meriti era outro país”.

 

         A dubiedade de Leonardo é uma dubiedade que pode existir em cada postagem que fazemos no Facebook, transformando quaisquer frivolidades do cotidiano em grandes realizações. Talvez a rede social seja uma grande central da comiseração, e também da inveja, pois o fato inventado é lido e entendido como sucesso pessoal e profissional.

 

         Afinal, diria Emerson via Wilde, “nada é mais raro num homem do que um ato independente”.

 

         Leonardo contra Paris simboliza a dependência do ato, a manutenção do status, uma grande luta que a nossa contemporaneidade está tentando entender, que é a luta da imagem e da aceitação. E em que medida essa imagem simboliza realmente o que somos numa existência real?

 

         Imagem e aceitação; comiseração e inveja.

 

         Pares que parecem definir Leonardo e que são corroboradas pelas suas próprias palavras, num dos momentos de maior tragédia deste personagem:

“Você pode até estar rindo de mim agora. E talvez eu até tenha merecido isso, mas eu também tenho sentimentos. E, ademais, nem sempre fui esse filho da puta. Tornei-me pela força cinética que ajuda a fazer da falta de talento um êxito. Porque, afinal, mesmo reconhecendo minha mediocridade, o prestígio seduz. E se você disser o contrário, eu o chamarei de mentiroso. Porque negar isso é fingir que não deseja ser admirado invejado, alvo de amores incondicionais e da presta generosidade de todos.”

         As perguntas que lanço, afinal, são: será que o Leonardo de Paris sentiria alguma piedade verdadeira pelo Leonardo de Meriti? Será que nós mesmos inventamos algum avatar que está sendo lançado ao mundo e que nos representa em toda a nossa glória? – e que invejamos? Pensemos nesse par: comiseração e inveja.

 

– Eu sou um fracasso, não sou?

– Não, claro que não. Olhe aonde eu cheguei.

 

 

 

 

[1] Todos os grifos são meus.

vinicius.rnott@gmail.com

<p>Doutorando em Estudos Literários pela UFPR. Tradutor. Estudante da literatura grega antiga. Autor de artigos científicos que ninguém nunca vai ler. Escritor. Autor do livro de contos ‘Razões do agir de um bicho humano’, publicado pela Confraria do Vento em 2015. Curioso do desenho e da fotografia. Nunca um entusiasta.</p>

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