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Interrogando Yuko Shimizu

“Se eu gostasse tanto assim do que eu já fiz no passado, eu deveria então parar de criar. A atitude para se continuar criando é acreditar que se possa melhorar, e que se possa criar melhores coisas no futuro.”

 

  • Olá Yuko! É um prazer apresentá-la na nossa revista!

 

         Obrigada pelo espaço.

 

  • Como, onde, quando e por quê?

 

         Eu sempre fui uma dessas crianças que ficavam na classe depois do almoço, independentemente do quão bonito e ensolarado estava lá fora. Enquanto meus amigos jogavam queimada nos terrenos do colégio, sempre havia um certo número de crianças que ficavam no canto escuro da sala de aula, desenhando em seus cadernos. Eu era definitivamente um deles.

 

         Eu não fui atrás da arte na faculdade pelas razões típicas; meus pais não curtiam a ideia. E mais importante, eu era nova e muito determinada a não combatê-los. Fui então a uma universidade regular e me graduei em propaganda e marketing, porque achava que entre os campos de estudos práticos, esse era o mais criativo. Depois arranjei um emprego numa empresa de Relações Públicas, uma grande corporação situada no centro de Tóquio. Eu não odiava o trabalho, as RP eram interessantes, mas eu também sabia que a vida corporativa não servia pra minha personalidade de ‘lobo solitário’. Eu não sou ótima em políticas de escritório e tudo mais, mas acabei trabalhando lá por 11 anos, já que, de novo, eu era jovem e não conseguia me decidir com relação à minha cabeça e o meu futuro. Acho que comecei a mudar por volta dos 30 anos. Os 30 anos representam a idade adulta bem estabelecida. Comecei a pensar seriamente na minha vida adulta futura, já que a última coisa que eu queria era me arrepender das decisões tomadas e me sentir amarga mais tarde. O único jeito de não sentir arrependimento é fazer o que te dá na telha. Se você o fizer, mesmo que não dê certo, você saberá que tentou o seu melhor.

 

         Decidi deixar o meu trabalho e perseguir o que eu sempre quis: arte. Me mudei para Nova York para estudar arte pela primeira vez na faculdade, na School of Visual Arts. Voltei aos estudos durante quatro anos e me graduei com um MFA (Master of Fine Arts) em ilustração em 2003. Desde então venho ilustrando o tempo todo, e dando aulas em período parcial.

 

 

  • Como é ser considerada uma das 100 pessoas japonesas respeitadas pelo mundo (de acordo com a Newsweek Japan em 2009)? Você já pensou sobre isso e sobre o que isso representa? Além disso, quais japoneses você realmente admira?

         Isso foi tipo um acidente. Um jornalista veio me entrevistar, dizendo que iria escrever um artigo sobre as pessoas japonesas que estão fazendo coisas interessantes no exterior. E eu disse ‘claro’. Descobri, então, que era muito mais do que isso quando saiu a edição. Claro que fiquei feliz, isso faz eu parecer bem melhor do que sou realmente, lol.

 

         Eu admiro as pessoas, japonesas ou não, que fazem algo diferente do resto, e são corajosas para fazê-lo. O Japão é um país muito ordenado onde a cultura é a de se adequar. Por isso acho que é extremamente difícil realizar algo extraordinário. Eu li recentemente o novo livro de Haruki Murakami em que ele conta sobre como é ser um novelista. Eu não imaginava que tantos o odiassem no Japão e que ele tivesse que tolerar tanta coisa, e mesmo assim ele escreve graciosamente sobre o que quiser, de maneiras inovadoras, interessantes e fora da caixinha, comunicando-se com gente ao redor do mundo. Eu o respeito, e respeito aqueles que são corajosos o suficiente para fazer o mesmo.

 

  • Falando sobre influências: eu acho que a sua lista de 15 influências que carrego pra vida é bastante interessante, por ser tão diversa. Fale um pouco sobre construir um repertório sólido. Ademais, já que você é também uma professora: o que você pensa dos estudantes dos dias atuais e das suas toneladas de referências digitais (muitas vezes bastante superficiais)?

 

       Tudo tem os seus prós e os seus contras. É ótimo que possamos pesquisar sobre tudo e obter materiais de referências entrando na internet. Eu nunca trabalhei como ilustradora antes do tempo da internet. Mas vários artistas, um pouco mais velho do que eu, trabalharam. Eu não consigo nem imaginar como isso deveria ser. Quando eu recebo um tópico ou artigo, a primeira coisa que faço é estar online para aprender mais, ler mais, ver imagens, etc. Esse é o começo de um projeto.

 

         Mas a parte dos contras é que tudo está muito acessível, e se você não usar a internet de maneira sábia, será facilmente usado por ela. Há uma questão que nós, instrutores de escolas de arte, vemos hoje em dia com estudantes que têm acesso tão fácil a tudo na internet.

 

         O nível geral da qualidade da arte subiu, graças ao acesso fácil a todo tipo de arte boa. Mas isso está ao mesmo tempo matando rapidamente as vozes individuais. Tive há pouco essa conversa com uma amiga que é diretora de arte. Ela disse que é realmente difícil encontrar algo novo, já que todos os trabalhos são tão similares. A maioria dos artistas apenas ‘segue’ o que está lá fora, o que é bastante fácil, e eles fazem isso muito bem. Mas agora, mais do que nunca, a decisão consciente de ‘liderar’, e não de seguir, é importante. É como se houvesse H&M (Hennes & Mauritz, marca sueca de moda) em todo o mundo e todos se vestissem melhor, mas de maneira igual. É a rápida fashionificação de tudo, incluindo a ilustração, que me preocupa. Use a internet sabiamente e não seja usado por ela. Eu tenho que dizer isso para mim mesma também, senão podemos facilmente afundar nesse mar de informação.

 

 

  • Além de influências que são bastante visíveis no seu trabalho, como a arte de Hokusai, não pudemos deixar de pensar em Akira Kurosawa em aspectos de movimento, fluência, e principalmente a profunda e permanente presença dos quatro elementos e da natureza. Fale um pouco sobre a sua composição: o planejamento da imagem, os temas e os elementos que são indispensáveis.

  

       Ha! Eu acho que só assisti uns poucos filmes do Kurosawa. Interessante… Eu deveria assistir mais filmes dele. São ótimos. Por sinal, Rapsódia em Agosto, um dos seus últimos, é um dos meus filmes favoritos.

 

         Eu tenho pensado em qual seria a melhor maneira de ensinar composição a estudantes e jovens artistas. Quero dar aula disso, mas não sei por onde começar. Composição, pra mim, é um dos aspectos mais importantes na construção de uma imagem. Em geral eu acho que estudantes e artistas jovens, em especial, são muito descuidados com isso. Um dos meus colegas instrutores disse recentemente que ‘ou você tem isso ou não, você não pode ensinar composição’. Eu não tenho certeza se concordo, no entanto. Isso não é como a teoria da cor, há um número muito pequeno de regras básicas, e o resto é o como quebrar, pessoalmente, essas regras. É um assunto muito aberto, e por isso é extremamente complexo.

 

         Uma coisa que sempre faço é desenhar em toneladas, incluindo rabiscos preliminares. Miniaturas, desenhos gestuais bastante pequenos, apenas para fazer a composição funcionar. Eu devo fazer cerca de 10 a 20, senão mais, apenas para sair com uma imagem no final. Os menores detalhes em uma imagem podem fazê-la viver ou morrer dentro do desenho. Por isso é importante planejar muito bem. É claro que há vezes em que a composição pode não funcionar durante o processo, e aí eu tenho que mudar rapidamente o meu plano, mudando a composição para fazê-lo funcionar. Essa é uma habilidade adquirida por meio do trabalho.

 

         Se um artista está tentando melhorar na composição, o melhor é fazer uma coleção de trabalhos que ele/ela admire como esplendidamente compostos, analisando como e por que são assim, e tentando copiar aquela composição em seu trabalho de modo que se aprenda isso no processo. É bastante tedioso.

 

         O que eu quero dizer é: se você olhar o trabalho como uma pintura abstrata e a composição funcionar como uma pintura abstrata, definitivamente ela irá funcionar.

 

         Hmmm… Difícil de explicar em palavras, não é?

 

 

  

  • Você tem um trabalho preferido dentro da sua produção, que você sempre almeja voltar para fazer novamente? Se sim, qual é, e por quê?

 

         Não. Se eu gostasse tanto assim do que eu já fiz no passado, eu deveria então parar de criar. A atitude para se continuar criando é acreditar que se possa melhorar, e que se possa criar melhores coisas no futuro.

 

  • Uma pergunta sobre paciência em duas partes: 1) Os seus trabalhos são bastante detalhados. Você costuma se cansar de uma peça que leva muito tempo para ficar pronta? 2) Você acha que os seus alunos têm paciência nessa era digital instantânea? O que você comenta com eles sobre esse assunto?

 

        Eu queria que o meu trabalho não fosse detalhado. O que amo realmente é o processo do desenho, e as composições, as linhas e os espaços negativos criados, então meu trabalho tende a ser mais detalhado do que eu queria. Às vezes eu estou bem focada e curtindo muito, outras vezes quero dar um tiro em alguém de tanto tédio. Acho que é por isso que passo tanto tempo na internet, lol.

 

         Eu não acho que os trabalhos mais detalhados são melhores. Há muitos trabalhos minimalistas incríveis. Acho que o ponto importante para o artista é deixar o processo escolhê-lo, e não o contrário. Eu queria poder fazer trabalhos minimalistas, mas sei que mandaria mal. Meu trabalho, quando é minimalista, não é bom.

 

         Então, o importante para jovens artistas é que escutem a si mesmos e descubram o que são, e que sigam o processo que os escolheu. Eu não acho que a era digital torna as pessoas menos pacientes. O foco e a paciência dos estudantes sempre foram grandes problemas em escolas de arte. Nada disso é novo. O mais importante é que cada artista encontre o processo adequado.

 

 

 

  • Você trabalha com cores digitais. Por quê? Além disso, você tem um colorista preferido?

 

       Por que não? A coloração digital me permite perceber o que eu quero que o meu trabalho faça, e não há, no momento, nenhum outro meio que possa alcançar o efeito que eu desejo. Nem mais, nem menos. Eu gosto, em geral, de cores limitadas. Gosto de usar cores em pouca quantidade, e essa limitação torna-se uma vantagem, não algo negativo. Naturalmente eu me atraio pelas colorações dadas por processos antigos, dos anos 1920 e 1930. As capas das primeiras edições da Fortune Magazine são fantásticas, e também os livros infantis russos do mesmo período. Amo também o que foi feito pela era do Construtivismo Russo, tanto nas cores quanto na composição.

  

  • Quais são seus projetos futuros? Existe um projeto de vida, de longo prazo?

 

         Sobre a maioria dos meus projetos presentes e futuros eu não estou autorizada a falar até que eles sejam publicados. Minha agenda está bem cheia agora, até o fim do verão. Considero que sou bastante sortuda ☺

 

 

 

  • Existe algo que você sempre quis responder e nunca te perguntaram? ☺

 

         Definitivamente há questões que eu queria que as pessoas parassem de perguntar, tipo ‘que pincel você usa e onde eu posso comprar?’ (se você quiser a resposta para isso, está detalhado na página de FAQs do meu website), ‘quando eu ensinarei a minha técnica de coloração digital’ (nunca. Eu só sei como que 5% do que o Photoshop é capaz de fazer, e acho que programas devem ser ensinados por quem os domina, então cada artista deve usá-lo do jeito que quiser. Eu não acredito que se possa ensinar uma técnica que funciona apenas para mim e provavelmente não funcione para os outros. Qual a lógica?), ou ‘que artistas eu estou vendo agora ou por quais eu estou sendo influenciada nesse momento’ (eu fico, intencionalmente, o mais longe possível de artista estudantes e profissionais do mesmo campo que eu. A última coisa que eu preciso é estar influenciada por colegas), etc.

 

         Eu não sei… Queria saber por que as pessoas não falam e perguntam umas às outras sobre coisas que estão FORA das artes visuais, porque o que está fora do que fazemos é o que nos faz artistas. Pelo menos é o que eu acho…

 

         Obrigada.

Site oficial: http://yukoart.com/

vinicius.rnott@gmail.com

Doutorando em Estudos Literários pela UFPR. Tradutor. Estudante da literatura grega antiga. Autor de artigos científicos que ninguém nunca vai ler. Escritor. Autor do livro de contos 'Razões do agir de um bicho humano', publicado pela Confraria do Vento em 2015. Curioso do desenho e da fotografia. Nunca um entusiasta.

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