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Imagem: Carlos Drummond de Andrade – Antologia Poética

Nesse mês contamos com a presença ilustre de um colunista convidado para falar de Literatura. Leandro Cardoso nos traz um texto sobre poesia, e sobre essa mágica comunhão que nos une a ela.


“Se é difícil falar o que seja a poesia, parece que cada um de nós tem dela uma experiência – quando a abstração se cala, a experiência se deleita.”

Há uma espécie de providência dos fados, um momento em que o universo faz ressoar em nossos átomos certa frequência que, de alguma maneira, abre – a providência – verdadeiros wormholes entre nós e tudo aquilo que ressoa essa mesma frequência, de modo a facilitar o encontro desses iguais, ainda que momentâneos. Nessa conjunção, nosso acesso a essas coisas torna-se mais fácil e, num encontro quase fortuito, caem-nos às mãos tudo aquilo e todo aquele que anda por aí, como nós, vibrando à mesma nota. Ressoei, nos últimos tempos, tal e qual alguns textos e poemas, e isso é, de certa forma, poesia – ou ao menos sua manifestação física.

Se é difícil falar o que seja a poesia, parece que cada um de nós tem dela uma experiência – quando a abstração se cala, a experiência se deleita. E não há como se relacionar com a poesia sem conviver com ela, sem senti-la em suas mais diversas manifestações. É possível que se diga, concordando com muitos que já disseram isso, que a poesia pode ser vista como uma espécie de condição da linguagem, como o resultado de uma sua manipulação operada pelo poeta – em condição de poesia, a linguagem não significaria de acordo mundo, mas de acordo com aquela imagem que ela cria: a Itabira cantada por Drummond não é, ou não é unicamente, a Itabira localizada em Minas Gerais a aproximadamente 19° 37′ 08″ S e 43° 13′ 37″ O; a Itabira de Drummond é apenas uma fotografia na parede, é aquela de noventa por cento de ferro nas calçadas, mas também de oitenta por cento de ferro nas almas. E o mais importante, a Itabira de Drummond é aquela que dói – e como dói!

 

Condição da linguagem, a poesia também parece uma disposição do homem em relação ao mundo. A Itabira-fotografia-na-parede é uma espécie de catalisador da relação entre Drummond e aquele mundo em que ele se criara: ele percebe, através da imagem do mundo real – a fotografia – a cidade que está dentro dele. A fotografia faz doer na carne do poeta a Itabira oitenta por cento de ferro nas almas, ele a sente em seu corpo – assim, Itabira está pronta para virar poesia na pena de um de seus filhos. A imagem criada com a linguagem é resultado de como o poeta é atingido pela realidade, mas também nos acerta em cheio ao final da leitura, pois não há como não sentir Itabira – seja lá qual for a nossa – doendo em nós após os dois últimos versos. E assim o poema, imagem feita poética pelo homem a partir da sua percepção do mundo, vê se completar em nós o seu ciclo, a sua poesia: Itabira também dói no leitor.

 

De acordo com Haroldo de Campos, escrevera Octavio Paz (O Rio – trecho): Não, não tenho nada a dizer; ninguém tem nada a dizer, nada nem / ninguém exceto o sangue, / nada senão este ir e vir do sangue, este escrever sobre o já escrito / e repetir a mesma palavra na metade do poema, / sílabas de tempo, letras rotas, gotas de tinta, sangue que vai e vem / e não diz nada e me leva consigo. A poesia, na verdade, não diz: ela é. É a pressão sanguínea, é aquilo que nos anima o olhar, que nos arrebata – aquilo que sentimos. A poesia, isso que nos move, somos nós que a dizemos no poema. Cecília Meireles (Mar Absoluto – trecho): Então, é comigo que falam, / sou eu que devo ir. / Porque não há ninguém, / tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos. Ela é voz de nossos mortos, é mar vasto de ilusões que dá o tom ao nosso sangue, obediente. A poesia atinge o corpo, é nele que ela se manifesta.

 

Les mots font l’amour, escreveu Breton. De fato, elas o fazem: às vezes entre elas, às vezes conosco também; o mais importante, porém, é que às vezes gozamos juntos: deixa que minhas palavras, ó branca, desçam e te cubram / como uma chuva de folhas a um campo de neve, / como a hera à estátua, / como a tinta a esta página (Octavio Paz, Escrito com tinta verde – trecho – trad. Haroldo de Campos). A poesia é o Esteves – Adeus, ó Esteves! – que, como por um instinto divino, se volta e nos vê; e que, por instinto humano, nos impele ao aceno, ao toque que nos põe em comunhão:

Toco tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca e a vou desenhando como se ela saísse da minha mão, como se pela primeira vez tua boca se entreabrisse, e basta que eu feche os olhos para desfazer tudo e recomeçar, e a cada uma das vezes faço nascer a boca que desejo, a boca que minha mão escolhe e desenha no teu rosto, uma boca escolhida entre todas, com soberana liberdade escolhida por mim para desenhá-la no teu rosto e que, por um acaso que não tento entender, coincide exatamente com a tua boca, que sorri por debaixo daquela que minha mão desenha em você (J. Cortázar, Rayuela – trecho –, trad. minha).

Normalmente, quando a pensamos, é como uma qualidade dos textos que vemos a poesia, assim como a beleza nos parece algo presente naquilo que julgamos. Mas é em nós que a poesia acontece; ela não está latente no poema ou em qualquer outro texto, aguardando, quietinha, ser descoberta. A poesia pulsa no homem, leva-o ao poema ou ao texto com o qual ele a realizará: a poesia é instinto; o poema, presa que se contempla e que completa o ciclo da caça. Voltando ao início, a poesia é como a providência dos fados que nos impele ao texto e que com ele se identifica; ela é a frequência que faz vibrarem a nossa carne e as palavras do poema: por meio dela, as palavras fazem amor; por meio dela, nós gozamos com o poema.

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leandrodorvalc@gmail.com

Doutorando em Literatura pela UNESP/Araraquara. Tradutor e leitor.

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