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Amores, truques e poemas, a suspeita da imperfeição da arte de escrever

Quem se apresenta na coluna R.You! deste mês é Alex Andrade, escritor e arte educador nascido no Rio de Janeiro, autor de vários livros de literatura adulta e também de infantil. Conheça aqui um pouco do seu trabalho!

“Pouco a pouco as coisas vão se encaixando, os caminhos vão se mostrando, os espaços se abrindo. Acreditar na literatura como salvação tem sido a minha bandeira.”

          Eu sempre gostei de ouvir histórias.

Não fazia ideia de como isso um dia poderia se tornar algo tão presente em minha vida a ponto de me tornar escritor. Os livros sempre fizeram parte da minha infância, por influência de uma prima muito querida (Rosangela) eu adquiri o hábito de ler.

 

          As minhas influências começaram cedo, lembro que um dia minha mãe apareceu em casa com uma enciclopédia de literatura onde além de Camões estavam os poemas de Fernando Pessoa. Fui arrebatado. O poema que li “Contemplo o lago mudo” tornou-se inesquecível para mim.

 

          Na escola eu amava as aulas de literatura e a série ‘Para gostar de ler’ fazia parte dos livros adotados pela professora. Ali eu conheci Ligia Fagundes Telles, Fernando Sabino, Murilo Rubião, entre outros. Mas o que me chamou atenção mesmo foi quando li pela primeira vez “Macacos”, nada mais nada menos do que um conto escrito por Clarice Lispector. Foi paixão à primeira leitura. Clarice se tornou para mim uma companhia e uma grande inspiração.

 

          A vontade de escrever era tamanha, e eu escrevia, desde cedo já exercitava o hábito da escrita, escrevia em cadernos, em papel de pão, varava madrugadas criando as minhas próprias histórias. Esse exercício foi me dando gás para aprender cada vez mais.

 

          Meu primeiro livro “A suspeita da imperfeição” foi publicado no ano de 2001, uma coletânea de contos. Esse ainda era o começo, a realização de um desejo de muitas noites mal dormidas e inspiradoras. Antes disso já tinha participado de algumas coletâneas de poemas e contos, que resultaram em livros também.

 

          A realização deste trabalho ainda está a caminho, junto com esse desejo interminável venho caminhando com a concretização de alguns sonhos, já publiquei seis livros até aqui, entre literatura infantil e adulta. Estão ao meu lado “Longe dos olhos” (Editora Multifoco), “Poema” (Ed. Confraria do vento), “A galinha malcriada” (Parafernália livros), “O pequeno Hamlet” (Ed. Multifoco) e “Amores, truques e outras versões” (Ed. Confraria do vento).

          Além deter participado de publicações como Formas breves da e-galáxia com o conto “Eu não amava os Rolling Stones à toa”, do Contemporary brazilian short stories com a tradução em inglês do conto “Poema” realizada por Catherine Howard, do projeto Antessala das letras (onde um autor de renome indica um autor iniciante) fui indicado pelo premiado escritor Ronaldo Cagiano e meu conto “Mesmo que você morra, me avise!” foi publicado. Participei também da série Postais (onde um escritor fotografa e envia um postal a outro escritor, que se inspira na foto e escreve o conto) publicado no portal de literatura Homoliteratus, com o conto “Tempo” baseado na fotografia do escritor Tiago Germano.

 

          Este é só o começo da realização de toda uma vida, entre livros, crianças, arte e sonhos. Pouco a pouco as coisas vão se encaixando, os caminhos vão se mostrando, os espaços se abrindo. Acreditar na literatura como salvação tem sido a minha bandeira.

 

 

Rio de Janeiro, 14 de setembro de 2015


Mesmo que você morra, me avise!

 

 

          Dei os melhores livros para que ele pudesse ler enquanto eu preparava o jantar. Durante dois meses eu li para ele como uma missionária, ele me ouvia, se entendia ou não, não sei dizer. Ficava me olhando deitado entre almofadas como se eu fosse divinal, a boca salivava de vez em quando e os olhos se fechavam tomados pelo cansaço.

 

          Ele me olhava como se eu fosse de outro mundo, e depois me puxava para o seu lado para sentir o cheiro do meu perfume, cheiro bom de mulher madura, me dizia.

 

          Ríamos distraídos, porque era bom. Quando ele aparecia, de vez em quando, sabia o que queria. Preparava o melhor prato, arrumava com flores o pequeno apartamento e me perfumava toda, que era bom sentir o seu faro escorregando pelo meu cangote. Depois, levantava do meio das minhas pernas, se lavava, colocava primeiro a camisa e se vestia inteiro, um pouco amarrotado, e saía.

 

          Eu ficava estirada pelas almofadas, uma preguiça danada, olhava o céu pela janela e começava então a recolher as coisas que encontrava pelo caminho, calcinha, sandálias, livros, preservativo, pedaço de bolo de chocolate.

 

          Quando chegava o dia que ele apareceria, já tinha feito a feira, comprado frutas, doces, preparado o melhor jantar e separado o livro mais instigante para que pudesse ler para ele.

          Abria a porta do armário para achar uma fragrância diferente de todas que ele já havia experimentado e ficava esperando que enfim, ele chegasse.

 

          Pedi primeiro que ele me cheirasse.

 

          Depois li duas ou três páginas do livro para que ele me entendesse. Não sei direito o que ele achou, mas a precisão dos movimentos que ele lançava sobre meu corpo, depois de jogar o livro longe, davam algum sinal de que estava gostando. Eu era arremessada de um lado a outro, e isso era bom, mas ficava contabilizando quantos autores já tinha lido para aquele menino, durante todas essas noites: Hilda Hilst, Clarice, Valéry, Fitzgerald, Leminski, Sade.

 

          Sempre que aparecia, e ele aparecia sempre, me vasculhava inteira para investigar os meus cheiros, as minhas palavras, os meus desejos. Não perguntava quase nada, não precisava de porquês, nem de explicação, deitava nas mesmas almofadas entranhadas do cheiro bom da noite passada e ficava ouvindo o que eu lia para ele. Não passava de muita coisa, as histórias ficavam inacabadas sempre, e ele me puxava pelo vestido ou pela saia e me jogava contra o seu peito para farejar o meu aroma, como um cão que sabe o cheiro do seu dono. Depois que tomava banho, vestia sua roupa e me dava um beijo de boa noite, eu ficava imaginando como seria o dia seguinte.

 

          Passava a maior parte do tempo lendo e estudando mais livros para que pudesse apresentar a ele com maior entendimento. Depois ajeitava as almofadas, entrava debaixo do chuveiro e ficava sentindo a água cair sobre meu corpo, planejando cada detalhe daquela noite que estava por vir.

 

          E se ele não voltasse, se tivesse se cansado das minhas histórias, da minha vasta idade, dos meus sonhos e dos livros? Se pelo menos pudesse prever o que se passava na cabeça dele, talvez nem sofreria.

 

          Mas ele chegou.

 

          Abri a porta e sorri, um entusiasmo espontâneo. Fiquei olhando ele comer sentado na mesa como se fosse um Rei. Será que se eu pedir, ele dorme aqui esta noite?

          Fui lendo devagar o livro que estava em minhas mãos, meus olhos furavam as páginas para vê-lo como sempre quis, deitado sobre as almofadas, lânguido como um gato, a camisa jogada pelo chão, aquele corpo jovem, poucos pelos e os olhos semicerrados. Ele me puxou pela perna para que eu ficasse mais perto, fui caindo sobre seu corpo e falei.

 

          Falei, eu te amo, ele riu. Falei de novo, eu te amo. E ele foi me beijando e beijando com mais vontade.

 

          No outro dia acordei com a leve sensação de que ele estava dormindo ao meu lado, mas não. Fiquei parada deitada entre as almofadas e pensando em tudo. Levei um bom tempo para levantar e começar a recolher as coisas que tinham ficado espalhadas pelo caminho.

 

          Quando veio a noite, o esperei com o mesmo perfume da primeira vez.

 

          Li uma página inteira antes que ele chegasse.

 

          Depois li outra.

 

          E depois mais duas páginas.

 

          Quando me dei conta já estava na metade do livro e a campainha, nenhum sinal.

 

          Nas outras noites que se seguiram, já contabilizava mais outros autores para a minha coleção.

 

          E dele, nenhum sinal.

 

          Nesse instante foi que me dei conta que não sabia o seu endereço, nem telefone, nem nada, apenas o nome, João.

 

          Todas as noites usava uma fragrância diferente da outra para que ele pudesse sentir de onde estivesse, com o seu faro de cão.

 

          Mas ele não apareceu.

 

          Quando na vigésima quarta noite o telefone tocou, irritada, com a maquiagem borrada e jogada entre as almofadas, pressenti o que poderia ser.

 

          Atendi o telefone, exausta, a mesa posta, a comida dos dias anteriores estragando nas panelas, o cheiro forte de todas as fragrâncias nas almofadas, pelas cortinas, entranhados pela sala, misturado ao odor da comida estragada, os vestidos rasgados, a esperança cortada, ele ainda disse Me perdoe. Eu queria dizer qualquer coisa, gritar, chorar, mas não. Mesmo que você morra, avise! Falei.

  Mais Informações sobre o autor:

 

www.alexlivrosearte.blogspot.com

http://www.antessaladasletras.com.br/mesmo-que-voce-morra-me-avise/

http://www.livrariacultura.com.br/p/eu-nao-amava-os-rolling-stones-a-toa-87332879

http://homoliteratus.com/serie-postais-tempo-remetente-tiago-germano-destinatario-alex-andrade/

http://www.brazilianshortstories.com/brazilian-stories/poem

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