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Abraham

Imagem: Rembrandt – O sacrifício de Abraão (1655)

A história do sacrifício de um rebento, a prova da fé e a Criação. Por Vinicius Ferreira Barth.


“Zombariam dele? Simpatizam? Enquanto um levanta a pata, o outro se joga no chão com ambas as patinhas no coraçãozinho, fingindo, melodramático: niii niiii!”

       

Todo o tema do link a seguir está compreendido no momento exato da punhalada, do trajeto percorrido pela arma entre o ímpeto e a conclusão: [link]. Ele está ressoando durante a sua leitura.

 

Com a Caída da lâmina, cavalgam também as Valquírias ao lado de Lúcifer: a Queda. O braço erguido não hesita, mesmo que o sangue a ser espirrado seja o seu próprio sangue. Eis-me aqui! Tome-a, a única, a quem você ama! Mate-a! – Matar, matar? Mas que será? Ai de mim! Concedei-me um sacrifício! Me abençoa com a aceitação de um sacrifício, não meramente a morte! Abençoa a minha puta e pobre temeridade com um simples sacrifício, não a morte. Não a morte! – Atrás dele, dois ratos imitam os seus gestos: ni ii miiti, nii iiii miti iiiih! Hiii hii! Sicrificiii… Pfff.

 

         Parece escárnio, parecem humanos! Zombariam dele? Simpatizam? Enquanto um levanta a pata, o outro se joga no chão com ambas as patinhas no coraçãozinho, fingindo, melodramático: niii niiii! Não me mate, diz ele? A voz ressoa novamente no trovão, Você! Sim, eis-me aqui! Espirrarás esse teu sangue, essa tua prole? Que será do teu rebento, do teu legado? Queres estender-te, sentir-te eterno? Morrerás, danado, mas antes temerás a mim, e matarás esse teu sangue, essa tua prole. Não sacrificarás, matarás. Os ratinhos dançam em círculos: iiiisiic, isiiic! E as pronúncias dos seus gemidos mudam conforme dançam, tornando-se asquerosamente guturais. iiisaaaac, isaaaaaac! iiiisaaaattr.tttt. Cospem, cospem e tossem. Ele levanta os braços aos céus em suplício. Pede o perdão e a misericórdia, mas teme, teme, ai como teme! Mas a voz ressoa novamente no trovão, Você! Sim, eis-me aqui! Espirrarás esse teu sangue, essa tua prole? Covarde impuro, absurdo seja quem disse que não matarás, matarás sim porque Eu te digo e assim te salvo. Teme, espirrarás esse teu sangue, essa tua prole, tu insuficiente? – iiisaaaaaac, aaaaaack, cuuuhf cohh agh, aghnoooooot. Ambos dançam ao som terrível da Queda, a lâmina se revela debaixo da manta, eles cobrem os olhinhos com os reflexos do sol do oeste, viram-se e imitam as Valquírias, cavalgando em volta do corpo a ser morto, alternando com passos de rumba, salsa, polka. Eis-me aqui, e que fim terás ó filho, ó filha, que fim terás! O cabo do punhal está suado, ele escorrega. Firme! E ele olha nos olhos da criação, não uma, não duas, mas três vezes. Murmura consigo mesmo: nós não somos, nós não somos, nós não somos. Os ratinhos, concentrados em seu rosto, repetem: não somos. are.note. nah, nuh, ni ni. Ele hesita. Hesita! A voz ressoa novamente no trovão, Você! Sim, eis-me aqui! Espirrarás esse teu sangue, essa tua prole? Covarde objeto de fuga, fugitivo desavergonhado. Teme a mim, pequeno maldito, teme. Assim eu te digo e assim cumprirás. Mata a tua criação, mata! Porque Eu te digo e assim te salvo. Teme, espirrarás esse teu sangue, essa tua prole, tu rastejante? – Eis-me aqui! Eia imaginação divina! Eia velho Deus, meu sacrifício é o bode, e isto é carne e sangue, filho e rebento, prole! Queres matança, queres a hecatombe? Pois bem! Onde está o cordeiro para o holocausto? Aqui está, aqui está! – Os ratos gritam: iiiihck iiiiihck, isaaaaaac isaaaac! Dão mais voltas em torno do corpo e voltam a gritar, levantando as patinhas em coro e júbilo: isaaaaaaac, arghnooooooot, wernooooooott! Como um relâmpago, ele atinge a faca na pedra. Está afiando. As faíscas voam e eles cobrem os olhinhos com seus reflexos, viram-se e imitam os dois humanos: tenho aqui uma fruta, aceita, sim muito obrigado gentileza sua, Cobra niiiiiii Cobra! uérnooooooti, arghnoooot. Ele levanta novamente o braço, dessa vez mais alto. O cabo do punhal está suado, ele escorrega. Firme! E ele repete o nome da criação, não uma, não duas, mas três vezes. Vai matar, sim, vai matar! Os ratos repetem: nós não somos, não somos, não somos! O Senhor proverá! O Senhor proverá! Voltamos ao começo: esse é o momento da Queda.

 

A voz no trovão ressoa. Não toque na criação, não lhe faça nada! Mas o trajeto entre o ímpeto e a conclusão foi percorrido. Lúcifer canta enquanto os jorros de sangue brotam do peito da vítima do holocausto. Ele apunhala não uma, não duas, mas três vezes. O Senhor proverá, sim, o Senhor proverá. Eis-me aqui! Eis-me aqui! Ele não teme mais nada. Mas a morte não se passou, nem o pecado e nem o sacrifício. Ele apenas se apaga, passada a fúria, e seu corpo desaba, cansado. O anjo finalmente desce e o cobre com o manto de lã dourada. Sobre a pedra, o corpo do filho ressoa, brilha, pulsa. Vive. Os ratos sobem, um pouco assustados em princípio, e logo depois em festa. Voltam a rodar e dançar em torno do corpo, e voltam a gritar. Dão 38 voltas, levantando as patinhas em coro e júbilo, e exclamam na finíssima voz de sua existência impura: r.noooooooott, r.noooooooooott, r.nooooooooott!!!

vinicius.rnott@gmail.com

<p>Doutorando em Estudos Literários pela UFPR. Tradutor. Estudante da literatura grega antiga. Autor de artigos científicos que ninguém nunca vai ler. Escritor. Autor do livro de contos ‘Razões do agir de um bicho humano’, publicado pela Confraria do Vento em 2015. Curioso do desenho e da fotografia. Nunca um entusiasta.</p>

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