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4 poemas

“foi você quem espalhou essa cinzas no chão?

não. eu só vim aqui pra deitar sozinho”

por Danilo Augusto

Toda realização da alma é um poema. De meus movimentos intestinais, o poema sai, na ponta do condão. Eis, pura realização. Estou aliviado. Sou mais leve e menos sábio. Estes quatro poeminhas custaram uma boa porção de minha ração existencial. Sal do meu pão, meus poemas são puro pão que o diabo deste poeta amassou, engoliu e penou. É por isso a alma não vale mais que uma indigestão. O poeta somos eu e tu quando temos em comum expurgo e aflição. Quanto pesa uma contemplação? Olha lá meu poema, obra completa. Quem diria que isto era eu? Agora já conheço o mistério da vida. O carbono tem muitas faces mas somente esta minha abdicou para que todos a vissem sobre a lousa branca. O poema é minha alma morta para que você possa vê-la. Então contempla em silêncio. Compartilhar um poema é uma indecência grosseira.

***

todos temos direito a sexo

amor, água e graça divina

a família tem uma só cama e a filha dorme com a mãe e o pai

ele deixa um travesseiro em seu lugar

ela tem o espaço pra calar

a única traição que existe nessa vida é a mentira

porque fui retirado de minha mãe enrolado na serpente

e ela fez um ninho em meu umbigo que não foi cancelado

e eu fui chamado ‘o homem da casa’

minha casa tem portas de fogo, é uma jaula de fogo no ar

mas eu não sabia disso no tempo em que queria ser feliz

você não tem sonhos, tem uma filha e uma mulher

e a tarefa mais difícil desta vida é acordar pra sempre

se você sonhar com o nono círculo

se você descobrir onde você está

pensem nos outros universos que existem pra lá de toda experimentação

pense no buraco negro no centro de nossa galáxia

existem mais grãos de areia ou estrelas? mais estrelas dentro ou fora do meu

‘limiar de aflição’? ]

e se lúcifer for o deus desposto?

e se quando chover em minha morte eu não me molhar?

aceita essa vida, ela é igual a todas as vidas

você já a viveu mais vezes do que pode contar

***

eu amei o meu filho, e daí?

você amou o seu. hoje, fechemos a conta.

quanto dá?

deus, esqueçe felicidade e verdade,

quero apenas tocar em sua barba de estrelas

guarda a máquina do mundo em outra sala

chegou o dia na agenda pra danilo fraga

eu rimo pra você, pra quem mais?

olha, pai, mãe, vocês são tão inocentes quanto eu

mas quanto amor não nasceu para que pudéssemos nos criar uns aos outros?

quanta história inata. hoje, fechemos a conta

quem vai pagar?

respirar é uma oração

mas eu tapo a boca e o nariz

como eu posso conhecer mais que o cão que matei

a relva sobre meus pés ou o ar seguindo para uma região de menor

densidade? ]

a poesia é como um filho que criamos

o maior orgulho de se estar vivo

mas de onde vem esse orgulho senão da ironia de seu jogo?

senta comigo à mesa, me dá os dados pelo menos uma vez.

***

eu sou pó

não quero poder ser nada

sou pó das estrelas

essa metáfora

de descrença dependurada

quão terrível seria morrer?

pior, igual a viver?

sou pó das estrelas e essa metáfora

é mais real

que meu nome, minha história,

minha descendência

mais real que este pó e esta estrela

eu quis as mil vidas

seria igual a esta vida

vezes mil vezes mais?

se eu pudesse viver pra sempre

se eu pudesse morrer agora

seria mais fácil escolher

isso que eu não sei o que é

***

foi você quem espalhou essa cinzas no chão?

não. eu só vim aqui pra deitar sozinho

mas seus pés estão pretos como carvão

tem certeza que não pisou em alguma fogueira pela caminho

que estava um pouco enterrada ou desfeita

e era mais fofo ali onde seu pé afundou

e quente ou morno num dia frio talvez

e você se deteve ali porque a rua era escura

e você não tinha nenhuma promessa a manter?

num sonho, sim, agora me lembrei

que engraçado me perguntar o que eu sonhei

por que senão não teria sequer percebido

como costumo por pra dentro essas brasas acesas

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