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Samuel Beckett – Whoroscope, 1930

imagem: Giovanni Battista Piranesi – Conchiglie varie tratte dal vero (séc. XVIII)

Com ineditismo e garbosa exclusividade, trazemos a tradução ao português do primeiro texto publicado de Samuel Beckett, Whoroscope, de 1930, poema narrado por um alucinado René Descartes enquanto espera ser servido de seu ovo. Tradução de Vinicius Ferreira Barth.


“René Descartes, Seigneur du Perron, gostava de seu omelete feito com ovos chocados entre oito e dez dias; de acordo com ele, era nojento que ficasse mais ou menos que isso debaixo da galinha.”

Não se preocupe caso você passe por esse poema e conclua que não entendeu bulhufas.

 

O texto, que dá voz a René Descartes e um foco especial ao modo como deve ser chocado o ovo para os seus omeletes, é o primeiro trabalho publicado de Samuel Beckett, em 1930. Com o título Whoroscope, o autor venceu um concurso organizado por Nancy Cunard e acabou levando um prêmio de 10 libras e uma edição individual pela The Hours Press, pequena editora de Cunard dedicada à literatura experimental e poesia modernista.

 

Bastante obscuro e sofrendo variações de humor durante os seus quase 100 versos, Whoroscope traz notas ao texto feitas pelo próprio Beckett, que estão igualmente traduzidas e que inseri nesta página logo abaixo do texto – vejo-as mais como notas ao gosto de Borges, para nos dificultar um pouco mais a vida, do que para realmente esclarecer algo. Por isso existem, ainda mais abaixo, notas às notas.

A versão em inglês que utilizei é a que está nesse link:

 

http://lazenby.tumblr.com/post/3374062767/samuel-becketts-first-book-whoroscope-1930

 

No mais, espero que se divirtam tanto quanto eu me diverti – e me fod* –  para traduzir.

Como sempre, é um prazer trazer esse tipo de texto completamente desconhecido à luz.

♦♦♦

Horóscono

que é?

um ovo?

mas pelos brothers Boots, fede a fresco!

dê a Gillot.

 

Galileu! que tal                                                                                                                     05

com suas dantescas terças?

e aquele filho de um barraco velho e puto Copernicudo!

movemo-nos ele disse que vamos – Porca Madonna!

tal como um contramestre, um Fingidor cargando em saco cheio.

não é como mover, é comover.                                                                                          10

 

que é?

uma fritada ainda verdinha ou cogumélica?

dois longos ovários com pancetuttas?

pariu por quanto tempo a penosa?

três dias, quatro noites?                                                                                                      15

dê a Gillot.

 

Faulhaber, Beeckmann e Pedro o Vermelho,

entrem na névoa nevasca ou na cristalina nuvem solar de Gassendi

limá-los-ei a todos as galinh-e-meias

ou limá-los-ei sob a colcha uma lente em meio ao dia.                                                 20

 

e pensar que ele era meu próprio irmão, Pedro Boxeiro,

e dele nem um silogismo

como se Pai inda estivesse nessa.

ei! me passe esses cobres

transudação doce e moída de meu fígado inflamado!                                                   25

eram meus dias de sentar-me no buffet arrojando Jesuítas da claraboia.

 

quem é? Hals?

que espere.

 

minha vesgucha fofa!

me escondi e você buscou.                                                                                                30

e Francine de um feto de mansão meu precioso fruto!

que exfoliação!

sua epidermezinha cinza e descascada e suas amígdal’ escarlates!

minha única criança

flagelada pela febre até o estagnar de seu turvo sangue –                                          35

sangue!

oh, amada Harvey

como será que os rubros e os brancos, os muitos nos poucos,

(querida turbilhosangue Harvey)

irão redemoinhar pelo partido batedor?                                                                         40

e veio o quarto Henrique até a cripta da seta.

 

que é?

faz tempo?

se foda.

 

um perverso vento empurra a aflição de meu sossego                                                45

contra os pináculos mordazes da única

dama.

nem uma nem duas mas…

(Bordel de Cristo choque-o!)

numa submersão solar                                                                                                        50

(Jesuitosos, copiem-no).

 

adiante co’as meias de seda sobre a malha, e o couro mórbido –

que digo! a amável tela –

e vamos a Ancona sobre o vivo Adriático,

e adeus por enquanto à amarelada chave dos Rosacruzes.                                         55

não sabem o que fez o mestre de daquilo

que o nariz é tocado pelo beijo de todo ar doce e imundo,

e os tambores, e o trono da incrustação fecal,

e os olhos por seus ziguezagues.

então comemos-No e bebemos-No                                                                                  60

e o Beaune aguado e os insípidos cubos de Hovis

porque Ele baila

tão longe ou tão perto de Seu Eu Bailante

e tão triste ou vívido à pergunta da bandeja ou cálice,

que tal, Antônio?                                                                                                                   65

 

pelo amor de Bacon, me chocarás tal ovo?

ou deverei tragar espectros subterrâneos?

 

Anna Maria!

ela lê a Moisés e diz que seu amor está crucificado.

Leider! Leider! Floresceu ela, e desbotou,                                                                        70

um periquito pálido e insultante numa janela da avenida.

não, creio eu em cada palavra, garanto.

Fallor! ergo sum!

o velho e pudico frôleur!

ele soo-u e pernno-u                                                                                                            75

e abotoou o seu colete de redentorista.

que seja, já era.

rapaz que sou audaz, eu sei

então não sou meu filho

(mesmo que fosse um porteiro)                                                                                         80

nem Joaquim o de meu pai

mas lasca de um bloco perfeito nem novo nem velho,

a solitária pétala de uma alta e clara rosa.

 

estás madura enfim,

pálida esguia doppiopetta bosta minha?                                                                          85

quão fértil cheira

tal inexperiente aborto!

comê-lo-ei com garfo de peixe.

clara e gema e as penas.

e então me erguerei como movendo-me                                                                         90

para Rahab das neves,

a matinal amazona assassina confessada pelo papa,

Cristina a estripadora.

 

oh Weulles poupe o sangue de um Franko

que escalou os amargos degraus,                                                                                      95

(René du Perrron…!)

e me conceda a segunda

impenetrável hora inestrelada.

♦♦♦

NOTAS

Notas providas pelo autor

 

René Descartes, Seigneur du Perron, gostava de seu omelete feito com ovos chocados entre oito e dez dias; de acordo com ele, era nojento que ficasse mais ou menos que isso debaixo da galinha.

Ele manteve a sua data de aniversário apenas para si mesmo, para que nenhum astrólogo pudesse teorizar com base em suas informações de nascimento.

Um ovo maduro em seu caminho final é o que apazigua a urdidura de seus dias.

linha 3. Em 1640 os irmão Boot rejeitaram Aristóteles em Dublin. [1]

linha 4. Descartes passou os problemas mais fáceis de geometria analítica ao seu criado Gillot. [2]

linhas 5-10. Referência ao seu desdém por Galileu Jr., (que ele confundia com o mais musical Galileu pai), e ao seu oportuno sofisma relacionado ao movimento da terra.

linha 17. Ele resolveu problemas submetidos por esses matemáticos. [3]

linhas 21-26. A tentativa de barganhar a parte de seu irmão mais velho, Pierre de la Bretaillière — O dinheiro que ele recebeu como soldado.

linha 27. Franz Hals. [4]

linhas 29-30. Quando criança, ele brincou com uma menina estrábica.

linhas 31-35. Sua filha morreu de escarlatina com seis anos de idade. [5]

linhas 37-40. Honrou Harvey por sua descoberta a respeito da circulação do sangue, mas sem admitir que ele tinha explicado o movimento do coração. [6]

linha 41. O coração de Henrique IV foi enviado para a faculdade jesuíta de La Flèche enquanto Descartes era ali um estudante.

linhas 45-53. Suas visões e peregrinação a Loretto. [7]

linhas 56-65. Seu sofisma eucarístico, em resposta ao jansenista Antoine Arnauld, que o desafiou a reconciliar sua doutrina da matéria com a doutrina da transubstanciação. [8]

linha 68. Schurmann, a bluestocking holandesa, devota pupila de Voët, adversário de Descartes. [9]

linhas 73-76. Santo Agostinho tem uma revelação nos arbustos e lê a São Paulo. [10]

linhas 77-83. Ele prova Deus por exaustão. [11]

linhas 91-93. Cristina, rainha da Suécia. Em Estocolmo, durante novembro, ela obrigava que Descartes, que durante toda a sua vida permaneceu na cama até o meio-dia, estivesse com ela às cinco da manhã. [12]

linha 94. Weulles, um médico peripatético holandês na corte sueca e inimigo de Descartes. [13]

NOTAS ÀS NOTAS

1 – Referência aos irmãos Gerard e Arnold Boot, que foram encorajados pelo bispo James Ussher (1581-1656) a publicarem as suas refutações a Aristóteles, o que fizeram em 1642 (e não em 1640, como Beckett indica).

2 – Jean Gillot, amigo e criado de Descartes e educado por este em la Méthode, acabou sendo também o responsável para disseminá-la.

3 – Isaac Beeckman (1588–1637), filósofo e matemático holandês, Johann Faulhaber (1580-1635), matemático alemão. Os problemas referidos são de difícil performance sem que se utilize as técnicas de análise pioneiras de Descartes.

4 – Frans Hals o Velho (1580-1666), pintor holandês que fez o retrato definitivo de Descartes em 1649, um ano antes da morte deste.

5 – Cujos dentes Descartes removeu de seu crânio e inseriu numa boneca-réplica, que de tempos em tempos ele cogitava automatizar. Mesmo.

6 – O ponto principal das objeções de Descartes à teoria de circulação do sangue de William Harvey não era que o sangue não circulava, mas que uma bomba independente como o coração não poderia ser encaixada no esquema mecânico de Descartes. Motores movidos por si mesmos, como Harvey acreditava que fosse o coração, era algo que vinha direto de Aristóteles e que fez Descartes ver a si mesmo como derrotado.

7 – Em 10 de novembro de 1619, Descartes teve três famosos sonhos. Como resultado disso, ele interpreta a visita que recebeu no dia seguinte de um pintor italiano como sendo Deus dizendo-o que fizesse uma peregrinação até Notre Dame de Loreto, na Itália. Descartes acaba fazendo isso posteriormente, chegando lá em março de 1624.

8 – Isso se refere ao problema da Eucaristia se tornando o corpo e o sangue de Cristo em um mundo cujos únicos princípios são a extensão e o movimento. Descartes tinha um certo desejo de proteger a ortodoxia Católica no/de seu sistema e dá uma desculpa completamente porcaria a Arnauld quando pressionado sobre o assunto.

9 – Anna Maria von Schurman (1606-1678), uma das mulheres mais educadas na Europa, nessa época ela interrogava a Descartes. Bluestocking (mulher erudita, sabichona) é um termo depreciativo para uma mulher com pretensões literárias ou acadêmicas. O termo se origina numa traduções inglesa do nome que um círculo intelectual francês deu a si mesmo, que era por si só uma referência às distintas meias das sociedades teatrais do Renascimento Veneziano.

10 – Confissões VIII.19-26. Um ‘frôleur’, do francês ‘esfregar/friccionar’, é alguém que obtém excitação sexual se esfregando deliberadamente contra mulheres em espaços públicos lotados.

11 – ‘Prova por exaustão’ significa analisar uma proposição em partes, provando cada uma separadamente. A verdade indiscutível das partes individuais garante a verdade do todo.

12 – Em 1650, Descartes estava a serviço da rainha da Suécia, que tinha vinte e quatro anos. Aparentemente, a rainha recebia suas instruções cedo na manhã, durante longas e geladas caminhadas. Depois de uma dessas, Descartes desenvolveu pneumonia, quedando-se com febre durante vários dias. Recuperou-se eventualmente, tendo proibido o médico real de sangrá-lo. Conseguia sentar-se na cama e comer novamente, e parecia recuperado em todos os sentidos. Pediu para que o médico real preparasse a ele uma bebida de álcool e tabaco. Tendo tomado isso, Descartes passou quase imediatamente a vomitar sangue, caindo de febre e morrendo no dia seguinte.

13 – Dado o fato de que o médico da rainha, Weulles, era um conhecido inimigo de Descartes, foram numerosas as especulações de ele ter envenenado o filósofo através da preparação de álcool e tabaco (e algo mais).

NOTA DE TRADUÇÃO

A respeito da tradução do título em inglês, Whoroscope, lidei com três opções:

– Eróscopo: a inserção de Eros ressoa o significado erótico de whore, embora de um jeito que considerei leve e um pouco conservador, e mantém uma sonoridade ainda próxima a Horóscopo.

– Putóscopo: parece ideal quando pensamos em whore, mas soa diferente demais de Horóscopo.

– Horóscono: inserção do termo, mesmo que pouco usual atualmente, de Cono, uma designação do órgão sexual feminino comum e largamente presente, por exemplo, na poesia erótica escrita em português. Além disso, ainda ficamos bastante próximos de Horóscopo, palavra predominante no título do poema.

 

A seção de “notas às notas” foi retirada do mesmo endereço digital de onde retirei o texto em inglês (ver na introdução acima). Lá não há referência a quem possa ter escrito essas notas. Eu suponho que tenha sido o administrador desse mesmo site, mas você que me lê pode considerar que fui eu, caso elas estejam interessantes e bem traduzidas.

 

Pode haver algo que eu não tenha entendido e acabei por traduzir do jeito que eu achasse melhor.

Mas pode ser que não, também.

vinicius.rnott@gmail.com

Doutorando em Estudos Literários pela UFPR. Tradutor. Estudante da literatura grega antiga. Autor de artigos científicos que ninguém nunca vai ler. Escritor. Autor do livro de contos 'Razões do agir de um bicho humano', publicado pela Confraria do Vento em 2015. Curioso do desenho e da fotografia. Nunca um entusiasta.

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