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O álbum em tempos de streaming

Rômulo Candal nos fala sobre a mudança no conceito de “álbum” nos tempos de streaming, e de como os artistas estão, em diferentes frentes, se readaptando a um mercado cada vez mais imaterial e virtual, completamente oposto à solidez do nosso saudoso “bolachão”.


“É um álbum? Tecnicamente, é. Conceitualmente, nem tanto.”

Desde o início da indústria fonográfica, a cultura dos grandes álbuns domina o mercado. Ter sucesso, no mundo da música, significa ter discos de vendagem e fama significativos – a aura que envolve os grandes lançamentos transcende os hits e, por vezes, até os próprios artistas. Os singles são também importantes, é claro, mas especialmente para divulgar os lançamentos, criando o hype para os discos que estão para sair. Depois dessa fase, a função das chamadas “músicas de trabalho” é funcionar como pilares, estabelecendo os LPs de sucesso nas rádios e outros meios de divulgação. Mais do que estourar comercialmente com um ou outro sucesso, lançar um disco sólido, de boa vendagem, é a consagração definitiva do músico ou da banda no mercado.

“Thriller”, do Michael Jackson; “Back in Black”, do AC/DC; e “The Dark Side of The Moon”, do Pink Floyd, são os três álbuns mais vendidos da história da música mundial. Recheados de faixas memoráveis, até hoje os três figuram no pódio das vendas, ainda que o mais recente deles date de 1982. A título de curiosidade, o primeiro disco do século XXI a aparecer na lista figura numa posição distante: trata-se de “21”, da cantora britânica Adele, o 11º colocado.

 

Dos moonwalks da década de 80 para cá, muita coisa mudou. Muita mesmo. Veio a música digital, com o surgimento do CD – a “qualidade máxima” em música. Os discos de vinil e as fitas K7 foram, aos poucos, desaparecendo do mercado. O mp3, associado à popularização da internet banda-larga, apareceu como o principal vilão da indústria fonográfica, por tornar ainda mais viável a pirataria. Vieram os mp3 players e os smartphones, com capacidade para cada vez mais músicas baixadas ilegalmente. E, mais recentemente, o mundo tenta acompanhar a ascensão do streaming, que se consolida através de serviços como o Spotify e o Tidal, que oferecem discotecas imensas on-demand – ou seja, à distância de uma simples busca.

 

O mercado vem mudando incessantemente. As vendas de CDs atingiram, em 2016, seu ponto mais baixo desde o surgimento do formato. Por outro lado, numa espécie de retomada saudosista, os discos de vinil cada vez mais voltam a ter importância, alcançando patamares significativos em vendas e valores – no ano passado, por exemplo, Adele faturou mais com as vendas de bolachões do que com as transmissões de seus vídeos pelo YouTube. E o streaming pago passou a ser bastante lucrativo, mostrando evolução a cada novo levantamento.

 

 

Mas no meio de tudo isso, qual é a importância dos lançamentos de novos álbuns? Como as novas gerações, altamente conectadas, ressignificam a ideia de consumir uma obra musical completa, com início, meio e fim?

 

A coisa é cada vez mais difusa, mas aparentemente estamos vivendo uma grande mudança na cultura do álbum. A impressão que fica é a de que novas interpretações vêm sendo desenvolvidas para o conceito de obras musicais. Vemos artistas altamente influentes, com grandes vendas e popularidade, atirando para muitos lados e produzindo obras que vão além do formato engessado do long-play como o conhecemos.

 

 

Vamos olhar para alguns exemplos.

 

Kanye West, um dos mais reconhecidos produtores e MCs de rap da atualidade, lançou em 2016 seu sétimo álbum de estúdio, “The Life of Pablo”. A história toda da criação do disco é doida: Kanye foi altamente transparente com o público durante todo o processo de manufatura. Lançava uma faixa aqui e outra ali, compartilhava nas redes sociais algumas tracklists provisórias, rabiscadas à mão. Anunciava toda vez que alterava o provável título do disco – e foram muitas vezes. Até que, em fevereiro daquele ano, “The Life of Pablo” foi finalmente lançado, com bastante burburinho, críticas positivas e negativas, e uma recepção boa por parte do público. Tudo corria como esperado, mas muito pouco tempo depois, alguns fãs estavam ouvindo o disco e perceberam algo estranho nas músicas. Algumas diferenças em arranjos, trechos alterados… Em resumo: Kanye West estava atualizando o próprio álbum, em tempo real, aos olhos e ouvidos de seu público. Como uma empresa que desenvolve softwares e atualiza seus programas para corrigir bugs, Kanye foi mudando o que julgava ser necessário, e os fãs puderam acompanhar mais uma parte da criação de um álbum que já vinha sendo comercializado.

 

Outro caminho interessante vem sendo tomado por grandes (e variados) nomes como Frank Ocean, Suede, Nightwish e Beyoncé. Todos esses artistas exploraram um modelo semelhante em alguns de seus recentes lançamentos: um conceito chamado álbum visual. A ideia dessas obras é propor uma interseção entre a música e o audiovisual de uma forma mais aprofundada do que a apresentada nos videoclipes, propondo obras de arte híbridas, para serem consumidas simultaneamente através dos olhos e ouvidos. “Lemonade”, de Beyoncé, parece ter sido a consolidação do formato – foi veiculado na HBO em horário nobre, e se tornou um gigante sucesso de público e crítica.

 

Outros vários exemplos podem ser dados para comprovar a relevância dos álbuns para os músicos, ainda nos dias de hoje. Em março de 2017, Future – um dos maiores nomes da cena trap rap de Atlanta – soltou dois discos em duas semanas consecutivas. Os álbuns “FUTURE” e “HNDRXX”, gravaram o nome dele na história: virou o primeiro artista a colocar dois álbuns seguidos no topo da parada Billboard 200 em igual número de semanas. Já o canadense Drake, provavelmente o rapper mais famoso do mundo na atualidade, abandonou as nomenclaturas tradicionais e resolveu chamar “More Life”, seu último projeto, de playlist. Drake já deixou transparecer em várias entrevistas que considera a concepção de um álbum uma tarefa frustrante, e nesse trabalho tratou de apenas organizar suas novas composições, como se estivesse só montando uma playlist que apresentasse suas diferentes facetas. É um álbum? Tecnicamente, é. Conceitualmente, nem tanto.

 

 

O que fica de toda essa discussão é, efetivamente, a necessidade da busca por novos caminhos. É claro que os álbuns (LPs, discos, álbuns visuais, playlists… chamem como quiserem) continuam sendo importantes, mas o mundo digital alterou – e segue alterando – drasticamente a relação das pessoas com o consumo e a criação de música. Ao mesmo tempo em que mudam os públicos, mudam os artistas, que tentam se adaptar aos novos formatos e buscam meios diferentes de manter seus nomes relevantes dentro um panteão.

 

 

O que vem por aí e para onde é que tudo isso vai?

 

Eis uma boa pergunta.

Durante o processo de criação desse texto, o autor consumiu os seguintes álbuns:

Julie Byrne – “Not Even Happiness”

A Tribe Called Quest – “Midnight Marauders”

Father John Misty – “Pure Comedy”

Zé Ramalho – “Antologia Acústica”

Pink Floyd – “The Dark Side of the Moon”

Caetano Veloso – “Estrangeiro”

romulocandal@gmail.com

<p>Rômulo Candal é curitibano e, talvez por isso, acredita ter menos a dizer do que a escrever. Jornalista de formação, é desses que prefere o frio, ainda frequenta estádios de futebol e vive procurando algo novo pra ler, ouvir ou assistir.</p>

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