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Estranho Perfeito: ética, poética e ausência entre Agamben e Freud¹

Imagem: Chicote CFC – Osamenta De Una Víctima De Egocentrismo (2014)

A poesia de Gustavo Jugend apresentada, por ele mesmo, em formato de ensaio. Passando pelas palavras de Agamben, Freud, Hughes Mearns e Sylvia Plath, pensa-se aqui a incompletude e a ausência, o amor estranho e a linguagem poética. E daí vem a poesia.


“Também levou sangue e saliva, deixando para trás uma roxeada gengiva em carne viva seca. Aquém-lábios sobraria a língua, mas que da ponta desejosa, ao freio, levaste também.”


“quem vem de terra alta sente sempre falta
do que não pode existir”
– Siba.

Na polêmica que travou com o cristianismo em sua Genealogia da moral, Nietzsche, anuncia, já nas primeiras linhas que, embora a herança do comando de conhecimento dado por Platão, “(…) somos homens do desconhecimento”.[2] Para Agamben ser um sujeito do desconhecimento não seria nada além da notação de que o homem, no fundo, é incapaz de conhecer a própria potência, fazer uma ontologia da dessubjetivação; isto é, se o homem é dotado de alguma essência, qualquer coisa de fixo, seja uma faculdade racional, possibilidade emocional, ou mesmo uma alma, não é possível vislumbrá-la por distância objetiva, tal qual jalecos e microscópios, ou gravatas e regras. Antes esse deve deixar-se testemunhar sua sombra, saber de seu próprio desconhecimento. Cada homem, segundo Agamben deve se abandonar a seu Genius, “viver na intimidade de um ser estranho, manter-se constantemente vinculado a uma zona de não-conhecimento.”[3] O que seria viver na intimidade de um estranho não-conhecimento?

Para Freud, em O Estranho, Unheimlich.  se relaciona com o âmbito das sensações e tem a ver com o que nos assusta, o que nos causa medo; o que causa repulsa e aflição. Não tarda e Dr. Freud busca, numa avaliação do vocábulo, tanto no alemão como em outros idiomas, a primeira conclusão que agora nos importa: estranho, estrangeiro, não é, como se poderia imaginar, algo absolutamente novo advindo de uma distância longínqua; mas é algo que primeiro nos foi familiar e, depois, tornado não-familiar. Portanto, não o que não se conheceu, mas o que de mais íntimo viemos a des-conhcer; aquilo que escondemos tão bem que quando reaparece nos espanta. Com uma citação de Schelling, Freud nos dá uma boa primeira definição de estranho: “é o nome de tudo que deveria ter permanecido secreto e oculto, mas veio à luz.”[4] Para exemplificar o que está em jogo nesse aparecer do que é estranho, Freud recorre à curiosa novela fantástica de Hoffmann, O homem da areia, na qual o protagonista Nataniel tem pavor de ter seus olhos arrancados por um estranho mascate. Segundo Freud:

O estudo dos sonhos, das fantasias e dos mitos ensinou-nos que a ansiedade em relação aos próprios olhos, o medo de ficar cego, é muitas vezes um substituto do temor de ser castrado. (…). (…) a ameaça de ser castrado excita de modo especial uma emoção particularmente violenta e obscura, e que é essa emoção que dá, antes de mais nada, intenso colorido à ideia de perder outros órgãos. [5]

O que nos causa medo e nos apavora é a possibilidade de reviver a castração que interrompeu nosso narcisismo, e, assim, nos apartou do mundo. Com mecanismos ou de repressão, ou de projeção, a nossa psique impede que esse dado inconsciente torne-se conteúdo consciente; por isso não identificamos o que nos amedronta como uma ameaça interna; ou torna-se nervosismo, ou torna-se uma ameaça externa; ou ambos. Direto ao ponto: o que se presentifica no esquema freudiano é que temos uma dessubjetivação, um afeto original, que nos subjetivamos desde uma ausência. O medo do estranho: medo de nos relembrarmos incompletos. Individualizados por uma falta. Dessubjetivar seria levar o sujeito frente ao que lhe falta, ao seu afeto fundador. Mas o que lhe falta não é o Narciso? Ou seja, dessubjetivar é dar-se de encontro com seu duplo feito de água alojado no inconsciente; ausência duplicada como afeto. A figura de um sujeito que se duplica na dessubjetivação, muito comum na filosofia de Agamben, é também Genius, aquele que nos funda felicidade e desejo; mas cujo encontro pode nos causar verdadeiro desespero[6]. Tenhamos em mente: assim como o estranho, o Unheimlich, não é contrário ao familiar, ao Heimlich, mas tem nele seu constitutivo fundante, a ausência também não tem na presença seu oposto. Dito de outro jeito: a castração não é oposta ao narcisismo, mas a experiência de uma ausência que fundou o sujeito. Todavia, seria uma outra experiência de identificação narcisista que não a do estranho, possível? Diria eu que não. Agamben diz que não: “(…) é pânico o sentimento de que Genius venha exceder-nos e superar-nos”.[7] O mesmo pânico que tomou conta de Hughes Mearns ao se perceber excedido:

À noite, quando as escadas subia
Topei com alguém que lá não se via
Não estava lá nem no outro dia
Quem é o homem que me agonia…

Quando muito tarde cheguei ao lar
Lá estava o homem já a me esperar
Mas quando o procurei por todo canto
Não achei ninguém, para meu espanto!
Vá-se embora! Vá-se embora! Não retorne nunca mais!
Vá-se embora! Vá-se embora! E não deixe os teus sinais…

À noite, quando as escadas subia
Topei com alguém que lá não se via
Não estava lá nem no outro dia
Quem é o homem que me agonia….[8]

Mas possível é, sim, simbolizar o estranho de maneira a não mais causar repulsa e aflição. Se, na identificação narcisista, formos capazes de habitar com nossa ausência, simbolizá-la como anagrama não de nossa perda, mas do que foi perdido, então é desejo e amor o que devemos sentir perante nossa estranha ausência refletida. Por isso Agamben pode dizer em A linguagem e a morte que a ética é o retorno a uma casa na qual nunca estivemos antes; a experiência de um rosto alheio ao qual sempre já tornamos linguagem, um rosto no qual vemos o que nos foi castrado, um rosto que tornamos morada daquilo que nunca tivemos: “um rosto que é e não é nosso rosto”. Retornar à habitação de uma ausência é, então, a única maneira de conhecermos nossa falta, nossa zona de não-conhecimento; não é por uma ontologia, mas por um hábito, isto é, pela ética:

Entre a percepção da imagem e o reconhecer-se nela há um intervalo que os poetas medievais denominavam amor. O espelho de Narciso é, nesse sentido, a fonte de amor, a experiência inaudita e feroz de que a imagem é e não é nossa imagem… (…). Ao prolongarmos indefinidamente o intervalo entre percepção e o reconhecimento, a imagem é interiorizada como fantasma, e o amor recai na psicologia[9]

Prolongar indefinidamente o intervalo entre a percepção e o reconhecimento, isto é, desindividualizar-se, borrar a fronteira entre eu e o outro; fazer da alteridade nosso encantado rosto de água; isto é a dessubjetivação amorosa. Todavia, manter a alteridade como estranho que se deseja torna impossível àquela distinção tão cara para filosofia, que costumamos chamar de diferença ontológica, a tentativa de poder conhecer-se intimamente como diferenciado do resto. Incapacitado de distinguir afeto e objeto, sujeito e assujeitado, próprio e impróprio, ideal e sensível, a ontologia cede lugar a um desconhecimento. Por isso dessubjetivar é viver “na intimidade de um ser estranho”, “vincular-se a uma zona de não-conhecimento”. E também por isso aquela poeta que nunca foi capaz de operar diferença ontológica pode entrever em versos o amor em seu único lugar possível, o lugar da indistinção:

Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)

Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente.)[10]

Manter a estranha alteridade como o que só pode despertar pavor e repulsa é o fascismo; a biopolítica do medo e do extermínio[11]. Por isso devemos dar o caminho do desejo à nossa estranha ausência, desejar na alteridade, amar o rosto alheio. Somente tornando o estranho mundo um hábito, isto é, dando ao estranho o caminho do desejo, da ética, a política é possível. Uma espécie de Estranho Perfeito, no qual os sujeitos do amor revivem aquela ambígua sensação do narcisismo primário na qual a consciência se crê capaz de fornecer anima, vida, a tudo que deseja, ou, como diria Agamben, operar magia pela palavra; isto é, experienciar a linguagem poética; O amor estranho em Agamben é o signo da incompletude; a existência de uma negação, uma ausência, que, todavia, encontramos e desejamos no rosto do outro; no mundo. Estranho e não-estranho unidos no hábito, na dessubjetivação amorosa, subjetivação habitada de sua ausência. Isso é a ética.


Chuva

Já não sei se chove todo dia ou se o clima só conjuga singular.

Se é frente fria, se é El Niño ou o escambau, não sei se é temporal ou se é encharco na retina. Não sei se sei nadar, mas devo de lembrar (já que é um verbo tão cretino). Já não tenho mais domínio, já não conto mais os dias, só sei que não sei chuva. Não sei mais se a água cai, ou se são dias sem te ver, se é El Niño na retina ou frente fria de saudades. Já não sei a cor do céu, já não sei mais dos seus olhos, ou se se enxuga lá algures. Já não sei mais do seu passo, já não sei mais de um abrigo, já não mais jamais chovia.

Já não sei se chove todo dia, ou se é saudade condensada que me cai.


Além-lábios.

Vinha da goela oposta um sopro gelado percorrendo meu palato, enchendo minha traqueia de rigidez e inflando meu gemido com um silêncio de desprazer.  De além-lábios, apenas a rispidez fria de uma língua áspera desesperada em não acariciar. Entre minhas bochechas abriam-se chagas resfriadas pelo toque daquele destemido desastrado músculo temeroso. O gelo grudava em minhas feridas vedando-me o gosto de sangue na boca. Quando retrocedeu, o sádico instrumento daquele bem-querer escorpiano foi substituído por novo sopro, dessa vez cuspe. De além-lábios tive a carne das gengivas, os caninos e a faringe recobertos de múltiplas gotas glaciais. Do céu da minha boca despontava dolorosamente, como cônsules do contra-dente, pontiagudas estalactites quebradiças. Foi então que da ponta desejosa ao freio, minha língua congelou.

*


Aquém-lábios.

Vinha da goela oposta a sucção do vácuo. Nem saliva, nem língua, nem lábio.  Apenas vácuo.  Arrancou-me os incisivos e os caninos. Arrebentou-me os molares. Descobriu-me os tardios sisos e levou-os também. Também levou sangue e saliva, deixando para trás uma roxeada gengiva em carne viva seca. Aquém-lábios sobraria a língua, mas que da ponta desejosa, ao freio, levaste também.


Nimbo

Ao lado esquerdo uma mancha antropomórfica. Não é exatamente saudades projetada no chão; é um entardecer pela manhã. Silhueta humana derramada na calçada por um raio de sol que sequer encontrou um dorso contra o qual se chocar. Assim é o meu lado esquerdo pré-merídio: um borrão escuro que se estende e me ensina métodos da vida. A diária mancha calmaria antropomórfica que me acompanha, bordada em pequeno lusco-fusco pelo difuso cromo madrepérola do sol. Uma sombra aureolada.


Fractal

Fractal; você me dizia: “és um fractal; corpo composto disposto em gêmeos aberto aos meus olhos; rastro geométrico de formosura em padrão; traço de tudo repetido em quinhão pelas partes; anti-euclides engenho edifício encaixado onde dormejo; sólida morada de abre-te-sésamo meu; corpo composto disposto em partes idênticas anti-euclides; Frágil repetição padronizada onde habito; engenho de gêmeos um forte à prova d’agua;  edifício inquilino em mim de abre-te-sésamo geométrico em partes. Fractal; és um fractal; fórmula doce do rastro onde durmo.”


na cruz marechal há um flautista alemão

cujas notas ninguém vai ouvir
nem crianças lhe prestam atenção
ou lhe seguem ao belém
_______________na curitiba querida
_______________onde nada acontece
nem mesmo o chá tem sua hora
ou o salto do ASA
ou o suicida Tijuca
ou o café que se queira
_______________ou a novela das 6.

lá na cruz marechal
há uma matilha sedenta
e uma roda gigante
uma fanfarra de porre
_______________na cidade modelo
_______________quer um queira não queira
ou um queira que quer
ser o bem-que-me-quer
dum principado cristão
ou do sorriso dentado,
muito pouco dentado
da gata borralheira
_______________do meio-fio.

adiante, à cruz militar
bradam república  e espada
ou cantam-se versos
que não dizem de flores
nem rua das flores
nem rabecão

a fanfarra prossegue
e o flautista de porre
à hora sem chá
_______________na curitiba querida
_______________um queira não queira.

 

por Gustavo Jugend

♦♦♦

[1] Esse pequeno ensaio é uma adaptação do texto proferido na defesa da dissertação Rosto: a passagem da ontologia à ética em Giorgio Agamben.

[2] NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 7.

[3] AGAMBEN, Giorgio. Profanações. São Paulo: Boitempo, 2007, p.17.

[4] SCHELLING, Friedrich. Apud FREUD, Sigmund. (1919). O estranho. In. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1996, p. 242.

[5] FREUD, Sigmund. (1919). O estranho. In. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1996, pp. 248, 249.

[6] Giorgio Agamben faz recurso a duplicidade do sujeito dessubjetivado em livros como O que resta de Auschwitz, Estâncias e outros; Ideias como as de Górgona, Demônio Meridiano e Genius são figuras dessa incompletude inconsciente duplicada

[7] AGAMBEN, Giorgio. Profanações. São Paulo: Boitempo, 2007, p.18.

[8] MEARNS, Hughes. Antagonish. Agradeço muito especialmente à querida Enaiê Azambuja pela tradução.

[9] AGAMBEN, Giorgio. Profanações. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 53.

[10] PLATH, Sylvia. Canção de Amor da Jovem Louca.

[11] Se resta alguma dúvida de que o fascismo é a incapacidade de aceitar o que Freud chama de Unheimlich, sugerimos a leitura do discurso de Benito Mussolini em março de 1919, quando da fundação, batismo e apologia do Movimento Fascista.


 

BIBLIOGRAFIA:

AGAMBEN, Giorgio. Profanações. São Paulo: Boitempo, 2007.

FREUD, Sigmund. (1919). O estranho. In. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

MEARNS, Hughes. Antagonish.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

PLATH, Sylvia. Canção de Amor da Jovem Louca.

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