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A taxonomia teleológica da crítica de rock

“(…) o punk rock do final dos anos 1970 é tomado como ponto de referência qualitativo para a análise do rock que vem antes dele, de modo que tudo que o analista aprecia invariavelmente acaba sendo classificado como “pré-punk”, “proto-punk”, “pioneiro do punk”, “precursor do punk”, e assim por diante.”

No seu conto “El idioma analítico de John Wilkins” (em Otras Inquisiciones, Buenos Aires: Sur, 1952), Jorge Luis Borges cita as peculiares taxonomias do inglês que dá nome ao conto, do Instituto Bibliográfico de Bruxelas e da (certamente fictícia) enciclopédia chinesa intitulada “Empório celestial de conhecimentos benévolos”, que divide os animais em (a) pertencentes ao Imperador, (b) embalsamados, (c) amestrados, (d) leitões, (e) sereias, (f) fabulosos, (g) cachorros de rua, (h) incluídos nesta classificação, (i) que se agitam como locos, (j) inumeráveis, (k) desenhados com um finíssimo pincel de pelo de camelo, (l) etcétera, (m) que acabam de quebrar o jarro, (n) que de longe parecem moscas. Quando nosso riso já é largo, Borges o interrompe com uma sábia admoestação: “notoriamente não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjectural”.

Não quero me indispor com os apreciadores do punk rock, mas vou aproveitar a passagem borgeana para me queixar da arbitrária e conjectural taxonomia teleológica que é praticada pela maior parte dos críticos de rock. Apesar do rótulo esdrúxulo, me refiro a algo bem simples: ao fato de que o punk rock do final dos anos 1970 é tomado como ponto de referência qualitativo para a análise do rock que vem antes dele, de modo que tudo que o analista aprecia invariavelmente acaba sendo classificado como “pré-punk”, “proto-punk”, “pioneiro do punk”, “precursor do punk”, e assim por diante. É como se o fusca fosse tomado ponto culminante da indústria automotiva e os demais carros fossem avaliados por sua semelhança ou dissemelhança com ele. Deixando claro: nada contra o fusca, nada contra o punk. Meu problema é com o método, arbitrariamente teleológico.

(Uma nota antes de prosseguir: para facilitar as coisas, vou restringir minhas referências apenas às biografias, descrições, resenhas e classificações do site Allmusic (www.allmusic.com), a maior enciclopédia de música disponível gratuitamente online; todos os nomes citados daqui em diante podem ser encontrados lá.)

Atribuir a alcunha “punk” a todas as bandas surgidas com e associadas a esse movimento já é algo complicado: Pere Ubu, Wire, Television, Talking Heads, por exemplo, são bandas classificadas como punk, mas cuja música complexa e inovadora pouco tem a ver com o primitivismo e a agressividade pretendidos pelos críticos. Mas façamos essa concessão, que sejam punks. E façamos mais uma concessão: que haja uma série de bandas cuja música reúna elementos comuns à ideia genérica de punk rock: música direta, curta, crua, agressiva, contestadora dos valores vigentes etc. Vamos encontrar então, naturalmente, MC5, Stooges, New York Dolls e garage bands como Sonics dentre os inúmeros “precursores do punk”. Ainda que haja parentesco entre o estilo dessas bandas e o punk, o que pode fazer a classificação parecer menos arbitrária, fica evidente seu teleologismo, pois o peso – literal e figurado – dessas bandas não permite dizer que sejam “pré” outra coisa; elas são, cada uma delas, um fim em si mesmas, e não um degrau na escada que leva ao paraíso. 

(Breve nota de pesar: é motivo de honra para os roqueiros peruanos que recentemente Los Saicos, uma magnífica banda de rock dos anos sessenta formada na Província de Lima, tenham sido redescobertos e aclamados como pioneiros do punk. “O punk nasceu no Peru!” – me entristece louvar a grandeza de alguém por ser uma forma incipiente da grandeza de outra pessoa.)

As coisas ficam bem bizarras quando vasculhamos um pouco mais do vasto universo de bandas e artistas que a crítica classifica como “pré-punk”. O verbete “proto-punk” do Allmusic diz que a denominação se refere a um pequeno grupo de bandas revolucionárias e de difícil categorização que surgiram entre a segunda metade dos anos sessenta e o momento em que o punk mesmo se tornou um fenômeno (em torno de 1975-76). O que liga essas bandas entre si e ao punk seria, em suma, uma sensibilidade provocativa que não se adequa à contracultura hippie predominante no período; essas bandas desafiam as convenções do rock mainstream, são conscientemente subversivas, lidam com temas tabus, e sua música é geralmente produzida de forma primitiva e crua. Além de MC5, Stooges e New York Dolls, o verbete cita ainda Velvet Underground como um notório representante da casta. Mas, depois, vem uma série de nomes que, embora possam carregar uma ou outra das características mencionadas (como praticamente todo o rock, na verdade), nos dão uma sensação de que “proto-punk” é simplesmente tudo de que o autor do verbete gosta: do glam multi-estilo de David Bowie e Marc Bolan & T. Rex, passando pelo power pop de Todd Rundgren, até o blues-hippie dos Doors.

E há mais (nem todos mencionados no verbete, mas todos caracterizados em algum momento como “proto-punk” em seus verbetes próprios): Flamin’ Groovies, Big Star e Roxy Music! Confuso? Que tal então: a música de vanguarda do Captain Beefheart é proto-punk, assim como o experimentalismo do alemão Neu!, a antimúsica dos Godz, a psicodelia eletrônica do Silver Apples, a doideira dos Fugs e até mesmo Frank Zappa! Ou seja, uma classificação digna da enciclopédia fantasiosa de Borges.

É impossível analisar caso a caso para mostrar a incongruência de classificar todas essas figuras como precursores do punk rock, mas elas estão todas à distância de um ou dois cliques de mouse. Faça o teste você que me lê, ouça e me diga o que pensa.  Que as classificações sejam arbitrárias e conjecturais, não há problema, desde que nos fique claro que elas não correspondem necessariamente à realidade, mas a um recorte feito por alguém. E nada de mais em ver a história da música como teleológica, desde que nos fique igualmente claro que o telos é sempre o telos de alguém, não universal e inexorável.

De minha parte, prefiro que minha arbitrária e conjectural taxonomia seja arqueológica, e que ande como o rio das horas do poema de Miguel de Unamuno citado por Borges em “História de la Eternidad”(História de la Eternidad, Buenos Aires: Sur, 1936): “Noturno o rio das horas flui/do manancial que é o amanhã/eterno…”.

baracatjr@hotmail.com

<p>Graduado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (1997), mestre (2001) e doutor (2006) pela mesma Instituição, é Professor (Associado 3) de Língua e Literatura Gregas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tem experiência na área de Letras Clássicas e Filosofia Antiga, atuando principalmente nos seguintes temas: Neoplatonismo, especialmente Plotino (c. 205 – 270). No momento, dedica-se à tradução integral das Enéadas de Plotino.</p>

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