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Uma pulga atrás da orelha de Van Gogh

Imagem: Vincent Van Gogh – Sorrowing Old Man (‘At Eternity’s Gate’) – 1890

A tragédia da existência do artista amaldiçoado. Assim como com os vampiros de Anne Rice, até hoje nos apaixonamos por figuras do mundo das artes que jogam com o distúrbio do gênio e a tragédia criativa. Existe metafísica nesse teatro? Por Vinicius F. Barth.


“De Hector Berlioz a Kurt Cobain, de Nosferatu ao ‘amaldiçoado’ papel de Coringa em Hollywood, nosso coração gira em burburinhos ao percebermos o distúrbio dramático de uma mente geniosa.”

Lê-se no romance Doutor Fausto, de Thomas Mann:

 

“ – Assim, o Maligno cumpriu lentamente Sua promessa durante vinte e quatro anos, e tudo está pronto, nos seus mínimos detalhes. Concluí a obra em meio ao homicídio e à luxúria, e pode ser que, graças à Misericórdia, ainda chegue a tornar-se bom o que foi criado em maldade. Eu não o posso prever. (…)” (trad. de Herbert Caro)

 

Pouco depois a voz asmática do dr. Kranich ressoa pelo silêncio do recinto:

 

“ – Este homem, este homem está louco!”

♦♦♦

O trecho acima não trata da vida de um rockstar do século 20, mas da mente consumida do músico Adrian Leverkühn, personagem de Thomas Mann que vende a alma ao Demônio afim de que viva o suficiente para finalizar a sua grande obra.

 

Essa imagem, ligada no trecho acima a um músico, pode nos suscitar lembranças bastante recentes referentes a vidas trágicas que resultaram em grandes obras.

 

Pois é fato que a mente atribulada de um artista é uma coisa que realmente nos seduz.

 

De Hector Berlioz a Kurt Cobain, de Nosferatu ao “amaldiçoado” papel de Coringa em Hollywood, nosso coração gira em burburinhos ao percebermos o distúrbio dramático de uma mente geniosa. Desde aqueles tempos românticos e vampirescos de 1800 e poucos, o artista maldito à moda de Lord Byron e Rimbaud, Poe e Wilde, manteve-se saudável e comercial, e no século 20 se elevou à brilhante esfera do cinema e da música pop, mitificando e consolidando o paradigma maldito e, no fim, mantendo-se vivo e a todo vapor em pleno Agora. Somos tão irônicos em nossa geração, mas no fim não resistimos a Emily Brontë, Anne Rice, Stephenie Meyer.

 

Adrian Leverkühn é um símbolo criado por Mann que serve – também – para debater a tragédia da vida e a imortalidade da obra. Fortemente baseado no Fausto de Goethe, que se doa ao Mal essencial em favor do gênio, Leverkühn evoca acima de tudo essa nossa ancestral atração pelo enigma, simbolizada no romance pela admiração do fiel amigo Serenus Zeitblom: “Refiro-me à palavra ‘genial’, ao tratar do gênio musical de meu finado amigo”.

 

(Um filme lançado há poucos anos, Cisne Negro, com Natalie Portman como protagonista, apresenta exatamente a mesma discussão como tema central. Ainda sendo um filme fraco e escrito de uma maneira bastante superficial – barata –, acabou levando plateias do mundo todo ao delírio e rendeu um Oscar de melhor atriz a Portman. Pensa-se, assim, na relevância ainda bastante atual do assunto da vida que se é dada dramaticamente em favor da obra.)

 

Lendo-se com uma mínima atenção, consegue-se perceber que a moral da história não faz uma apologia agradável à genialidade trágica. Embora o gênio encantador, que vai desde Liszt a Bon Jovi, renda muitas gatinhas, no final das contas a moral não verte para um sentido bacana.

 

Obviamente essa soma de arte e tragédia não muda no mundo das artes visuais. Frida Khalo nos encanta menos por seu trabalho do que por sua biografia. Caravaggio, para além de suas obras, é muito admirado também por ter levado uma vida de rockstar, cercada de romances e homicídios e desaparecimentos. Diferente de Leverkühn, estamos aqui diante de vidas verídicas – pelo pouco que sabemos que não se perdeu entre mares de dramatizações.

 

Disseram os vizinhos de Van Gogh que a vida em sociedade com o artista era insuportável. Entre acessos de loucura, ciúmes e automutilações, o holandês encarnou uma das figuras mais trágicas da nossa história recente. Entretanto, sabe-se muito do tormento e da sensibilidade desse homem por meio de suas cartas. Mais ainda, sabe disso por meio de sua pintura. Não deixa também de ser triste.

 

Van Gogh é tido como o pai do movimento que se conheceu como Expressionismo, onde a realidade é deformada em prol da expressão dos sentimentos; é o externar do subjetivo, a forma particular e individual de se ver a realidade. Por um lado, é quase a definição da arte que se pratica até hoje, dividida em escolas quase individuais, onde cada sujeito se vê e se faz ver como individual no mundo objetivo.

 

Mas nem todos são Van Gogh, genuinamente loucos, vivendo sob a opressão demoníaca de uma loucura incurável. Longe de ser um rockstar lindo e sedutor, ele viveu na piedade religiosa e sua alma, embora severamente atribulada, não foi realmente para o Diabo ou para Aleister Crowley. Embora seja o retrato de uma vida completamente miserável, vejo isso como a verdadeira magia numa obra de arte, ou, como está dito na coluna Ruído desta mesma edição, a conjunção artística da espiritualidade e existência, a metafísica que se capta sem uma biografia por trás.

 

Longe das bios hollywoodianas ou dos que se fazem de louquinhos em guetos artísticos mundo afora para parecerem artistas cool, Van Gogh acaba sendo verdadeiramente um dos homens que deram tudo pela sua arte, inclusive a sanidade.

 

E isso sem ser vampiresco, misterioso, cool, sedutor ou rockstar.

 

Pensemos no assunto.

vinicius.rnott@gmail.com

<p>Doutorando em Estudos Literários pela UFPR. Tradutor. Estudante da literatura grega antiga. Autor de artigos científicos que ninguém nunca vai ler. Escritor. Autor do livro de contos ‘Razões do agir de um bicho humano’, publicado pela Confraria do Vento em 2015. Curioso do desenho e da fotografia. Nunca um entusiasta.</p>

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