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Uma parábola do jovem moderno

O homem bem informado faz parte do ideal moderno. E a mente do homem bem informado é uma coisa horrível. Assemelha-se a uma loja de bricabraque, repleta de monos e pó, onde tudo está marcado com um preço superior ao seu real valor.

 

Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray

A cidade pairava, nebulosa, sobre o ponto mais escuro do horizonte. Era um preto sobre preto, uma sombra imensa que se levantava acima da linha da serra e parecia se aproximar, imponente, impávida, calada. Sobre ela estava uma nuvem igualmente gigante e igualmente escura. Chovia.

O único ruído que se podia ouvir era o murmúrio incidental dos deuses subterrâneos respondendo à chuva que caía. A cidade era escura e vazia, e tremia sob os comentários falaciosos dos trovões que sussurravam de maneira irônica as verdades inauditas. Nada mais se ouvia senão a natureza pérfida daqueles arautos de Zeus, segundo uns, de Thor, segundo outros.

Dentro dessa cidade, tudo se resumia a janelas; mas havia um resquício de vida dentro do corpo negro, nos imóveis pontos claros de janelas que, quando nos aproximamos, tornam-se visíveis e amareladas, quentes. Eram como o sangue pulsando fracamente dentro das carnes de pedra de um gigante semimorto. As margens de granito da cidade mantinham afastadas as ondas inchadas e brutais do mar revolto. De resto, tudo era silêncio.

Se nossa visão se fecha um pouco mais nas janelas, um dos quartos nos chamará a atenção. Ele está localizado perto do centro do corpo negro da cidade, perto do centro geográfico, não do centro econômico, próximo à costa. Por dentro é formatado como um estúdio, como um escritório. Não é obsessivamente arrumado, nem relaxado. Possui uma biblioteca comum – opulente, na visão do seu dono – banhada por lâmpadas a gás, amareladas, signo do progresso. A mesa central, componente mais importante do ambiente, reúne alguns volumes da engenharia mais avançada de seu tempo, usinas de geração de energia, hidrelétricas, hidráulicas, hipotéticas. Nucleares, talvez. Podemos mencionar também alguns adornos que compõem o resto do cenário: o tabuleiro de xadrez, abandonado durante uma partida momentos após as jogadas de abertura, uma dupla de garrafas de conhaque ainda fechadas, um distintivo oficial, uma proposta de casamento rascunhada num papel qualquer, datada de nove anos atrás, um porta-retratos submerso na última gaveta da escrivaninha, contendo a foto de um músico, potes de loção para as palmas das mãos, um bilhete esquecido num dos bolsos do capotão com o telefone da prostituta para a qual ele nunca ligou, um spray para o hálito, meia carteira de cigarros, abandonada após a vitória sobre o vício, uma Bíblia aberta. Atrás da porta uma ratoeira.

Mas talvez o que nos chame mais a atenção dentro do ambiente seja a pintura na parede oposta à janela. Contemplando a escrivaninha de frente e de cima, o quadro tem quase dois metros de altura, emoldurado ricamente pelo bronze. Parece pesar uma tonelada e carregar em si o mistério do progresso. A figura retratada, um cavaleiro, um militar que poderia ser tanto Pedro, O Grande, como o Marechal de Ferro Floriano, aponta com sua mão para cima. É a vontade montada num cavalo mítico de grandes proporções. Na base da moldura, gravada no próprio bronze, está a sentença: In hoc signo vinces.

Eugênio, sentado à mesa e contemplando a figura, é tomado pelo impulso heroico. Sente-se Nicolau I, Constantino, um pouco Orleans e Bragança, um pouco Castelo Branco. Sua figura assume a mescla de referências, referências. Ele quer ser todos, quer unir sobre si essa capa de ícones. Então ele pousa instintivamente seus olhos uma última vez sobre a Bíblia, aberta em Marcos 5:9.

Levanta-se num pulo, derrubando a cadeira num estrondo, virando-se para trás e abrindo a janela num empurrão. PÁ! O estalo ecoa e se dissolve na chuva enquanto ele encara o Oeste. Tal como a figura na moldura de bronze, Eugênio levanta a mão para o céu inundado e proclama um único esbravejo enquanto a sua voz assume um tom ancestral, embora não completamente:

– Dai-me um céu de virgens e trocá-las-ei por BigMacs!

E foge apressadamente.

vinicius.rnott@gmail.com

Doutorando em Estudos Literários pela UFPR. Tradutor. Estudante da literatura grega antiga. Autor de artigos científicos que ninguém nunca vai ler. Escritor. Autor do livro de contos 'Razões do agir de um bicho humano', publicado pela Confraria do Vento em 2015. Curioso do desenho e da fotografia. Nunca um entusiasta.

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