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Uma arte-código-binário

A perda da “materialidade” do objeto-arte e a sua reencarnação no código-binário. O que é o belo e o estético quando tratamos de “zeros” e de “uns”? Juliano Samways questiona a respeito do “ser” das coisas nessa atualidade de arte-via-monitor.


“Talvez o que se coloque seja uma nova forma, no caso um não-forma, ainda não compreensível para pessoas do nosso tempo, mas sim para uma geração futura.”

A questão sobre o ser das coisas assombra a Civilização Humana desde a sua fundação. Cada período, povo, cultura, trata dessas questões à sua maneira, respondendo a esses problemas em uma série de mitos, religiões, cosmologias, filosofias. A música pode, talvez até deva, ser um caminho para responder estas questões, ou até mesmo para melhor formulá-las. Pensar desta maneira é acreditar que a arte é o acesso, a conexão com o verdadeiro ser das coisas, e a música, um canal sonoro, uma cantiga do ser. Em nosso tempo histórico, apostaria minhas poucas fichas na tese de que vivemos o período (não a era) da mídia. Se a grande questão é abordar o ser, apostaria que o ser da música, o ser da arte, é em muitos aspectos, nos dias de hoje, o ser das mídias. Para tal abordagem, que uns dirão tola, outros apodíticas, são necessárias as seguintes questões:

  • Limites da arte: Se arte é uma mídia, então toda mídia é uma arte?
  • O corpo da arte: Em dias de mídia digital, é possível ser digital e ter fisiologia?

 

A mídia, em teoria, sempre foi um meio, um mecanismo, e nesse sentido seria uma falsa pretensão transformar um meio em final de algo, meios que seriam fins. Mas a questão que se coloca é a de como as várias artes (visuais, sonoras, táteis, literárias) conectam-se nas mídias digitais e parecem romper limites de certas tradições artísticas que sempre tiveram um meio material, sendo ela, a mídia, uma só expressão artística, por mais que se apresente aos vários sentidos. Observamos através do Youtube, Vimeo, e outros receptáculos de arte online, as mídias em transmissão digital, que muitos já não associam como música, poesia, vídeo, etc., mas sim um canal direto de arte: imagens, narrativas, trilhas sonoras. Os computadores, celulares, mecanismos de e-arte, ars-digital, pan-museus, são onde o individual torna-se Earth. Daí o grande problema: quando a mídia torna-se digital não é mais um meio – assim como o mármore era o meio, a causa material à la Aristóteles e suas estátuas – mas sim o meio e o fim, pois teria em si todos os meios juntos, um meio universal baseado em códigos digitais, em codificação binária, para ser mais específico. As mídias digitais possuem algo de universal, uma arte-código-binário, que se decompõe em uma série de bits e bytes invisíveis a olho nu. Seriam essas artes feitas para computadores se deleitarem?

 

A outra questão que se coloca é de como algo puramente digital pode possuir no futuro algo parecido com um corpus, como será o registro, se não material, dessas artes? Talvez o que se coloque é uma nova forma, no caso um não-forma, ainda não compreensível para pessoas do nosso tempo, mas sim para uma geração futura. E talvez essa geração futura não estratifique as artes a partir de seu meio, pois o meio não existirá. Essa polifonia de problemas aparenta ser o samba de uma nota só, ou melhor, duas notas que perfazem o 0 e o 1. Não somente na vinculação e entrega dessa obra para as redes digitais, mas também na criação, manipulação, tratar os timbres de guitarra como “plug-in’s”, modelar andamentos, ritmos, batidas, o advento dos manipuladores profissionais de remix, recriação e criação de músicas somente em meio digital. Formas de criar a partir de uma codificação básica, através de programas, softwares que podem ser reduzidos a um código binário. É difícil estabelecer um filtro para essa quantidade inapreensível de música produzida por esses simuladores, e também outras artes, nessas mesmas vias digitais, podendo-se até pensar que um depurador de tudo isso seria uma espécie de Estética Musical Digital aprofundada. Um estudo do bom e do belo na mídia. Porém, ai de quem fizer isso! “Opressor do mundo digital!” Gritariam e bradariam os blogs libertários de plantão. A internet, nesse sentido, não parece ser uma Democracia, mas sim uma tempestade, chuva meteórica de informações que talvez impeçam os direitos igualitários. É como imaginar um tribunal de infinitos acusadores, o dobro infinito de testemunhas, o triplo infinito de juízes. Voltemos à música, a música no contexto da mídia universal, mídias intermináveis no vasto rincão da internet. Reforço minha ideia básica: quem propor um filtro razoável para as mídias digitais será um grande renovador da Estética Musical, criador da Estética Musical Digital, a Navalha de Ockham da rede. Crivo que dirá que nem toda mídia é arte, mesmo a arte tendo esse meio como final. Penso até em algo mais fantástico, uma espécie de algoritmo, uma fórmula que através da análise dos trilhões de 00001000111100, dissesse: isso é bom, isso é ruim. O dia em que isso chegar, poderemos alegremente dizer: a arte digital está morta, e é encerrado o período da mídia como uma arte-código-binário.

jspetroski@hotmail.com

Professor de filosofia, autor, músico, estudante, ex-enxadrista, ex-filatélico.

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