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Terapia de Choque

Bruno Archie Ribeiro apresenta o seu trabalho fotográfico na coluna R.You! deste mês, discutindo questões de sexualidade, valores estéticos, mídia e auto estima.

“Com meu trabalho tenho me dedicado a dar espaço a dois discursos principais: encarar a nudez com naturalidade, de forma dessexualizada, e assumir a sexualidade explicitamente, mostrando que seu exercício não deve ser reprimido.”

          Às vezes penso que o caminho que segui com meu trabalho foi um tanto atípico, mas no fim percebo que não poderia ter sido de outro jeito. Me formei Técnico em Estilismo e Confecção Industrial pelo SENAI PR em 2009 na intenção de um dia trabalhar com produção. Pouco tempo depois uma amiga propôs iniciarmos um blog de moda, bem antes da febre que isso se tornou. Parecia uma ótima oportunidade para produzirmos despretensiosamente nossos próprios ensaios e foi assim que aos poucos aprendi a fotografar sozinho.

 

          Nesse período comecei a me interessar mais por editoriais de moda que envolviam nudez, como os trabalhos de Mert & Marcus e Steven Klein. Mas foi com os flashes estourados de Juergen Teller e Terry Richardson que começou o fascínio. Algo naquela atmosfera hedonista me cativou a ponto de eu pensar: “por que não?”. A vontade de tentar algo do gênero cresceu quando conheci artistas mais subversivos como Alexander Kargaltsev, Luigi & Luca, Bruce LaBruce e Slava Mogutin. Esse mundo ainda parecia de alguma forma intangível, mas era hora de tentar.

 

          Conversando com alguns amigos sobre minha vontade de retratar a nudez alguns aceitaram posar. Fotografei meus primeiros nus, mesmo que sem muita confiança, por diversão. Com alguns ensaios em mãos surgiu em 2011 o Viva Caligula, inicialmente apenas para compartilhar minhas novas experiências com o corpo desnudo.

         Eventualmente eu me arriscava a publicar auto-retratos, mas sempre me escondendo de alguma forma com ângulos estratégicos, edições e afins. Sentia que não estava sendo honesto comigo mesmo e comecei a refletir sobre o motivo de ter tanto medo da minha própria imagem. Concluí que eu não precisava me submeter a dietas malucas, tardes exaustivas em uma academia ou mesmo cirurgias arriscadas para ser aceito. Eu não precisava me esconder, e nem queria.

 

          Decidi que era hora de me encarar de frente, como sou, e a melhor maneira de transgredir minhas inseguranças era dando a cara a tapa e me expondo por completo. Encarei meus medos, publiquei algumas fotos completamente nu e escrevi um manifesto. O Viva Caligula começou a ganhar propósito.

 

 

          Agora certo do que queria, me divorciei do mundo da moda e passei a me concentrar em meu projeto fotográfico, recrutando modelos voluntários e produzindo novos ensaios. Cada um com suas próprias inseguranças buscando “libertação através da exposição”, como mencionou um amigo certa vez.

          Com o tempo notei que as inseguranças quanto ao corpo tinham outras raízes. Enquanto a mídia nos diz como nossa aparência deve ser, existe por trás dela uma sociedade conservadora nos dizendo como agir. O corpo é objetificado, fazendo com que a nudez seja interpretada exclusivamente no contexto sexual, enquanto o sexo é encarado com imoralidade. Por trás da sociedade, por sua vez, temos o machismo ditando todas as regras.

 

          Ciente do real inimigo, passei a me aprofundar no estudo do movimento póspornô, que tem por principais características ser inclusivo e contestar os padrões de sexo e gênero da sociedade cis heteronormativa. Com meu trabalho tenho me dedicado a dar espaço a dois discursos principais: encarar a nudez com naturalidade, de forma dessexualizada, e assumir a sexualidade explicitamente, mostrando que seu exercício não deve ser reprimido. Embora pareçam conflitantes, por trás de ambas as linhas de pensamento existem os mesmos desejos de liberdade e empoderamento.

 

          Hoje, aos 27 anos, entendo que fui ludibriado por um sistema opressor que me fez acreditar que eu era menos digno por ter um corpo diferente e vivenciar minha sexualidade intensamente. Hoje vivo de forma plena e não lamento o tempo que perdi vivendo nas sombras. Nunca é tarde pare se amar, mas quanto mais cedo, melhor.

Manifesto:

 

  “Somos inconscientemente vítimas da mídia, constantemente expostos à valores estéticos limitados e por vezes irreais. Tentamos nos encaixar e quando não conseguimos nos frustramos, dando início a um processo de corrosão de nossa autoestima.

 

  Há três anos comecei a publicar fotos nu em meu antigo tumblr. Além de eu ser o modelo mais acessível para dar vida aos meus projetos, expor meu corpo é como uma “terapia de choque” para minha autoestima.  Não importa o seu biotipo, sempre haverá alguém que te acha atraente e alguém que te acha feio. É uma questão de preferência individual. Não podemos agradar a todos.

 

  Entre críticas e elogios comecei a ver que não era o monstro que a mídia me fez pensar ser. Aprendi a lidar com o tamanho das minhas orelhas, minhas coxas grossas, minha pele áspera meus braços finos e meus testículos pequenos. Mesmo depois de tantas fotos expondo meu corpo e melhorando minha auto aceitação, minha barriga ainda me incomodava. Mas acho que chegou a hora transcender o pudor e me aceitar por completo.

 

  Não sou mais bonito e nem mais feio. Sou diferente.

Não tenho qualidade nem defeitos. Tenho características.

Assim como todos.”

contato@rnottmagazine.com

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