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Tântalo

Neste mês, a coluna R.You! apresenta dez poemas de Lucas Perito. Ele também nos conta sobre os caminhos que o levaram a produzir versos e sobre o seu processo de composição, essa intrincada arte de se moldar o verbo.


Peixes devoram a espádua

Desse barco sem leme nem mastro.

       Bom, falar como começou essa coisa de escrever é um pouco complicado. Primeiro por que, de fato, eu nem lembro como começou. Na verdade, quando pensava em escrever sempre me imaginei como romancista. Meus primeiros ídolos da literatura eram nomes como Beckett, Proust, Musil, Gide, Dostoievski, Faulkner e por aí vai. A poesia me dava certo receio e estranhamento, no sentido de achar que era uma grande caixa preta que eu precisava descobrir.

 

          Há anos atrás me empenhei em escrever romances. Eu tinha tudo: a ideia, o personagem, a psicologia, as paixões, etc., mas não conseguia passar do primeiro parágrafo -meus personagens tinham longos solilóquios no estilo Thomas Bernhard e não saiam do lugar. Esses romances nunca escritos pareciam grandes poemas sobre a imobilidade, excetuando, claro,  a linguagem.

 

         Porém, nesse tempo, já estava fascinado pela poesia, Mallarmé e Rilke já eram símbolo do que eu achava sobre arte, e resolvi levar essas “ideias” para um campo onde elas se comportariam melhor. Porém, isso não foi algo totalmente pensado e estudado em um primeiro momento: posso dizer que o fazer poesia surgiu de uma forma quase natural, sendo, no fundo, a melhor forma de represar todas as minhas questões e dúvidas.

 

          No começo eu não me sentia muito confiante com o que fazia, então, em uma tentativa de ser assertivo, me “internei” na poesia, passando um ano em que não lia nada além, estudava, tentava entender todos os meandros que concerniam esse espaço. Queria entender poesia em seu sentido mais característico e fascinante: a ductilidade da palavra.

 

          Para ler as coisas da forma que queria, precisava aprender francês, pois, para ler Rimbaud, Valéry e Baudelaire, queria pensar na lógica daquela língua. Para ler Garcia Lorca e Octavio Paz, me aperfeiçoei no espanhol. Queria entender T.S. Eliot e W.H. Auden, então precisava chegar até eles via a língua mãe, e por ai vai. Sem contar os três Andrades e Pessoa que sempre me fascinaram. Claro que não ter a capacidade de ler os alemães e os russos no original sempre me deixa com a pulga atrás da orelha.

 

       Nesse meio tempo, continuei escrevendo e, enquanto tinha as aulas de francês, fui ficando amigo do meu professor, o grande poeta uruguaio Alfredo Fressia. As tardes com ele começavam versando sobre francês e acabávamos falando sobre poesia  e, entre uma conversa e outra, tive coragem de perguntar se ele aceitaria ler minhas coisas.

 

          No dia em que ele me falou, no seu sotaque característico, “petit Luc, você é um poeta!” e me instou a mandar minhas coisas para as revistas, foi a primeira vez que de fato ganhei confiança no que fazia. Hoje, já não tenho tanta cisma em responder quando me perguntam o que faço: faço poesia! Claro que ainda falo isso com um pé atrás – acho que faz parte, sou um cara extremamente egocêntrico, e nada mais egocêntrico do que ser inseguro.

 

          A partir daí as coisas foram aparecendo, saí em algumas publicações que gosto muito, como as revistas Zunái, Benfazeja, Diverso e Afins, etc. e agora estou me preparando para começar a enviar meu trabalho para as editoras.

Processo de trabalho

 

         Meu processo de produção surge de diferentes formas. Eu trabalho com a palavra e, portanto, esse é o meu material, e não há como fugir disso. O pensamento passa necessariamente pelo campo da linguagem e esse sempre será o cerne do meu trabalho e, para falar a verdade, da boa poesia – e a meu ver, na boa poesia a palavra deve prevalecer sobre a ideia, ou melhor, um deve trabalhar em função do outro.    

 

           Dessa forma, como disse anteriormente,  minha obra surge de forma diversa. Ando sempre com vários caderninhos para qualquer eventualidade anotar algo: esse anotar algo vem desde uma palavra que surge na minha frente como também uma frase que “pensei”, algo que li, e por aí vai.

 

          Muitas vezes trabalho em cima disso e, de uma palavra juntando à outra e de uma frase juntando à outra, vou achando o tom. Este é um processo extremamente lento, pois nunca estou satisfeito com o que escrevi. Acredito que até hoje tenha escrito uns três poemas que acho que de fato estão terminados e em outros, a vontade de reescrevê-los está sempre presente. As mudanças ocorrem de todas as formas, algumas vezes brigo com uma vírgula que hora entra, hora sai.

 

          O interessante deste processo, é que mexe com algo que muitas vezes  você não estava esperando. Assim que uma ideia vai surgindo em torno do poema, começo a moldá-lo a fim de responder a uma questão específica; é como se a palavra de fato trouxesse a ideia e não o contrario. Poderia dizer que a linguagem descortina e revela aquilo que você como autor estava procurando. De certa forma, eu produzo tanto sentido quando crio, quanto quem me lê depois.

 

          O poema “Il Porto Sepolto”, de Giuseppe Ungaretti, discute de forma brilhante isso, assim como, no canto VIII da Invenção de Orfeu, Jorge de Lima exemplifica algo que vai de encontro ao que falei:

 

“Língua remota, língua de presenças,

De suscitadas ressonâncias, amo-a,

Que me deu a experiência dos abismos

E também das realidades inefáveis

E também da saudade amarga e doce

E também das verdades mais ardentes”

 

 

          Minha outra forma do processo de trabalho é muito mais difícil, é quando quero falar sobre determinado “assunto” e preciso resolvê-lo poeticamente. Nestes casos, os poemas acabam sendo de maior extensão, assim como dois que se incluem nesta coletânea: “A caminho de Axël” e “Prometeu ou como formei uma biblioteca”, pois o processo se torna moroso até achar o tom necessário.  Muitas vezes isso leva meses para um único poema e este pode se resolver tanto em um “estalo” de pensamento como ao ler algo que muitas vezes não tem nada a ver com isso – como em um caso que envolve Bienal, livros e um roubo (mas isso é outra história e muito longa por sinal).

 

          Falar dos processos de trabalho é falar sobre  por que escrevo. Claro que essa é uma questão extremamente complexa, mas podemos dizer que arte é confissão, e no fundo é isso o que faço, mesmo quando não necessariamente sou o “eu lírico” em questão. 

 

Poemas

Tratado da terra

I

Cobre-se a negra imensidão

De onde parte o som

Que se dispersa a medir distâncias

 

Cavam em dupla comunhão

Sob sagrados jardins

De frutos belos e escuros

 

Ao retirar a terra

Sombras penetram e infiltram

O profanar da dúvida

 

É no buraco e entre o nada

Que alegre se encontra a dor

De se perguntar às respostas vagas.

 

II

Surgem espaços de amplidão descomunal

E brilham luzes que ofuscam o olhar

 

Como neve que penetra o branco

Através de nuvens que a vera falam

 

Refastelam-se livres homens de

Vozes límpidas que sem parâmetro

Vagam entre abóbadas celestes

 

Devir de certezas numéricas

E frases insuspeitas

Não há delícias que não se sabem

 

Não haveremos de encontrar o

Primeiro grito no eco eterno

 

Pois, assim será o jardim vindouro

– Branco, claro e triste.

Tântalo

“Poetry is the supreme fiction, madame.”

Wallace Stevens

 

Há um negro em meu ouvido

Que suspira a morte do ser.

Caule que se verga

Quando adentra a vereda

Onde batem os frutos que pendem;

Confundem-se os caminhos

Do talo, onde por fim

Rumoreja alvo lençol

No tálamo de sol.

Como natural desonra

Banha-se no Letes,

Não fértil, branca mortalha.

Prometeu ou Como Formei uma Biblioteca

“Que ele possa continuar a vencer

Tiamat e abreviar seus dias”

 

Bem escuro no fundo da noite sem fim

Começo narrando

Às margens do tempo

Um navio por casa

E uma tartaruga ao lado

Entre altas marés

E aves submersas

Este é o lugar dos relógios quebrados

Dos homens de areia

Da fome dos náufragos

Dos livros de cabeceira

Do acúmulo das coisas

Enterradas em um deserto.

Edificam-se os passos perdidos,

Incertos, caminho ao largo da ilha

Assumo a proa

Junto as palavras, faço o elo

“Detenham-me, sou tão belo”!

 

 

Era julho,

Não participou das alegrias de férias

Liderou uma turba de mortos

Sobre o azul do abismo

Mas o corpo não despertou

Do fundo da noite sem fim.

A Caminho de Axël

“Que ele possa continuar a vencer

Tiamat e abreviar seus dias”

 

Bem escuro no fundo da noite sem fim

Começo narrando

Às margens do tempo

Um navio por casa

E uma tartaruga ao lado

Entre altas marés

E aves submersas

Este é o lugar dos relógios quebrados

Dos homens de areia

Da fome dos náufragos

Dos livros de cabeceira

Do acúmulo das coisas

Enterradas em um deserto.

Edificam-se os passos perdidos,

Incertos, caminho ao largo da ilha

Assumo a proa

Junto as palavras, faço o elo

“Detenham-me, sou tão belo”!

 

 

Era julho,

Não participou das alegrias de férias

Liderou uma turba de mortos

Sobre o azul do abismo

Mas o corpo não despertou

Do fundo da noite sem fim.

Referência

Neste titânico mundo de Moor,

Aos poucos escolhidos que assim ouviram a lira de Orfeu,

Reservo-nos o direito de ser Hipérion.

Objeto

A par entre o pensar e o estar,

Edificado no espaço e feito pelo ser,

Esse objeto sem forma combina com aqui

O marrom da cerejeira

O vermelho e azul da renda

A luminosidade amarela.

Suas setas marcam a língua – sem a qual

Vagaria sem traços que a delimitassem.

Mesmo não mais funcionando é um bonito objeto,

Um enfeite.

Relógio d´Água

É sob este signo que caminhas pedra.

Ao mar jogada, desmancha-se no sol

Que greta esse ventre de borracha.

Ouvem-se os cascos que batem

De encontro ao mármore

Num movimento incessante dos olhos.

Caldas passam e atravessam frinchas

Onde corvos bicam a face que pontuam.

Move-se um vasto borbulhar

Onde seu outro lado

Tinge-se de vermelho-mar.

Peixes devoram a espádua

Desse barco sem leme nem mastro.

Vagas levam o pouco que ainda resta –

Ossos não definidos de uma carcaça que cessa.

 

Finda.

 

Um extrato de praia,

Que diminuta,

É pisada

Por outros homens de areia.

Galimatias

Avoengos vergéis onde o gládio dobra sobre si mesmo

fratura a orquestra

o azul do abismo

– uma orquídea

Morreremos congelados

Natureza Morta

No Princípio é o Verbo

Inextricável pedaço amorfo

Na sua aparência terno

A seu entendimento morno.

 

Palavra que junta Palavra

Sem sentido apreensivo

Interroga-se, mas não crava

Todo o saber excessivo.

 

Lentamente apercebe-se a lida

Transpõe a língua aparente

Adentra o lugar da serpente

Aceita o pico da mordida.

Fratura Autoral

Perscruto esse estado de coisas minhas

Em ideias que fenecem

E entre verdes palavras

Curva-se a lira.

 

Pois – outro sim eu sou –

Sob existências mais belas, padeço

E que de resto

Se faça silêncio.

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