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Shanzhai: conselho para o ocidente

A cultura oriental do shanzhai. Marlon Anjos aborda o pensamento filosófico por trás da cópia chinesa de produtos, que costumamos ver como barata e fraudulenta. Será que não existiria aí uma lição para o ocidente a respeito de novos modos de se encarar o mercado?


“Harry Potter e os estudantes estrangeiros chineses na Escola de Feitiçaria de Hogwarts”; “Pai rico, pai pobre e Harry Potter”; “Harry Potter e a boneca de porcelana”, e meu favorito, “Harry Potter e o Leopardo Contra o Dragão”

É difícil dizer quantos livros da saga Harry Potter existem na China, a maioria dos artigos que eu li citam dezenas. O êxito dos livros da escritora J.K. Rowling foi responsável por uma contínua e anônima produção chinesa. Enquanto alguns ocidentais se preocuparam em roubar os manuscritos da autora, pois não suportaram aguardar o lançamento dos próximos livros, na China foram lançadas, sucessivamente, histórias novas que atravessaram a fronteira entre o oriente e o ocidente, adicionando novos desafios ao jovem bruxo. Esses livros apresentam títulos singulares: “Harry Potter e os estudantes estrangeiros chineses na Escola de Feitiçaria de Hogwarts”; “Pai rico, pai pobre e Harry Potter”; “Harry Potter e a boneca de porcelana”, e meu favorito, “Harry Potter e o Leopardo Contra o Dragão”, em que Harry é transformado em um duende obeso e cabeludo, precisando enfrentar um dragão para recuperar a sua forma e os seus poderes. Dado o exposto, poderíamos dizer que tudo que é amado não tarda em ser falsificado.

Essa produção é nominada como shanzhai na China, percebida no ocidente como sendo um equivalente à fraude, ao plágio e à falsificação. Resultado de processos oportunistas, gerando produtos de baixo custo, qualidade instável, baixa durabilidade e vida útil inferior ao produto proveniente. Ou seja, percebida como ato espúrio e réprobo.

Segundo o teórico cultural Byung-Chul Han, nascido em Seul, Coreia do Sul, e radicado na Alemanha, shanzhai é um neologismo que se refere à apropriação de uma forma ou de uma ideia, descaracterizando o status de originalidade de uma obra ou de um produto.

Os produtos shanzhai podem se adaptar à necessidade da situação, pois ao contrário das grandes marcas, não estão amarrados à produção a longo prazo, nem tampouco aos dissabores do mercado. O shanzhai se vale do potencial da situação, e é uma produção genuinamente chinesa.

Na China, o shanzhai corporifica todos os terrenos da vida, pode tomar a forma de produtos eletrônicos, roupas, livros, filmes, obras artísticas e demais artefatos. Isso demonstra uma grande flexibilidade criativa e semântica além da imposta, e equívoca, equivalência do termo a falsificações ou ao plágio.

Penso que seja necessário estar atento que essa prática se desenvolve e opera em sistema próprio, e não podemos exportar os valores ocidentais para compreender tal dinâmica, pois a fatura das obras shanzhai se distância dos valores que apregoam a individualidade e a singularidade como marca de prestígio, valores esses que balizam a produção ocidental. Ademais, tais obras apresentam atrativos que operam justamente na variação funcional e na engenhosidade, e prima pela produção coletiva. Isto é, shanzhai pode ser muito mais do que fraudes baratas e de má qualidades, demonstrando ser um corpo complexo e democrático, corporificando resistência e esperança frente ao mercado monopolizado.

A prática de shanzhai se presta à produção de artefatos além da fraude barata, seu projeto e seu desígnio não possuem nenhuma dívida com o original de proveniência, pois deve ser compreendida como um tributo, criação referenciada que não oculta a sua origem. As modificações técnicas e estéticas lhe conferem uma identidade própria, sem com isso precisar referenciar o autor que produziu o artefato. Uma forma de inserir e demonstrar as possibilidades criativas de um mesmo objeto.

A riqueza desses produtos é muitas vezes superior ao original, seus produtos possuem funções extras, o que lhes confere um encanto especial. Cito como exemplo os telefones celulares que possuíam a irônica função de reconhecer dinheiro falso. Essa função não converteria o aparelho em um artefato original? Percebemos também nesses produtos que o original pode ser apenas o ponto de partida; Adidas, por exemplo, se modifica incessantemente em Adidos, Adadis, Adis, etc. Talvez tudo isso seja apenas um jogo dadaísta, no qual não se refere apenas a uma forma expressiva, mas a uma paródia subversiva frente ao poder econômico e ao monopólio.

Há bastante formas subversivas bem-humoradas de shanzhai, como quando o logotipo da marca Puma se converte em “Fuma”, no qual se vê um puma pulando sobre a palavra “Fuma” com um ‘baseado’ na boca. Não acredito que essa logo faça referência aos usuários da marca, pois isso apenas pode ser compreendido como uma brincadeira com as palavras, uma paródia com o produto. Demonstrando que há sendo de humor na produção de shanzhai, e que seus produtores não são produzidos por especialistas frios e calculistas com o objetivo de gerar a cópia perfeita.

Segundo Byung-Chul Han, a palavra shanzai significa, originalmente, “fortaleza de montanha”, algo simbólico, pois foi onde um grupo de camponeses e funcionários se refugiaram contra o regime autoritário e corrupto durante a dinastia Song. Essa referência encontra-se em Pinyn Shuihu Zhuan, romance atribuído a Shi Nai’na e Luo Guanzhog, escrito no século XIV. A própria autoria desse romance não é clara, supõem que seja de vários autores. Além de que existem distintas versões do romance, com ou sem happy ending, tudo a bel prazer do leitor. Isso é algo que me agrada muito, pois muitas vezes os autores nos aborrecem optando por caminhos que acreditamos ser menos interessantes no percurso dos personagens. Shanzhai nos proporciona diversas opções, isso me parece bastante democrático.

Se a história, artefatos e demais criações humanas não possuem roteiro rígido frente à prática shanzhai, a mesma liberdade autoral opera nessa mesma dinâmica. Grosso modo, o objetivo parece exaltar a criação coletiva. Tal prática não é influenciada pela ideia de gênio. Não se pode atribuir o shanzhai, objetivamente, a um único autor que se declare proprietário da obra, pois a obra reivindica a diferença frente à identidade.  Não é produzida por um gênio criador, mas por pessoas geniais, resultado de um processo contínuo de variações, combinações e mutações. Poderíamos afirmar que se trata de uma forma híbrida intensa; o antiessencialismo chinês não cede espaço a nenhuma fixação ideológica, pois cada produção apresenta uma forma de minimizar a subjetividade em prol de um coletivo, ou seja, se há alguma ideologia ou dissabor é sempre a do outro, possivelmente vista nos vestígios do “original” na obra.

Parece que na China, muitas vezes, os produtos culturais não estão ligados apenas a um autor, ou mesmo, de maneira mais provocativa, o produto cultural não precisa estar ligado ao seu produtor, muito menos evidenciado. Acredito que precisamos refletir se esse não foi o “sonho” de muitos teóricos e artistas no ocidente: desconectar o autor da obra e permitir que a obra “possua vida própria”. Ora, se assim fosse, desprestigiar e estigmatizar o shanzhai como uma prática desprovida de criatividade e qualidade, ou mesmo, obra não artística, não estaria apenas revelando nossa inveja frente ao sonho ocidental conquistado pelos orientais?

Ainda mais, não podemos simplesmente nos satisfazermos com a simplista afirmação de que esse seja apenas mais um problema do mercado? Pois essa prática nos proporciona um mundo novo, um universo repleto de novidades antigas, o seu valor conceitual é muito maior do que o peso da moeda. Penso que devemos observar os valores próprios desse sistema, que parecem não estar em voga pelo mundo afora. Infelizmente não estou exagerando, o ocidente parece compreender o shanzhai e as cópias chinesas apenas como uma questão legal, o que demonstra não estar atento às qualidades artísticas e às questões filosóficas em tais atos.  Por fim, shanzhai tem mais a dizer à arte e ao ocidente do que poderia um tribunal.

 

Em 2007 teria ocorrido uma exposição chamada O Poder da Morte, em que foram apresentados os guerreiros de terracota, que representam os guerreiros do imperador Qin Shin Huang, o primeiro imperador da China, no Museu Etnográfico de Hamburgo, na Alemanha. Quando se supôs que os guerreiros poderiam ser copias, o diretor, que se definia como um defensor da verdade, declarou que teriam que cancelar a exposição para manter a reputação do museu. Inclusive, ofereceu devolver o dinheiro pago pelos mais de dez mil visitantes que já haviam apreciado a exposição. Ainda mais, informou que tinha sido vítima de um engano, mas que estudava ações legais. Demonstrou sua revolta ao colar um cartaz na porta do museu expondo a sua indignação junto a um pedido de desculpas ao público. A exposição foi cancelada, os guerreiros voltaram para a China, mas quem perdeu essa batalha foi o público.

Cumpre informar que desde o início das escavações arqueológicas em 1974, foram produzidas, de maneira paralela, mais réplicas de guerreiros de terracota. Junto às escavações é possível visualizar, em fotos desse evento, oficinas para a produção dessas cópias. Os chineses não tinham a intenção de enganar ninguém, mas apenas estavam retomando a fabricação dos guerreiros, e não produzindo criações ou falsificações. Devemos lembrar que os chineses com frequência produzem cópias dos originais, pois estão convencidos que a essência daquele material também habita as reproduções. O conceito de novo, original e cópia que opera na China é bastante diferente do conceito ocidental.

As controvérsias entre museus ocidentais e orientais são várias. O que fica evidente nessas relações é a falta de compreensão do outro. Acredito que não seja viável observar diferentes culturas depositando o peso dos nossos valores culturais nos pontos de interseção, pois compreender o outro exige deixar a alteridade vir à tona por si só, e talvez isso seja um árduo exercício, pois não possui regras ou receitas. Porém, deve ser estimulado e praticado.

 

marlonjaanjos@gmail.com

Mestre em artes visuais. Neoísta.

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