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Roteiro para a ilusão: Espaços memoráveis e a experiência autêntica.

Normann Szkop – campo de tulipas na Holanda


Marlon Anjos, nosso anjo das pernas tortas, comenta a nossa obsessão pela sensação de autenticidade. Por que desprezamos o falso e o não-autêntico? O que são, afinal, essas distinções?

“Comparar a Holanda à Disneylândia pode causar certo dissabor ao leitor, mas devemos levar em conta que ambos os locais foram feitos pelos homens, e que nenhum desses espaços é completamente natural.”

“Mesmo nas ilustrações científicas, é a legenda que determina a verdade da pintura. […]”

Ernst Hans Josef Gombrich, Arte e ilusão, p. 59

 

            Falso, fraude, falsificação, pirata ou plágio. São muitas as palavras que as pessoas utilizam para se referir a um objeto inautêntico. Essas expressões não recaem apenas ao objeto, mas ao seu fornecedor ou criador. Cada vez mais os consumidores pensam naquilo que lhe é oferecido pelas empresas e instituições relacionando-as a conceitos subjetivos. Os consumidores desejam consumir mais do que um objeto autêntico, eles desejam uma experiência memorável, uma experiência única, que o envolva de forma completamente pessoal. Desta forma, escolhem comprar ou não com base nas ofertas em termos de real e falso. Tal que, aparentemente, as pessoas estão passando a ver o mundo e o que consomem de forma polarizada entre real e falso. Assim sendo, desejam consumir algo que seja autêntico de alguém real, não algo falso provindo de uma fraude.

 

A Starbucks, por exemplo, também chamada por ‘autoajuda dos negócios’, apresenta entre os cinco princípios da empresa a autenticidade como um valor singular do grupo. A autenticidade está em segundo lugar dentre os princípios da empresa, antes de “atencioso” ou “bem informado”. Daí que podemos pensar que neste grupo a autenticidade é mais valorizada do que um funcionário bem informado.

 

As doses diárias consumidas pelas pessoas nestes ambientes custam mais dinheiro do que os poucos centavos gastos para comprar os grãos do café, isso pode apontar uma tentativa em consumir o que a empresa oferta num todo, o que demonstra a busca de uma experiência que vá além do sabor e dos aromas da cafeína. Esse encantamento ocorre porque o grupo aprendeu a encenar uma experiência diferenciada de consumo, centrada na atmosfera de cada estabelecimento e no teatro de preparar cada xícara de café.

 

O sucesso do Starbucks não depende mais de seu talento operacional ou da superioridade do sabor, ele reside unicamente em manter a autenticidade na percepção dos consumidores de café em relação à experiência Starbucks. A Starbucks descreve, poeticamente, seu exclusivo café Estate Pacamarca de El Salvador como:

 

 

O sol equatorial/ e a floresta tropical/ e a água mineral/ e a umidade/ e o solo vulcânico/ fizeram para você este exótico café.

 

 

Agora pense em qualquer estabelecimento Starbucks – pode ser qualquer uma das 13 mil lojas espalhadas pelo globo, o que é irônico, já que a onipresença é uma grade inimiga da autenticidade – a composição das cores do ambiente em tons castanhos, a música, a geometria dos móveis funcionais, os aromas e os sabores. Isso tudo representa um apelo na tentativa de causar a sensação de que a autenticidade constitui um elemento natural do ambiente e que é apreciada e consumida junto a cada gole do líquido escuro. Tudo está submetido a uma arquitetura planejada, na qual a autenticidade do produto e do local ocupa a prateleira dos produtos mais vendidos. Isso tudo não parece natural?

 

Ouso afirmar que muito mais do que a produção de um produto diferenciado, as empresas da atualidade caracterizam-se pela obsessão cultural em criar/produzir modos de autenticidade, e esses modos devem ser absorvidos como um valor intrínseco do produto e do ambiente. A chave é transformar essa experiência memorável e autêntica.

 

Então, é só transportar esse sistema e perceber quais as empresas estão investindo em valores e sensações semelhantes. Quantas empresas já testemunhamos que obedecem a essa obsessão: não seria a maioria delas?

 

Cumpre informar que experiências inautênticas não existem, mas sim, diversas formas de acessar e reagir a um evento. A forma como reagimos à experiência depende do que já vivenciamos e como compreendemos a dinâmica do todo.

 

Muitas pessoas podem julgar a Disneylândia, a que se encontra em Orlando ou em Marne-La-Vallée, uma cidade planejada em Paris, como espaços completamente artificiais. No entanto, os parques da Holanda são tão manufaturados quanto a Disneylândia. De tal modo que a paisagista Jannemarie de Jonge refere-se ao interior da Holanda por Ecodisney. Talvez não exista mais um único metro quadrado no país que não tenha sido aterrado, ou, de certa forma, transportado, modificado e tratado de modo a parecer que sempre estivesse lá. Como diz o ditado: “Deus criou o mundo, mas os holandeses criaram a Holanda”. Ambos os lugares foram projetados para satisfazer as fantasias das pessoas, uma embasada nas vacas e a outra nos ratos.

 

Contudo, comparar a Holanda à Disneylândia pode causar certo dissabor ao leitor, mas devemos levar em conta que ambos os locais foram feitos pelos homens, e que nenhum desses espaços é completamente natural. E aproveitar a singularidade do local é o que o guia de turismo recomenda.

 

Veneza, mencionada no New York Times como a Disneylândia artística, possui a sua equivalente, o Hotel Cassino construído em Las Vegas. Diferente de Veneza, que é mantida artificialmente acima do mar Adriático, The Venetian procura oferecer apenas “o que é essencialmente Veneza, não uma construção falsa”, como afirmou Sheldon Adelson, proprietário do Hotel Cassino, ao Jornal Casino.

 

Os venezianos começaram a administrar os níveis de água no século XIV. Alberto Scotti, principal engenheiro do projeto MOSE, última tentativa de manter Veneza acima d’água, reconhece: “Não existe mais um ambiente natural para recuperar em Veneza, a cidade tem sido alterada pelo homem a centenas de anos”. Há um grande êxodo em Veneza, grandes números de pessoas deixam de morar na cidade, o que dá brecha para o aumento do número de turistas no local, afirmando assim ainda mais a sua condição da cidade como parque temático.

Da mesma forma como na Disneylândia e na Holanda, Veneza é completamente restrita. Enquanto isso, em Las Vegas, o proprietário do The Venetian, Sheldon Adelson, afirmou que as pessoas gostam do local por sua reprodução autêntica de Veneza.

 

Diferente da especulação mercadológica, talvez não tão distante das regras que regem o mercado. A prática de salvaguardar obras também produz suas parábolas no que diz respeito à autenticidade.

 

O século passado assistiu o perigo do desaparecimento de obras pré-histórias ao serem expostas à visitação pública. Parte das pinturas encontradas na caverna de Lascaux, no sul da França, sofreram deteriorações com a enorme influência do público que visitava a caverna, e com a ameaça de uma invasão de fungos. A caverna foi fechada ao público em 1963, e foi realizada a cópia para a visitação, com modelos e escala equivalentes à original. Em 1982 foi produzida a Lascaux II, que permitia o contato dos visitantes com a arte ancestral. Em 2003 foi lançado outro projeto, Lascaux III, uma réplica de alta-fidelidade que percorre alguns museus pelo mundo em exposição itinerante.

 

Podemos perceber que cópias, reproduções e outras nomenclaturas para atividades semelhantes vêm ganhando espaço no mercado onde a autenticidade constitui-se como um valor que pode ser partilhado entre diferentes coisas ou locais. Essa compreensão parte da ideia de que a autenticidade seja pluri unívoca e dialógica, dependendo do interlocutor para ganhar forma.

 

As pessoas desprezam o artificial, o falso, o pirata e a cópia. Mas quando perguntamos o porquê, destacam apenas as diferenças que distinguem o artigo autêntico, apontando as qualidades desejáveis no artefato, como se a única coisa errada com a decepção é que não foi enganosa o suficiente.

 

Com a ascensão da autenticidade como um valor de mercado, a sensação da autenticidade torna-se a nova sensibilidade do consumidor. De modo que houve uma transição da maneira como estava na experiência. De tal forma que as empresas esforçaram-se para amarrar o conceito e a ideia de autenticidade a sua marca. Isso engloba tudo. O visitante cool de ambientes suntuosos deve ter em mente que é produto consumidor de autenticidade semelhante ao jovem com o Adidas falso nos pés. Devemos lembrar que a perspectiva muda na medida em que a distância cresce, pois opera pela ordem geométrica.

 

Neste sentido, podemos nos questionar o que significa viver e experienciar num mundo no qual a autenticidade passou a valor de primeiro plano, pois esse valor molda a percepção da realidade e a maneira como nos relacionamos e nos compreendemos no mundo. Hoje em dia, tantas pessoas passaram a questionar a veracidade da internet e todas as outras fontes de informação que até as notícias falsas encontraram um público, de modo que nos tornamos seres ilusórios e o falso se   tornou autêntico.

 

O exposto até aqui serve ao propósito de suplantar o maniqueísmo entre verdadeiro ou falso ao descortinar uma miríade de possibilidades de autenticidade de uma obra ou de um local. Os exemplos expostos problematizam as questões no que diz respeito a autenticidade. Podendo ser projetados em outros exemplos que foram citadas neste texto.

 

Contudo, não se trata em saber distinguir o verdadeiro do falso, mas também em determinar as numerosas formas mistas de ser e parecer. A complexidade dessa tarefa é tamanha que, ainda que se aceite as diversas possibilidades de autenticidades ou falseamento, não há segurança em apregoar que as discussões sobre tal problemática trarão alguma certeza que possa ser vislumbrada por meio da prerrogativa verdadeiro ou falso. Devemos analisar o falso como parte integrante do sistema, não como elemento à parte da dinâmica. A história não se divide entre verdadeiro e falso. Há muitas formas mistas em ser e parecer nas entrelinhas. Tal que, o falso, o plágio e o pirata são partes indexáveis da própria história das coisas.

 

As questões, no que diz respeito a autenticidade no campo das artes, deixaram resíduos desde a antiguidade que poderiam formular interessantíssimas questões. Não pelo simples fato que podemos estar diante de obras falsificadas ainda não reveladas. Mas porque a busca de linguagens artísticas em Roma, Renascimento e o Neoclassicismo, para citar alguns exemplos, partiam da adoção da plasticidade visual grega. Esse empréstimo não fortuito e nem singelo, ocorreu sempre que um artista necessitou de uma particularidade expressiva, ocasionando uma certa mímica, aquilo que o historiador alemão Aby Warburg (1866-1929) chamou de Pathosformal. Assim, as formas e modelos emprestados causaram grande impressão e foram aceitas como sendo singulares, da mesma forma que é aceita a singularidade/autenticidade dos exemplos supracitados. Por tanto podemos afirmar que a dependência da tradição tornou-se regra.

 

No papel dos tipos e estereótipos da arte, alguns pesquisadores professam e acusam a história da arte de concentrar-se na busca de influências. Quando mais nos conscientizamos da enorme pulsão que impulsionou o homem no sentido de repetir o que aprendeu, mais admiramos os avanços e percebemos as suas raízes. Talvez um dia, quando Veneza se tornar Atlântida, seremos saudosistas em The Venetian.

 

Por fim, deixo o leitor com um dos meus artistas favoritos. O norte-americano Mike Bidlo, que ganhou notoriedade por sua notável falta de alteração do material original, copiando vários artistas consagrados, como quando recria versões de pinturas de outros artistas. Em referência à natureza cíclica do seu trabalho, Bidlo afirma: “history is about loops and continuums”. Daí que podemos perceber que certos problemas permanecem no ar.

 

marlonjaanjos@gmail.com

Mestre em artes visuais. Neoísta.

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