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Pop Cristo

capa: Andres Serrano – Immersion (Piss Christ) (1987)

O problema da iconografia tratado de diferentes pontos de vista: idolatria, marketing, e a transformação de Jesus Cristo num carismático popstar. E isso, é claro, tem grande importância na caminhada da arte através dos séculos. Por Marlon Anjos.


“John Lennon causou polêmica ao afirmar que os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo. Os Beatles não foram, nem de longe, mais famosos que Jesus, sem dúvida.”

“Nós proclamamos um Cristo crucificado, escândalo para os Judeus e loucura para os pagãos”

I Coríntios, 1:23

O Cristianismo, instituição romana mais antiga em funcionamento, é uma das religiões mais baseadas em imagens no mundo. Como os Antigos Romanos, muitos cristãos decoram suas casas com imagens de poder que comunicavam a história de suas crenças religiosas.

 

 

O processo que levou à formação dos ícones, entre os séculos V e VIII d.C., corresponde ao desenvolvimento de um culto cristão da imagem que retoma práticas da Antiguidade e da teologia de doutrinas neoplatônicas, aristotélicas e também de teologias árabes, nítida influência conjugada.

Sabe-se que o pensamento mítico considerava a imagem de Deus como a manifestação de uma presença da divindade, isto é, de uma teofania. A relação entre a teofania e a pintura não foi produzida pela imaginação erudita – pelo contrário – e foi durante milhares de anos um meio de acesso às divindades. As práticas devocionais e novos modos de contemplação das imagens apresentam uma realidade inédita. A espiritualidade que anima as representações e o idealismo que emana das figuras não basta para explicá-las, pois apenas elas podem ser subentendia no uso e nas práticas, e assim intuídas.

Daí que podemos pensar que durante a Idade Média as especulações, no que diz respeito ao uso de imagens na doutrina cristã, não abordam propriamente as obras ou a experiência estética, mas as categorias metafísicas e a teologia que possibilitam a percepção da visualização de um mundo invisível.

 

 

Segundo a lenda, o Evangelista São Lucas (data de falecimento 84 d.C.) pintou o primeiro retrato de Maria segurando o menino Jesus. Nele, Maria estava tão contente que ele a enfeitou ao seu modo. A enorme pintura – que mal podia ser suportada por vários homens durante a procissão – foi transportada da Terra Santa para Constantinopla. No século V d.C. até o próximo milênio o ícone foi venerado como o Hodeghetria (Ela que mostra o Caminho [Jesus]), e por sua vez, ela fez milagres além de apenas de indicar a direção: curando os enfermos e protegendo a cidade de invasores. Clérigos acreditavam que a imagem afastou os sarracenos em 718 d.C. Quando os turcos invadiram em 1453, o milagre de Maria revelou-se menos eficaz. A Hodeghetria foi destruída na sequência.

 

 

Mas isso não importa, porque no século XV houve numerosas cópias da propagação da Hodeghetria em todo o território Bizantino, e todas eram veneradas como o retrato original produzido por São Lucas – e algumas ainda podem ser apreciadas em Museus ao redor do mundo –, cada um operando milagres para o seu círculo eleitoral.

 

 

 

É importante frisar que a arte medieval deu fôlego a inúmeros modos de representação, sobretudo simbólicos, cuja herança só seria parcialmente negada no século XVIII. Em face deste ínterim, o renascimento do século XII até o século XV não parou de inovar, pois, ao que parece, embora as igrejas exercessem domínio sobre os programas iconográficos, não foi imposto nenhum, ou quase nenhum, sistema de regra para a execução das obras. A maioria dos homens das igrejas deixava os artistas criarem formas de expressões por vezes revolucionárias ou mesmo inéditas. Talvez a máxima fosse: compreender a natureza da imagem, que nos separa de Deus e que dele nos aproxima na qualidade de vestígio ou signo, símbolo equivalente também a determinar o sentido do mundo visível e da visão de homem. Numa espécie de demiurgo, o artista se tornava criador dando voz e vida à obra.

 

 

 

Vale lembrar que a contemplação das imagens certamente justifica conteúdo de amor e ódio, a favor e contra a representação de ícones, como atestam os textos dos teóricos iconoclastas e dos iconódulos. Desde o concílio de Niceia (787) até o concílio de Trento (1545-63), essa preocupação é constante e reatualizada com frequência por seus autores ao decorrer dos séculos. Muitas foram as vezes em que foi retomada a tese da imagem pintada na bíblia como a “bíblia dos iletrados” ou “bíblia dos pobres”. Justificando, assim, não apenas a reprodução de ícones como também de ilustrações em volumes suntuosos.

 

 

Cumpre informar que a questão de saber se a imagem de Deus ou de Cristo pode incitar a idolatria descarateriza a fé por detrás de realidades sensíveis, sendo castração seguramente de ordem teológica, ou iconoclasta. Pois não pertence ao domínio da arte. Numa perspectiva estrita da visão teológica, o pensamento especulativo buscou, prioritariamente, definir o estatuto, o significado e as funções das imagens.

 

 

A fato de ter ocorrido guerras e conflitos por causa do uso das imagens corrobora a reação que circunscreve a história da arte face à face da expansão da religião cristã no mundo, uma religião baseada na imagem, que em grande parte não teve pudor em utilizá-las para promover a religião e a fé na doutrina.

 

 

No entanto, até o terceiro concílio de Trento (1545-63), a igreja fez vista grossa para temas pictóricos pouco compatíveis com o conteúdo doutrinal do catolicismo. Basta lembrar das imagens de deuses pagãos convivendo com personagens do evangelho, ou mesmo as personas conhecidas que eram representadas como santos ou personagens bíblicos. Se os decretos do concílio se mostraram rigorosos em relação a certos hábitos dos pintores (representação da nudez nas igrejas, por exemplo), a contrarreforma soube criar novo furor, não só renovando a imaginação dos pintores, escultores e arquitetos, mas também investigando novas formas de sensibilidade e de emoção estética.

Lê-se nas Atas do Concílio de Trento: “Nenhuma imagem será construída que seja capaz de sugerir falsa doutrina ou que possa fornecer ocasião de erro perigoso para o homem não instruído”. Ou seja, os contrarreformistas almejavam o máximo de clareza quanto à produção de obras de arte, evitando ambiguidades. De outro modo, os reformistas estavam mais preocupados com conflitos políticos, econômicos e de autoridades da igreja, ou mesmo em reafirmar a transubstanciação do pão e do vinho no momento da Eucaristia, em corpo e sangue de Cristo, do que em criar um estatuto rígido para as artes.

 

 

De qualquer modo, poderíamos dizer que o cristianismo fantasiou-se de seu anfitrião [Roma], e a doutrina e o imaginário cristãos fundiram-se com alguns antigos valores romanos, o que demonstra que a religião é polissêmica e pode se re-ligar a quase tudo, mesmo à ambiguidade e ao cruzamento de questões duvidosas.

 

 

As constantes reformas da igreja cristã criaram a necessidade de inserir sua visão de mundo na cultura em que ela se estabelece. As reformas parecem ser uma forma e um desejo de integrar e transformar a cultura em que participam, numa nítida tentativa de alcançar e conquistar o público almejado. Porém, não subscreve uma postura submetida ao gosto do público, mas a imergência do atual que opera transformações, inclusive, em uma instituição milenar.

 

 

A revolução das comunicações visuais não cessa: produzindo uma sensação de onipresença das imagens, multiplicam-se indefinidamente. O cinema, por exemplo, foi mais uma das mídias utilizadas pelos cristãos, que desde o aparecimento dos polêmicos nickelodeon até as salas de exibições da atualidade, servem como meio que ultrapassa o suporte. A crença na imagem cinematográfica descreve realidade e ficção e apresenta-se como elo consumando o firmamento. Difundindo a crença na imagem como prova da existência.

 

 

Quanto à crítica protestante aos católicos, no que diz respeito ao uso de imagem, poderíamos dizer que é no mínimo curiosa. Na atualidade, mesmo alguns iconoclastas fazem uso das imagens. Isso pode parecer contraditório, mas basta observarmos o legado de alguns segmentos do evangelicalismo, ou cristianismo evangélico, como preferirem, no que diz respeito à intensa produção cinematográfica e de mídias derivadas, utilizadas na representação das histórias bíblicas.

Mas vale observar também, para termos de comparação quando falamos de cinema, que representações do profeta Maomé dentro – e fora – da cultura islâmica ainda são seriamente combatidas. Um dos exemplos mais originais do uso desse personagem sem que se fizesse uso de qualquer tipo de representação visual se deu no grande filme A Mensagem, de 1976, com Anthony Quinn – havendo também uma versão quase idêntica de produção árabe. O filme, que pretende contar a história do Islã juntamente com a do próprio profeta, representa esta figura através de uma primeira pessoa: Anthony Quinn dirige os seus olhos à câmera, fala conosco, e fala com Maomé, esse que não está figurado na cena, e que no entanto está ali, presente na narrativa. Essa estratégia acaba por adquirir um significado simbólico ainda maior no momento em que nos tornamos também Maomé. O Islã está representado em seus espectadores, chamados à ação. Maomé está e não está representado, de maneira ainda fiel às regras da religião e sem incorrer numa hipocrisia como a que citamos no parágrafo acima.

 

 

A criatividade parece nascer em momentos que nos obrigam a burlar certas regras. Esse é um dos grandes momentos do cinema árabe.

 

 

 

Cumpre informar que alguns segmentos desses movimentos negam-se a utilizar imagens, afirmando que seria idolatria, mas parecem não se incomodar com a representação nas telinhas ou nas telonas de suas passagens sagradas. O teor iconoclástico parece ser bem seletivo, ou mesmo confuso. Além de que, quando alguém alcança visibilidade no meio evangélico, adquire o estado de ícone. O que nos possibilita dizer que a contemplação e a idolatria não se resume apenas a objetos. O que mais uma vez atesta a religião como um elemento polissêmico.

 

 

Contudo, seja atualmente ou no passado, ao que parece, a reprodução das personagens bíblicas é permitida desde que o fenótipo seja ocidentalizado. Um estereótipo que foi construído ao longo dos séculos, que habita o imaginário e consagra-se como estatuto e regra. Assim sendo, o único sentido que censura as representações em verdade equivalente a crer nas convenções. Daí que me vem à mente uma citação de Nietzsche (1844-1900): “O Homem, em seu orgulho, criou Deus à sua imagem e semelhança.”

 

 

 

Por fim, a massiva quantidade de reproduções de Cristo, seja em pinturas, esculturas, teatro ou cinema, dentre outras, lhe renderiam o pódio de “a primeira pessoa famosa em todo o mundo”. John Lennon causou polêmica ao afirmar que os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo. Os Beatles não foram, nem de longe, mais famosos que Jesus, sem dúvida. Mas outras personagens históricas conseguiram coroar-se desses louros. Recentemente foi publicada uma lista de pessoas mais famosas que Jesus pelo projeto intitulado Pantheon. A lista conta com nomes das pessoas mais famosas nos últimos 6.000 anos. O nazareno ocupa o terceiro lugar na lista, ficando atrás dos gregos Aristóteles e Platão. Possivelmente, Cristo teve mais biógrafos que os dois filósofos juntos (isso não é um tratado existencial), e muito mais artistas que reproduziram ideias de sua imagem do que a de qualquer outra celebridade na história. Assim, a personagem mais representada na história é certamente Cristo, o queridinho dos “paparazzi” na Idade Média, Moderna e na Contemporânea. E por esse motivo ele ocupa um lugar especial nesta coluna.

marlonjaanjos@gmail.com

<p>Mestre em artes visuais. Neoísta.</p>

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