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Paisagens deslocadas: ver e ouvir a cidade

Imagem: Wim Wenders – imagem do filme O Céu de Lisboa (1994)

Diego Dias retorna à coluna Ruído para entortar o nosso cotidiano sonoro-musical com a sobreposição experimental de sons ambientes ligados a seus lugares de origem. Quase um tipo de fotografia sonora de lugares. Quer saber mais? Entra aí.


“Gravemos uma avenida, com suas máquinas, carros, caminhões, ônibus, britadeiras e usemos como sonoridades para um passeio pelo ermo ou um parque arborizado.”

O que temo é a erosão de todos os refinamentos acústicos por uma espécie de som ambiental, caracterizado apenas por sua amplitude e brutalidade.

(SCHAFER, Murray. O Ouvido Pensante. São Paulo: UNESP, 2011, p.191)

 

Gravar as sonoridades existentes durante um percurso a pé é uma história em muitos tempos. Numa paisagem urbana, movimentada, caminhar registrando as atividades sônicas do mundo circundante dá-nos a alegria primal do achado. É também como se o passeio fosse feito pelo olho da câmera, mas que guarda para com ele duas importantes deficiências proveitosas: o anonimato dos participantes está mais garantido, pois estes emitentes não são vistos (e colhem-se trechos de diálogos sumamente íntimos, de forma que é impressionante o que se fala de personalíssimo pelas ruas, em bom som) e é possível, mais tarde, ouvirmos a gravação destes sons enquanto temos outros afazeres, concomitância esta prejudicada quando assistimos algo. “Ver” exige sacrifício.

Esse segundo momento, que pode parecer um certo desleixo para com o áudio, coloca-nos em situações interessantes quando reproduzimos tais arquivos sob algumas condições específicas, porém bem diversas.

 

A primeira atitude é dar-se conta das sonoridades em que estamos imersos. Ouve-se o tempo todo. Tomemos uma caminhada cotidiana e repetitiva – como a de ir ao trabalho – e vamos perceber aquilo que se mantém e aquilo que muda ao esquadrinharmos seu áudio registrado. Locutores, artistas de rua, anúncios sonoros. Algum destes fatos sônicos hão de fornecer-nos a precisão geográfica na escuta que se desenrola posteriormente. Pensemos naquele ambulante e sua cantilena de rua: percebamos como há um fade in natural ao nos aproximarmos dele e, no momento de pico do som, saberemos exatamente em que esquina estávamos, meses atrás. E o fade out nos diz que seguimos. A oferta repetida como refrão, leitmotiv desses passos.

 

Mas a fruição da peça pode ser ainda mais instigante. O que dizer da execução da gravação de um dia anterior desenvolvendo-se plena nos fones de ouvido enquanto se passa pelo mesmo local, no mesmo horário, mas não se ouve o som externo – exceto por vazamento, que é riquíssimo! -, e sim esses sons tais como ocorreram anteriormente? Existem vozes, mas nenhum dos transeuntes que por ali passa fala; ou estes falam mas o que se ouve é o ronco de um motor que não está por perto. Rumemos em direção ao ambulante, deixemos o som externo adentrar e contemplemos um dueto.

 

Experimentemos também reviver esta rua pujante, sinfônica (como na frase tantas vezes atribuída a Mahler de que a sinfonia é o mundo, e que deve conter tudo), num domingo vazio. Podemos ver o que não está lá. Memória e evocação: o tímpano como operador da lembrança, que o olho projeta pelas paredes descascadas de cartazes e tinta corroída.

 

Levemos a experiência a um outro nível. Gravemos uma avenida, com suas máquinas, carros, caminhões, ônibus, britadeiras e usemos como sonoridades para um passeio pelo ermo ou um parque arborizado. Num mundo onde se vendem discos com sons de corredeiras, pássaros – Messiaen derrama aqui uma ortodoxa lágrima por estes frutos pastorais – e suaves brisas (eventualmente acompanhados de proverbiais flautas de Pan ou harpas em explorações paupérrimas das possibilidades do instrumento), por que alguém levaria consigo o burburinho do cimento, diesel e aço? Compra-se uma pretensa paz auditiva nestes álbuns, mas quem faz este jogo ao contrário?

 

A contundência e o aparente absurdo da proposição falam também da importância e da necessidade dos espaços silenciosos na cidade e de sua necessidade, mas este exagero de antagonismo entre paisagem visual e sonora leva também a outras ideias, como a de ouvir a chuva durante um passeio ensolarado, ou o frenesi dos restaurantes ao meio-dia num elevador solitário. Estranhar é começar a conhecer.

Para tais experimentos não são necessários grandes gastos. Os gravadores de voz de celular são bastante eficientes para primeiras tentativas, e o áudio pode ser amplificado e passar por compressão através de programas de computador simples e gratuitos de computador. Um bom par de fones também não soma nenhuma exorbitância, ainda mais quando se pensa em todos os transportes e transmutações que estas trocas propiciam, e que estamos efetivamente compondo. Que mundos, claridades e penumbras nascem destas disparidades!

 

Caso não se deseje este trabalho, peças de música concreta ou de música eletrônica experimental farão milagres e miragens em situações prosaicas, como a de aguardar na fila de pesagem das laranjas de um supermercado. Não cito exemplos de álbuns ou artistas, no desejo de deixar a experiência mais aberta a quem se propuser a ela, porém parece-me evidente que obras “pouco usuais” — o termo é doloroso, mas encampa nomenclaturas mais específicas que aqui não cabem — e desconhecidas terão melhor efeito.

 

Não proponho nada novo por aqui: a mágica da “trilha sonora” enriquece as cenas, e já induzia ao transe muito antes de o cinema existir. Entretanto, as dissonâncias entre por onde se anda, o que se vê e o que se ouve permitem uma viagem tríplice pelos acontecimentos que se desenrolam por nossa percepção. Que formidável empreendimento deslocar os sons para alterar o que é visto e vivido! Mas não somente. Gravar como registro, grafia. Ouvir os sons como quem rememora ao ver uma foto, ou como quem examina um documento; gravar o som de uma rua antes da instalação de uma fábrica ou ar-condicionado gigantesco e seus perpétuos murmúrios. Gravar como resistência e preservação do detalhe, da minúcia, da vida.

mansardarecords@gmail.com

<p>Diego Dias é um dos curadores e artistas do netlabel de música livre Mansarda Records (https://mansardarecords.wordpress.com/), que conta hoje com mais de 80 álbuns lançados.</p>

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