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olhemos o peixe-lua

Mount Sainte-Victoire, 1904. Por Paul Cézanne

Leandro Cardoso nos apresenta o problema do peixe-lua. Até que ponto você sabe, realmente, compreender o mundo que percorre? Decomponha o seu cotidiano, pense nesse problema (e leia esta coluna!).


“O saber a literatura é, principalmente, prová-la e descrevê-la por nós mesmos, antes de qualquer coisa: se doce ou amarga, se bela ou feia, triste ou alegre, excitante ou maçante, só nós podemos dizê-la – e então a sentimos.”

                 Conta Ezra Pound, em seu ABC da Literatura, sobre Louis Agassiz, um famoso ictiólogo, mas não somente, que fora procurado por um estudante de pós-graduação para receber os últimos retoques de sua já brilhante carreira acadêmica. Acompanhemos:

 

Um estudante de curso de pós-graduação, coberto de honrarias e diplomas, dirigiu-se a Agassiz para receber os ótimos e últimos retoques. O grande naturalista tomou um peixinho e pediu-lhe que o descrevesse.

Estudante: – Mas este é apenas um peixe-lua.

Agassiz: – Eu sei disso. Faça uma descrição dele por escrito.

Depois de alguns minutos o estudante voltou com a descrição do Ichtus Heliodiplodokus ou outro termo qualquer, desses usados para sonegar do conhecimento geral o vulgar peixe-lua: da família dos Hellichtherinkus, etc., como se encontra nos manuais sobre o assunto.

Agassiz pediu ao estudante que descrevesse de novo o peixe.

O estudante perpetrou um ensaio de quatro páginas. Agassiz então lhe disse que olhasse para o peixe. No fim de três semanas o peixe se encontrava em adiantado estado de decomposição, mas o estudante sabia alguma coisa a seu respeito.

[a tradução é de Augusto de Campos e de José Paulo Paes]

♦♦♦

          Consideremos o peixe de Agassiz: tomá-lo pelos manuais é tomá-lo por sua abstração, por aquilo que se diz sobre ele, mas não por aquilo que nós somos capazes de dizer sobre ele. É bastante óbvio que ninguém vai deixar de lado o que já se disse sobre o peixe – e certamente não foi esse o ensinamento de Agassiz; mas é necessário considerá-lo pessoalmente, num particular, você e ele, cara a cara, sem armas nem armaduras.

          Por favor, consideremos o peixe!

          Tomemo-lo em nossas mãos e olhemos em seus olhos, ainda que imóveis e já baços; tamanho, peso, forma, cores, curvas, defeitos, belezas, esquisitices… se necessário, cortemos sua barriga, olhando atentamente cada fibra da carne, cada órgão, cada recôndito do profundo ventre. Certamente os manuais nos apresentam todas essas características, mas que vivência teríamos 

dele se não nos afligíssemos buscando, observando, capturando e apalpando o bichinho? Saber algo não é só um insosso conhecê-lo, seja por seu nome científico, seja pelo nome popular; não é só ter à ponta da língua suas principais características e quais delas foram descritas por quem e quando; o saber é, principalmente, ter um sabor – como bem o conhecia Vinícius de Moraes (O amor dos homens, trecho):

Mas eis comes um pêssego. Teu lábio

inferior dobra-se sob a polpa, o suco

escorre pelo teu queixo, cai uma gota no teu seio

e tu te ris. Teu riso

desagrega os átomos. O espelho pulveriza-se, funde-se o cano de descarga

quantidades insuspeitadas de estrôncio-90

acumulam-se nas camadas superiores do banheiro

só os genes de meus tataranetos poderão dar prova cabal de tua imensa

radioatividade. Tu te ris, amiga

e me beijas sabendo a pêssego. E eu te amo

de morrer.

 

 

♦♦♦

 

 

O saber a literatura é, principalmente, prová-la e descrevê-la por nós mesmos, antes de qualquer coisa: se doce ou amarga, se bela ou feia, triste ou alegre, excitante ou maçante, só nós podemos dizê-la – e então a sentimos. Se amarga porque conhecemos Luís da Silva, o funcionário público de Angústia (Graciliano Ramos), em suas atitudes e em seu cotidiano, se doce porque o Nakata de Haruki Murakami se nos mostra em toda a sua ingenuidade e delicadeza, se excitante porque acompanhamos a carruagem da Madame Bovary de Flaubert, ou maçante porque, antes da batalha entre Aquiles e Heitor, passamos pelo catálogo das naus em Homero, então a descrevemos. O além disso – o nome certo, a expressão adequada, a oftalmia adquirida e o grau dos óculos – já é da ordem da retórica e da teoria: nem mais e nem menos importante, é forçoso que se diga, embora mais frio. E o problema não é a teoria, mas o abandono do saber o peixe-lua:

 

 

 

Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.

Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).

[Manoel de Barros, Tratado geral das grandezas do ínfimo (trecho)]

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leandrodorvalc@gmail.com

<p>Doutorando em Literatura pela UNESP/Araraquara. Tradutor e leitor.</p>

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