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O rock morreu (mas passa bem)

“Procurar subverter fórmulas e tentar redefinir gêneros podem ser um gatilho para a repulsa dos reacionários musicais, mas tende a recompensar em longo prazo.”

“Não se faz mais música como antigamente”.

“No meu tempo, as letras tinham conteúdo”.

“O rock’n’roll está morto”.

Se você gosta de música e discute o tema, com certeza já ouviu uma dessas frases por aí. Ou duas. Ou todas elas. O saudosismo é uma constante em toda e qualquer forma de manifestação artística, e com certeza não seria diferente na música, uma das mais populares delas. Mas acontece que muitas dessas questões têm a ver com algo que pode ser resumido em uma só palavra: apego.

 

O apego por uma forma. O apego por uma época. O apego por uma estética específica.

 

E quando passamos a fazer a análise da música através do filtro do apego, as coisas ficam bem complicadas. Tudo bem gostar da forma riff-verso-refrão-verso-refrão-solo-refrão, tudo bem achar que os anos 80 revelaram os melhores letristas da história e tudo bem também considerar a sujeira do grunge o ápice da criatividade no rock’n’roll. Mas nunca é demais lembrar que cada geração dessas, antes de entrar para o panteão, foi dura e (muitas vezes) injustamente criticada pelas gerações anteriores, justamente por se não se preocuparem com as tradições. Procurar subverter fórmulas e tentar redefinir gêneros podem ser um gatilho para a repulsa dos reacionários musicais, mas tende a recompensar em longo prazo.

 

E é aí que chegamos aos dias de hoje. Parece clichê – e é mesmo –, mas a democratização da internet e da tecnologia criaram uma diversidade imensa e um acesso à informação jamais visto. Um exemplo prático: pouco tempo depois de começar a escrever esse texto, um amigo me passou o link para um clipe de uma banda japonesa, contemporânea, chamada Rega. Excelente, o som: instrumental, meio math rock, meio jazzcore. Em que outro momento da história eu seria apresentado a um grupo tão particular, do outro lado do mundo, com essa facilidade?

 

É natural que nos sintamos confortáveis com o que já conhecemos. É como vestir o suéter preferido, ou aquela camiseta furada que usamos para dormir – são itens que fazem parte da vida há tanto tempo que é como sempre estivessem ali. Como o riff de guitarra em “Smoke on the Water” ou aquele refrão de “Smells Like Teen Spirit”, que soam familiares, quase atemporais. É natural que sejam referências mundiais, porque entraram para o cânone e praticamente se tornaram sinônimos de rock. Mas isso não deveria, por outro lado, ser fator limitante de gostos por aí.

 

Em tempos de uma pluralidade tão assustadora, é impossível dizer que a música contemporânea é ruim. Nem que é necessariamente boa – a música segue sendo irregular e variada, como sempre foi. Mas definitivamente também não dá para afirmar que falte inovação ou subversão. Em um exemplo simples como o dos japoneses do Rega, eu usei nomes de dois subgêneros que até alguns anos não fariam sentido – por nem existirem. Os tempos mudam, e o nosso tempo atual, marcado por essa overdose de referências e influências, demonstra fertilidade e aponta para um futuro interessante, em que os críticos musicais terão cada vez mais dificuldade para dar nome aos gêneros e categorizar os artistas.

 

A internet nos deixa boas notícias: o rock não está morto, só está cada vez mais difuso. Existem vários grandes letristas por aí, mas talvez eles levem mais algum tempo até ganhar um Nobel. E, como não vivemos no passado, é claro que já não se faz mais música como antigamente.

rega VIP PV

romulocandal@gmail.com

<p>Rômulo Candal é curitibano e, talvez por isso, acredita ter menos a dizer do que a escrever. Jornalista de formação, é desses que prefere o frio, ainda frequenta estádios de futebol e vive procurando algo novo pra ler, ouvir ou assistir.</p>

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