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Moderno?

Nem todos os mecanismos literários empregados nessa nossa produção contemporânea bacanuda são necessariamente “modernos”. Quer aprender literatura? Os melhores professores estão há milênios nos ensinando, e o Leandro Cardoso explica isso pra gente.

“Em primeiro lugar, é necessário que sejam claros os parâmetros pelos quais consideramos algo moderno, ou incorreremos em um sério risco de nos equivocarmos e destacarmos como “contemporaníssimo” aquilo que é quase uma condição para a criação literária – já há mais de dois mil e quinhentos anos.”

         O exercício é bastante simples. Abra qualquer coisa que se dedique à resenha de textos literários (blogue, jornal, podcast, vídeo no youtube, tanto faz) e aguarde até deparar-se com aspectos considerados valores modernos como: contestação do cânone, das fronteiras entre o artístico e o biográfico, da literatura, dos padrões estéticos, da moral humana, do divino. Depois perceba que, quase sem exceção, o moderno implica que a obra é atual, original e boa, que deve ser imediatamente lida. Aposto que, nesse exercício, você não vai aguardar muito para encontrar tais juízos (se é que eles já não lhe são dados em destaque na própria chamada). Pois bem, aqueles aspectos (contestação do cânone e etc.) certamente podem ser considerados critérios valorativos no momento de julgarmos qualquer produção artística, mas há uma pergunta que deve ser feita: em que medida esses aspectos são modernos e indubitavelmente bons, isto é, de boa qualidade? Em primeiro lugar, é necessário que sejam claros os parâmetros pelos quais consideramos algo moderno, ou incorreremos em um sério risco de nos equivocarmos e destacarmos como “contemporaníssimo” aquilo que é quase uma condição para a criação literária – já há mais de dois mil e quinhentos anos.

         Dentre as características comumente louvadas nessas opiniões, a fronteira entre o artístico e o biográfico me parece como uma das que mais são consideradas extremamente atuais. Pois bem, é lição conhecida a de que a poesia lírica é aquela em que, basicamente, um sujeito se expressa ante o mundo por meio de sua própria voz e de acordo com a sua própria percepção e experiência. Esse não é, porém, um traço de todo moderno, ou melhor, atual, uma vez que a poesia lírica grega e a romana, como o sabemos, já o faziam. Seja em Arquíloco e Safo (séc. VII a.C.) ou em Catulo e Propércio (séc. I a.C.), por exemplo, a tão falada subjetividade do eu lírico é aspecto visível:

Hoje aos festins não vai folgar, ó Péricles,

nem a cidade ou cidadão: prantos sem fim

vertemos pelos náufragos que o cavo pélago

tragou, e inchados os pulmões temos de dor.

Mas por consolo os deuses põem um fim ao mal

que agora impõem a nós, depois aos outros.

Vai amanhã sentir alguém o mal que agora sentes,

abandonemos fêmeo pranto, olhando em frente.

(Arquíloco, Fragmento 13, tradução de Antônio Medina Rodrigues)

          Lendo esses breves fragmentos, há de se perceber o porquê de serem comuns abordagens que põem em questão a relação entre poeta e eu lírico, seja alegando sua inequívoca identidade, seja expurgando dela qualquer traço biográfico. Se pão ou pães, a questão é de opiniães, de preceitos teóricos e de objetivos. O que ora interessa é que esses poetas, bastante distantes de nós, já colocavam em xeque – se de modo volitivo ou não é, aqui, indiferente – as tais fronteiras entre arte e biografia, uma vez que em seus poemas há um eu que fala e que é constantemente confundido com o poeta, principalmente quando a esse eu é dado o mesmo nome do poeta – como se o ser humano não fosse capaz de fazer de si próprio um personagem de sua própria fantasia. Nesse sentido, não necessariamente sofrera Arquíloco alguma perda em um naufrágio, o que então o teria motivado à composição de um poema sobre o assunto. Biografia e obra estão e sempre estiveram incontestavelmente ligadas, por isso das confusões entre a voz do autor-pessoa-física e dos eus do texto. Não há, então, absolutamente nada de moderno nisso, no sentido de que tenha sido feito por mentes geniais a partir do século XVIII.

         

         Da mesma forma, a contestação do cânone por meio da subversão de seus ditames ou da sua máxima exploração, já são, também, modos de operar explorados pelos nossos colegas da antiguidade greco-romana – por exemplo, Plauto e Eurípedes ou, pensando em subversão, Petrônio, que, em seu Satyricon (Capítulo 132), brinca de forma exemplar com a épica, especialmente no que diz respeito à seriedade dos seus temas e à elevação do gênero, mas também com o mais alto cânone épico romano, a Eneida de Virgílio. Um dos personagens da história, Encólpio, frustrado com a ineficácia de seu pênis como órgão sexual e disposto a cortar o problema pela raiz, após dirigir-se à sua mentula, lamenta com os seguintes versos:

illa solo fixos oculos auersa tenebat,

nec magis incepto uultum sermone mouetur

quam lentae salices lassone papauera collo.

Ela, voltada, os olhos fixos no chão tinha;

iniciado o sermão, não ergueu mais a face

do que moles salgueiros ou lassas papoulas.

         Os três versos que Petrônio põe na boca de Encólpio são, na verdade, citações quase diretas de Virgílio. Os dois primeiros, em específico, são exatamente os mesmos versos com que Eneias descreve o silêncio do espírito de Dido, sua ex-amante, quando o herói tenta estabelecer uma conversa com ela em sua descida ao inferno no Canto VI da Eneida (v. 469-70). Sem obter respostas da rainha, Eneias diz: illa solo fixos oculos auersa tenebat, / nec magis incepto uultum sermone mouetur – iguais aos de Encólpio. Transpor um discurso de forte apelo patético em que o herói busca desculpar-se com sua amada, que nem o considera, para um contexto em que um homem conversa com seu pênis frouxo e cabisbaixo é, sem dúvidas, uma grande contestação da tradição – ou uma brincadeira com o cânone, para os que preferem um eufemismo.

 

         O moderno como um valor daquilo que é contemporâneo pode ser bastante relativo – moderno com relação a quê? –, tal como se caracterizado por uma atitude de reação diante de padrões estabelecidos pela tradição. Atribuir esse rótulo a qualquer traço de uma composição poética que se perceba como minimamente ousado diante de uma tradição é bastante arriscado se não se leva em consideração, para isso, que as obras da literatura, por mais que estejam vinculadas a contextos de produção bastante específicos, encaixam-se em uma tradição bem mais abrangente, já que são obras de literatura, no geral mesmo. Além disso, considerar inequívoca a relação entre o moderno e a originalidade, entre o moderno e a genialidade ou entre o moderno e a inovação – sobre a pressuposição de que seja sempre algo bom, nem me dou ao trabalho de comentar – é tão perigoso quanto. Pois, como já dizia Terêncio (O Eunuco, v. 41 – séc. II. a.C.), não há nada que se possa dizer que já não tenha sido dito.

leandrodorvalc@gmail.com

Doutorando em Literatura pela UNESP/Araraquara. Tradutor e leitor.

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