Revista virtual de arte e cultura

Home / Literatura  / Kung Fu no Rolê

Kung Fu no Rolê

Imagem: Steve McCurry – China, província de Hunan, monastério Shaolin (2004)

Vinicius Ferreira Barth apresenta uma tradução para Kung Fu International, célebre poema do inglês John Cooper Clarke. Com a participação mais que especial de Rodrigo Barros.


“Era um minúsculo peidinho e nada mais,

era hábil praticante de artes marciais.”

John Cooper Clarke, nascido em Salford, Lancashire, 1949, é tido como o maior expoente do que se poderia chamar ‘poesia punk’. Exerceu grande influência nas bandas de sua geração, em fins dos anos 1970, tendo se apresentado com Sex Pistols, Joy Division, The Buzzcocks, Siouxsie and the Banshees, entre outros, além de ser uma das maiores inspirações para as letras da banda inglesa Arctic Monkeys.

 

Seu álbum de estreia, Où est la maison de fromage?, foi lançado em 1978 e trouxe à luz um dos seus poemas mais famosos: Kung Fu International, que vos traduzi abaixo. Inseri por conta própria, pra dar um tempero leitoso na pancadaria, palavras do vocabulário nadsat, idealizado por Anthony Burgess para seus personagens da Laranja Mecânica (veja mais aqui). Até agora não consegui localizar outra tradução do poema ao português. Por fim, como um brilhante bônus adicionado a essa tradução, incluí a leitura do poema feita por Rodrigo Barros, a magnificente voz do Radiocaos, numa performance insuperável.

Segue abaixo, portanto, um rolê pelo meu kung fu.

 

 

 

 

Dedicado a


Kung Fu no Rolê

Sábado à nochy, ali pelo rolê

veio um nanico calvo a me bater.

Era um minúsculo peidinho e nada mais,

era hábil praticante de artes marciais.

Três avisos, pois, me deu:

um pé pisado, cinco dedos no meu litso,

e um nariz arregaçado.

Estourou os meus glazz com rabbit punch na nuca.

A gulliver faliu, beijei a rua.

 

Implorei misericórdia,

me entortei no chão imundo,

ele me chutou os yarbles

e falou algo profundo.

No rosto uma clopada milimétrica eu ganhei.

Me largou falecido e inda levou meu chop suey.

 

Nadando em sangue e os ossos feito um porrilhão,

eu me arrastei até encontrar um orelhão.

Tirei um morto da cabine – e eu mei gorfado –

e fui discar com o meu dedo espatifado.

 

Mas nada de ambulância

num fone destruído.

O receiver, cagado:

estava kung fu’dido.

 

Chegou um tira karateka mestre-grão –

perguntava que porra era essa no chão.

Parecia um coadjuvante do Jackie Chan,

dizia: “Melindrado…

aham, aham, aham.”

Vestia máscara bambu,

dizia em zen shaolin um slovo.

Fez suas devoções e me esporrou de novo.

 

Pois graças ao Bruce Lee em versão protótipo,

do que eu já fui, sou só um daguerreótipo.

Não posso andar pelo Largo,

a P.M. já deu parte.
Operação Dragão:
Bye-bye Vinicius Barth.


Kung Fu International

Outside the take-away, Saturday night

a bald adolescent, asks me out for a fight

He was no bigger than a two-penny fart

he was a deft exponent of the martial art

He gave me three warnings:

Trod on me toes, stuck his fingers in my eyes

and kicked me in the nose

A rabbit punch made me eyes explode

My head went dead, I fell in the road

 

I pleaded for mercy

I wriggled on the ground

he kicked me in the balls

and said something profound

Gave my face the millimetre tread

Stole me chop suey and left me for dead

 

Through rivers of blood and splintered bones

I crawled half a mile to the public telephone

pulled the corpse out the call box, held back the bile

and with a broken index finger, I proceeded to dial

 

I couldn’t get an ambulance

the phone was screwed

The receiver fell in half

it had been kung fu’d

 

A black belt karate cop opened up the door

demanding information about the stiff on the floor

he looked like an extra from Yang Shang Po

he said “What’s all this then

ah so, ah so, ah so.”

he wore a bamboo mask

he was gen’ned on zen

He finished his devotions and he beat me up again

 

Thanks to that embryonic Bruce Lee

I’m a shadow of the person that I used to be

I can’t go back to Salford

the cops have got me marked

Enter the Dragon

Exit Johnny Clarke

John Cooper Clarke declamando ‘Kung Fu International’ no programa de tv britânico The Old Grey Whistle Test, em 1978:

vinicius.rnott@gmail.com

Doutorando em Estudos Literários pela UFPR. Tradutor. Estudante da literatura grega antiga. Autor de artigos científicos que ninguém nunca vai ler. Escritor. Autor do livro de contos 'Razões do agir de um bicho humano', publicado pela Confraria do Vento em 2015. Curioso do desenho e da fotografia. Nunca um entusiasta.

Review overview
NO COMMENTS

POST A COMMENT