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Is She Available?

Jazz, animação, artes visuais e tecnologia de ponta: saiba como tudo isso pode alçar a produção de poesia a um novo universo. Vinicius F. Barth comenta o recém-lançado livro de poemas de Igor Goldkind, Is She Available?


“Usando elementos do universo da “graphic novel” e da indústria da mídia digital, cujo crescimento é imparável, Goldkind nos apresenta uma forma bastante nova de ver poesia”.

Faz pelo menos uns quatro anos desde que eu notei que tenho uma pulga atrás da orelha com a Poesia.

 

Com a poesia produzida no Brasil, para ser mais específico.

 

É difícil definir o que é, mas posso começar devagarzinho, caminhando pelas bordas dessa nossa própria inaptidão em seguir em frente, estilisticamente falando. Por aqui, escrever poesia é um tipo de jornada que passa pelo que é definido e, por que não, imposto pelas tidas grandes cabeças da área e pelo que se verifica como A Poesia; um tipo de lei invisível dita o que se produz em novos círculos, e também o que é publicado. Ou seja, dita-se o que se acredita ser uma poesia aceitável. Ainda ouço ressoarem na minha cabeça as palavras que escutei quando terminei o meu primeiro livro do gênero, ainda não publicado: “O que você faz é engraçado. Você não é sério”. Pobre de mim; e desde então algo me incomoda ainda mais com relação à filosofia desse motor que nos move na construção de um texto poético.

Eu realmente não sou um entusiasta de 90% da poesia que se produz aqui. (embora essa ainda seja apenas a opinião de um carinha qualquer). Eu não vejo os limites do estilo sendo pressionados de nenhum jeito, já que a produção ainda está intimamente atada tematicamente a questões sociais (feminismo, aborto, religião, etc.), a tragédias urbanas, a traumas pós-guerra (!), ao nonsense pretensamente surreal, à solidão contemporânea – sendo esses, em geral, os temas mais bem aceitos. Essa boa-vizinhança, esse bom comportamento, portanto, ainda retêm de certo modo a nossa invenção literária – tanto em forma quanto em conteúdo – no máximo até o que foi conquistado na década de 1980. Em termos de composição visual, dificilmente superamos a poesia Concreta; revivemos o Simbolismo, não conseguimos superar Rimbaud e Mallarmé; e, acima de tudo, somos enterrados pela massa gigantesca do Ego, pela poesia da confissão, a poesia do querido diário. Poemas ilustrados, que voltam a surgir e reaparecer aos poucos no mercado editorial, caminham pela estrada da grandiloquência e do brega.

 

Além disso, o que vejo como sendo o mais importante: não estamos nem perto de fazer uso do que a tecnologia e os novos meios de comunicação têm para oferecer, exceto por exemplos muitos raros e específicos – como o poema-website Tróiades de Guilherme G. Flores, que discutimos na Issue #12 desta revista.

 

O que me traz, por fim, ao livro de poesia (e algo mais) de Igor Goldkind: Is She Available?, publicado recentemente pela Chameleon Editions nos EUA.

 

Goldkind é bastante conhecido por seu trabalho com mídias digitais e pela propagação do termo “graphic novel” no começo dos anos 90. Tendo passado por diversas fases de formação, estudou filosofia, trabalhou como freelance em jornalismo político, estudou com Foucault na França, escreveu roteiros para revistas como Judge Dredd Magazine e 2000 AD. (uma espiadinha no wikipedia te dirá muito sobre ele). E, no fim, aqui estou eu falando sobre o seu livro de poesia. Um livro inteiramente ilustrado por pessoas do calibre de Bill Sienkiewicz (Demolidor, Elektra) e David Lloyd (V de Vingança), além de muitos outros.

 

Para um leitor brasileiro de poesia (e de quadrinhos), isso é um tremendo baque.

(‘My heart’, por Rian Hughes)

Is She Available? te leva numa viagem visual bastante impactante. Você é avisado, desde o começo, de onde está: “you are here”. Você é avisado a respeito do que se tratam as imagens, as palavras e os sons. O livro tem um propósito explicitado em sua abertura, motivos definidos e uma advertência oracular. Entre no livro com olhos abertos e o Abismo falará com você. Sua voz vem em seguida, dando início ao livro. É, com toda a certeza, uma abordagem muito diferente do que eu estou acostumado a ver em livros de poesia. Mas de certo modo é também tranquilizador ser acompanhado por essa voz que nos guia, já que é muito fácil se perder em meio a tantas referências visuais e diferentes construções.

 

De poemas líricos a poemas que são quase puramente experiências formais, há ali muito a se ler e se entender, da mitologia grega ao nosso eu-contemporâneo, sem contar o universo de elementos visuais. Você pode se guiar pelos temas tendo em mente a proposição inicial do poeta na abertura: existem aspectos que ele sempre estará trazendo à tona. (o que parece funcionar, embora ao longo do livro se deva encarar uma mistura alucinante de todos os tipos de forma). Mas posso dizer, com bastante tranquilidade, que poemas como ‘Just this’, que conta com a esplêndida ilustração de DIX, fazem valer todo o dinheiro investido no livro.

 

Essa experiência é intensificada por todo o conjunto que acompanha o texto. O que consiste em: Jazz (toda a trilha foi composta exclusivamente para o livro por Gilad Atzmon – e essa trilha sonora só me faz evocar poetas beat como Bob Kaufman); leituras gravadas de poemas; vídeos e animações; e muitas, muitas imagens, que vão da fotografia e da pintura abstrata até a pura narrativa em quadrinhos. Uma pena que eu não tenha como tratar de tudo isso aqui.

 

Algumas construções, além do valor intrínseco como texto de poesia, são belíssimas esteticamente, mesclando a escrita de Goldkind com a composição visual do desenho, o que acontece de uma maneira interessante, por exemplo, em ‘This loneliness won’t leave me alone’. A ideia de versos saindo em forma de fumaça de dentro das chaminés, que é quase ridiculamente simples, funciona muito bem visualmente.

 

Abaixo apresento um dos meus favoritos, ‘The bullet from my gun’ (por Shaky Kane), que consiste em uma das melhores aplicações de design gráfico em poesia que eu já vi:

Além de tudo isso, eu tenho que valorizar o trabalho criativo de tantos artistas para um livro de poesia, como se fosse um filme ou um álbum de música. O uso da tecnologia de ponta para um e-book é impressionante (eu mesmo não conseguia visualizar o arquivo no meu computador, já que sou um cara lo-tech), e traz esse gênero de literatura a um outro nível, o que deve ser vistos com olhos bastante atenciosos por círculos poéticos e acadêmicos. Usando elementos do universo da “graphic novel” e da indústria da mídia digital, cujo crescimento é imparável, Goldkind nos apresenta uma forma bastante nova de ver poesia, coisa que eu vejo como um passo adiante, uma opção a mais para o trabalho conjunto entre escritores e outros artistas.

 

É provável que esse livro esteja sujeito a não ser visto realmente como um livro de poesia por algum tempo (sabe deus quanto tempo), e que seja visto como um livro de poesia para nerds frequentadores de Comic Con. No entanto, de onde eu vejo a coisa, dentro do meu contexto de poesia brasileira, esse livro é o passo adiante que ainda temos receio em dar, o que significaria sair do solo sagrado da poesia ortodoxa que praticamos para poder ver a produção desse gênero com outros olhos e outros mecanismos.

 

Além do papel (e dos fetiches que temos por ele), esse novo mundo de tecnologias e novas possibilidades está por aí, disponível para nós.

 

Estamos nós disponíveis para ele?

 

 

IS SHE AVAILABLE? The Trailer


English Version

It’s been at least four years since I noticed that there’s something bugging me about Poetry.

 

About the poetry made in Brazil, to be more specific.

 

It’s hard to define what it is, but I can begin slowly, going around the corners of our own inaptitude to go on, stylistically speaking. Like a quest to write verses that go by the book of poetry’s versed man in this south-american land, an invisible law dictates what is written in the new circles and what is published. That is, what is believed to be acceptable as poetry. I often hear in my head the echoes of those words, when I finished my still-unpublished-first-poetry-book: “you’re too funny, you’re not serious”. Alas, since then, something bugs me even more about the poetic craftsmanship.

 

I’m not really elated about 90% of the poetry made here. (but that’s just one average guy’s opinion). I do not see it pushing the boundaries in any way, as it is closely attached to the mandatory social issues, to urban tragedies, to the post-war traumas (!), to the professedly surreal nonsense, the contemporary solitude – those being some of the well accepted themes. Therefore, this well-behaviorism somehow holds back our literature invention – in both form and content – in the 1980’s, tops. Visually speaking, we’re hardly over the Concretes, reliving Symbolism, not over Rimbaud and Mallarmé, or the gigantic mass of Ego. Illustrated poetry, when it exists, walks on the magniloquent tacky road.

 

Moreover, this is what I see as most important: we are not even close to make use of what technology and new kinds of communication have to offer, except for very rare and specific examples – like Guilherme G. Flores’ Troiades, the website-poem, which was discussed here in Issue #12.

 

And this takes me to Igor Goldkind’s poetry (and something else) book: Is She Available?, recently published by Chameleon Editions in USA.

 

Goldkind is well known for his work with digital media and for the spread of the term “graphic novel” in the early 90’s. He studied philosophy, freelanced as a political journalist, studied with Foucault and wrote for the Judge Dredd Magazine and 2000 AD. (a quick peek in wikipedia should tell you a lot about him). And here I am, talking about his poetry book. A book entirely illustrated by people like Bill Sienkiewicz (Daredevil, Elektra) and David Lloyd (V for Vendetta), and many others.

 

For a Brazilian poetry (and comics) reader, this is quite an impact.

 

(“My heart”, by Rian Hughes)

Is She Available? takes you to a visual ride that leaves its marks. From the very beginning, you are told where you are: “you are here”. You’re told what images, words and sounds are all about. The book has a proposal, defined motifs and an oracular admonition. Step into the book with open eyes and the Abyss will speak to you. Its voice comes next, and the book starts. It’s indeed a different approach from what I’m used to see in poetry books around here, but I find it quite soothing to have a guiding voice: it’s also easy to get lost among so many visual references and constructions.

 

From lyric poems to poems that are almost pure form experiences, there’s a lot to read and understand, from the Greek mythology to the contemporary-us, aside from the universe of things to see. You can guide yourself through the themes by remembering the proposition made by the poet himself in the opening: you know there are some aspects he’s trying to approach here. (this works, I think, but be prepared to face all kinds of poetic forms mixed together). And I can say, peacefully, that poems like ‘Just this’, with the superb illustration by DIX, make worth the price you pay for the book.

 

The experience is intensified with the whole set that comes together. That is: Jazz (the music was composed exclusively for the book, by Gilad Atzmon – I can’t help myself recalling beat poets like Bob Kaufman with that soundtrack); recorded readings of poetry; video and animation; and many many images, that go from photography and abstract painting to the essential comic narrative. Unfortunately, I can’t talk about every one of them here.

 

Some of the constructions of the text, apart from the poetic value, are aesthetically beautiful, merging Goldkind’s text with the visual composition of the drawing, which happens, for instance, in ‘This loneliness won’t leave me alone’. The simple idea of verses coming out of chimneys like smoke works very well.
Below you can see one of my favorites, ‘The bullet from my gun’ (by Shaky Kane), which makes one of the best uses of graphic design for poetry that I’ve ever seen:

 

Apart from that, I have to enrich the creative work of so many artists over a poetry book, like if it was a movie or a music album. The state-of-the-art technology for an e-book is amazing (I couldn’t open it myself in my PC, because I’m still so lo-tech), and brings this kind of literature to a new level, which has to be seen with considerate eyes by the poetic and academic circles. Using elements from the ‘graphic novel’ universe and the ever-growing digital media industry, Goldkind is presenting us with a new form of visual poetry, and I see it as one step ahead, one more option for writers and other kinds of artists to work together.

 

Perhaps this book is bound not to be seen as a real poetry book for some time (who knows for how long), as being a poetry book for geeks at Comic Con. However, from where I see it, inside my own Brazilian context, this book is a step ahead that we’re yet afraid to take, coming out of our holy grounds of orthodox poetry to see the genre with other eyes.

 

Besides the paper (and our fetishes for it), this new world of technologies and new possibilities for poetry reading are available for us, somewhere out there.

 

So, are we available?

vinicius.rnott@gmail.com

Doutorando em Estudos Literários pela UFPR. Tradutor. Estudante da literatura grega antiga. Autor de artigos científicos que ninguém nunca vai ler. Escritor. Autor do livro de contos 'Razões do agir de um bicho humano', publicado pela Confraria do Vento em 2015. Curioso do desenho e da fotografia. Nunca um entusiasta.

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