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io saturnalia!

“Coiro taurino os peitos teus abrangeria:

            esse véu não suporta as tuas tetas.”

No início das suas Metamorfoses, Ovídio descreve aquela que, para os romanos, teria sido a Idade de Ouro, o momento primeiro da vida do homem no mundo (Met., 1.89-112 – tradução de Raimundo N. Carvalho):

aurea prima sata est aetas, quae uindice nullo,

sponte sua, sine lege fidem rectumque colebat.

poena metusque aberant, nec uerba minantia fixo

aere legebantur, nec supplex turba timebat

iudicis ora sui, sed erant sine uindice tuti.

nondum caesa suis, peregrinum ut uiseret orbem,

montibus in liquidas pinus descenderat undas,

nullaque mortales praeter sua litora norant;

nondum praecipites cingebant oppida fossae;

non tuba derecti, non aeris cornua flexi,

non galeae, non ensis erat: sine militis usu

mollia securae peragebant otia gentes.

ipsa quoque inmunis rastroque intacta nec ullis

saucia uomeribus per se dabat omnia tellus,

contentique cibis nullo cogente creatis

arbuteos fetus montanaque fraga legebant

cornaque et in duris haerentia mora rubetis

et quae deciderant patula iouis arbore glandes.

uer erat aeternum, placidique tepentibus auris

mulcebant zephyri natos sine semine flores;

mox etiam fruges tellus inarata ferebat,

nec renouatus ager grauidis canebat aristis;

flumina iam lactis, iam flumina nectaris ibant,

flauaque de uiridi stillabant ilice mella.

Primeva, a idade de ouro, sem ultor nem lei,

cultivava o direito e a fé espontaneamente.   90

Faltos de pena e medo, em bronze não se liam

ameaças, nem, súplice, a turba temia

juiz, mas, sem ultor, sentiam-se seguros.

Dos montes não descera ainda o pinho às ondas,

visitando o estranho orbe, e mortal algum     95

dos outros litorais sabia, fora o seu.

Fossos fundos ainda não cingiam muros;

não havia clarim reto ou curva corneta,

nem capacete e espada; e, sem usar polícia,

as pessoas em paz fruíam doces ócios.           100

A terra mesma tudo dava, sem impostos,

intacta de rastelo ou arados quaisquer;

contentes com os frutos dados sem esforço,

colhiam o medronho e morangos silvestres,

as cerejas e amoras nas moitas de espinho     105

e as landes que caíam da árvore de Júpiter.

A primavera era eterna e em sopros tépidos

afagavam incultas flores calmos Zéfiros.

Logo, intocada, a terra produzia grãos

e o campo branquejava de espigas pesadas;   110

ora corriam rios de leite ou de néctar

e do verde azinheiro o louro mel brotava.

         

         Na Idade de Ouro, então, a terra dava tudo ao homem, sem qualquer necessidade de cultivo ou pagamento de impostos; havia segurança e, sem medo algum, as pessoas aproveitavam o ócio tranquilamente. Imagem bastante semelhante ao paraíso cristão, mas com uma vantagem sobre este: não havia ultores, nem leis. A Idade de Ouro coincide com o período em que Saturno reinou no Olimpo, e termina justamente com o seu destronamento, quando seu filho, Júpiter, o lançou dos céus à terra. Após essa inversão no poder, Saturno teria dado início a uma povoação conhecida como Satúrnia, onde ensinou aos homens o cultivo da terra. Deus da lavra, mas também do seu gozo, portanto.

         

          Um deus assim fundamental não ficou sem lugar no calendário de celebrações romano, e o seu festival ganhou tamanha importância e dimensão com o passar dos anos que acabou se tornando um dos mais conhecidos do Lácio; depois de muitos decretos estabelecendo as datas de início e fim das Saturnais – o nome dado à sua celebração –, ficou decidido, já depois dos meados do século primeiro da nossa era, que as comemorações teriam início no dia 17 de dezembro, encerrando-se no dia 22 do mesmo mês – período esse que abrangia a época do solstício de inverno, momento em que as atividades agrícolas anuais se encerravam. Sem a obrigação de plantar, então, restava aos homens o usufruto das colheitas. Sete dias de festa, sete dias de um retorno à Idade de Ouro.

         

          Outro dos aspectos mais característicos das Saturnais era a suspensão, ou mesmo a negação de convenções políticas, sociais, morais, religiosas e legais, criando um ambiente livre de regras e obrigações, igualando, por baixo, os membros dos altos escalões da sociedade, a plebe e os escravos. Um momento de inversão hiperbólica de valores, poderíamos dizer, ou mesmo de carnavalização. As saturnalia eram período de libertação, e tanto o é que as pessoas costumavam trazer em suas cabeças o pilleum, espécie de barrete que identificava os escravos libertos na Roma antiga, e mesmo Saturno, cuja estátua restava coberta durante todo o ano, era destapado durante os dias da festa. Mas e a literatura, o que tem com isso? Muito mais do que imaginamos, mas desta vez quero ficar em um único aspecto. Antes disso, mais um pouco de história.

         

          Por seu tamanho e relevância, as Saturnais acabaram anexando outras celebrações e festas que aconteciam durante o mês de dezembro, como foi o caso das Sigilárias, a Festa das Estátuas – sigillum, em latim –, costumeiramente celebrada nos dias 21 e 22 de dezembro. Essa festa era marcada pela troca de presentes entre seus participantes, especialmente de estatuetas (daí o seu nome), que figuravam desde personagens mítico-religiosos, até temas jocosos e eróticos. Era costume que essas estátuas, como qualquer outro presente que fosse trocado pelos participantes, viessem acompanhadas ou precedidas por pequenas composições poéticas relacionadas de alguma forma com o objeto regalado: seja explicando a sua origem, a sua intenção, o valor, a relação com quem dá, com quem recebe, com uma situação específica et cetera. Como uma espécie de “o meu amigo secreto é …”, mas em versos e com mais relação ao presente e ao seu vínculo com a situação e o presenteado, do que à pessoa.

         

          É nesse contexto, pois, que se encontram alguns dos epigramas daquele que certamente é a representação máxima desse tipo de produção poética em Roma: Marco Valério Marcial (38-104 d.C.). Dos quinze (!) livros de epigramas publicados por Marcial, dois deles (XIII e XIV) foram publicados durante as Saturnais, provavelmente entre os anos de 83 e 85, e com o objetivo claro de apresentar pequenos poemas, geralmente compostos por um único dístico, uma espécie de estrofe composta por dois versos, para acompanhar os mimos trocados pelos romanos. Nomeados Xenia e Apophoreta – na tradução de Alexandre Agnolon*, o “Livro dos Brindes” e o “Livro das Lembrancinhas”, respectivamente –, os micropoemas podiam figurar junto a alimentos, temperos e bebidas ofertados durante as Saturnais, bem como a objetos de diferentes tipos e valores com os quais eram presenteados os convivas de um mesmo banquete, por exemplo. Sobre esses presentes, ainda, vale a pena a leitura da consideração de Agnolon:

É de notar também o fato de que grande parte dos presentes não passa de quinquilharias, o que intensifica o caráter amiúde jocoso do próprio presente e o aspecto simbólico, propiciatório dos brindes, como se contasse muito mais a intenção de ofertá-los – daí certo caráter lúdico da festa –, a troca em si de presentes do que necessariamente seu valor, embora vários objetos e iguarias mencionados nos dísticos dos livros XIII e XIV sejam raros e, por consequência, valiosos …**

          O mais bacana com relação a tais composições, porém, não está só no contexto ao qual elas se referem e no qual estão incluídas, mas principalmente em como o poeta manipula o próprio gênero para que sua produção não somente se refira às festas de Saturno, mas as incorpore. Esse processo, como bem aponta Agnolon, passa especialmente pela suspensão/negação do principal valor (io saturnalia!) dos epigramas, seu tom injurioso, ou seja, o vitupério, o insulto que objetiva o riso (Mart., 1.19 e 28 – traduções de Fábio Cairolli):

Si memini, fuerant tibi quattuor, Aelia, dentes:

     expulit una duos tussis et una duos.

Iam secura potes totis tussire diebus:

     nil istic quod agat tertia tussis habet.

Se me recordo, tinhas, Élia, quatro dentes:

     tossiste, uma vez, dois; noutra, mais dois.

Segura, podes já tossir por todo o dia:

     não fará nada uma terceira tosse.

Hesterno fetere mero qui credit Acerram,

     fallitur: in lucem semper Acerra bibit.

Quem crê que Acerra fede ao vinho puro de ontem

     erra: Acerra bebe até de manhã.

Nos dois livros em questão, o poeta teria, então, mudado sua principal forma de fazer humor, buscando um vocabulário que pudesse encaixar o riso epigramático no espírito das Saturnais, demonstrando todo o espírito propiciatório da celebração de Saturno e alterando convenções de sua escrita assim como os dias dedicados ao deus modificavam a vida dos romanos. Sem mais demora,  só me resta agora terminar esta coluna com uma seleção de alguns dos xênias e apoforetas de Marcial (todos em traduções de Alexandre Agnolon), que podem figurar, aqui, como lembrancinhas de final de ano deste que ora escreve. Pois bem. E como estamos em dezembro, mês de férias, celebrações religiosas e trocas de presentes, bona saturnalia, carissimi!

Dos Xênias, de Marcial

 

XI – Hordeum

Mulio quod non det tacituris, accipe, mulis.

     Haec ego coponi, non tibi, dona dedi.

 

 

XVIII – Porri sectiui

Fila Tarentini grauiter redolentia porri

     edisti quotiens, oscula clusa dato.

 

 

XXII – Uuae duracinae

Non habilis cyathis et inutilis uua Lyaeo,

     sed non potanti me tibi nectar ero.

 

 

XXV – Nuces Pineae

Poma sumus Cybeles: procul hinc discede, uiator,

     ne cadat in miserum nostra ruina caput.

 

 

XXXIV – Bulbi

Cum sit anus coniunx et sint tibi mortua membra,

     nil aliud bulbis quam satur esse potes.

 

 

 

LXXXVII – Murices

Sanguine de nostro tinctas, ingrate, lacernas

     induis, et non est hoc satis, esca sumus.

 

 

CXIX – Nomentanum

Nomentana meum tibi dat uindemia Bacchum:

     si te Quintus amat, commodiora bibes.

 

11 – Cevada

Toma o que às mulas, tácitas, não dá o cocheiro.

     Estes dons, dei-os para o taverneiro.

 

 

18 – Alho de Picar

Sempre que tu comeres de Tarento o forte

     alho, só beijes de bico fechado.

 

 

22 – Uvas Duras

Às taças não convenho: a Lieu indigesta,

     a ti, porém, abstêmio, serei néctar.

 

 

25 – Pinhões

Os pomos de Cibele somos. Vai, viajante!

     p’ra que em tua cabeça não caiamos!

 

 

34 – Cebolas

Se a esposa for gagá e o membro, peso morto,

     nada senão cebolas vão fartar-te.

 

 

87 – Mariscos

Tuas vestes, ingrato, tingem com meu sangue.

     Se isso não basta, ainda sou repasto.

 

 

119 – Vinho Nomentano

Vindima de Nomento a ti manda meu Baco:

se Quinto ama-te, vais beber melhores.

 

Dos Apoforetas, de Marcial

VII – Pugillares Membranei

Esse puta ceras, licet haec membrana uocetur:

     delebis, quotiens scripta nouare uoles.

 

 

XIII – Loculi Lignei

Si quid adhuc superest in nostri faece locelli,

     munus erit. Nihil est; ipse locellus erit.

 

 

XIX (XVIII) – Nuces

Alea parua nuces et non damnosa uidetur;

     saepe tamen pueris abstulit illa natis.

 

 

XXXIX – Lucerna Cubicularis

Dulcis conscia lectuli lucerna,

     quidquid uis facias licet, tacebo.

 

 

XLIX – Halteres

Quid pereunt stulto fortes haltere lacerti?

     Exercet melius uinea fossa uiros.

 

 

LXIII (LXIV) – Tibiae

Ebria nos madidis rumpit tibicina buccis:

     saepe duas pariter, saepe monaulon habet.

 

 

LXVI – Mamillare

Taurino poteras pectus constringere tergo:

     nam pellis mammas non capit ista tuas.

7 – Cadernos de Pergaminho

Julga-os de cera, embora sejam pergaminhos:

     vais apagá-los, sempre que escreveres.

 

 

13 – Cofrinhos de Madeira

O que jaz na caixinha será teu presente.

     Não há nada? A caixinha então será.

 

 

19 (18) – Nozes

Jogo inocente as nozes, sem dano, parece.

     Mas de muitos guris valeu o rabo.

 

 

39 – Candeia de Alcova

Sou candeia da doce alcova cúmplice.

     Que queres faças: minha boca é túmulo.

 

 

49 – Halteres

Por que deixar um tolo halter moer os braços?

     As vinhas exercitam mais os homens.

 

 

63 (64) – Flautas

A flautista ébria sabe nos arrebentar:

     com uma ou duas de uma vez na boca.

 

 

66 – Sutiã

Coiro taurino os peitos teus abrangeria:

     esse véu não suporta as tuas tetas.


* AGNOLON, Alexandre. A festa de Saturno. Os Xênia e os Apoforeta de Marcial. 2013. 380 p. Tese (Doutor em Letras Clássicas) – FFLCH, Universidade de São Paulo, 2013.

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Doutorando em Literatura pela UNESP/Araraquara. Tradutor e leitor.

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