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Interrogando Mark Landis

Johannes Worsøe Berg – Retrato de Mark Landis (JWB6324)


“Eu sempre quis ser um grande e rico colecionador de arte, e um filantropo, talvez como a maioria das pessoas. Você não gostaria de ser um grande e rico colecionador de arte? Claro, né.”

Entrevistamos o mundialmente famoso pintor norte-americano Mark Landis, conhecido por “doar” inúmeras pinturas e desenhos forjados para os museus de seu país. Conheça um pouco mais sobre um dos grandes falsificadores do séc. XX em sua primeira entrevista dada ao Brasil.


 

 

  • É um prazer apresentá-lo na nossa revista, Sr. Landis.

 

Obrigado!

 

 

  • Por que você faz o que faz?

 

Ok, é melhor eu dizer “por que eu fiz”. Eu queria impressionar a minha mãe naqueles tempos, eu não sei, uns 30 anos atrás. Foi um impulso, e eu vi gente fazendo coisas assim na TV. Eu sempre quis ser um grande e rico colecionador de arte, e um filantropo, talvez como a maioria das pessoas. Você não gostaria de ser um grande e rico colecionador de arte? Claro, né. Produzi uma pintura e dei ao museu, e eles acabaram sendo tão agradáveis comigo, eu nunca tinha sido tratado assim. Me trataram como alguém da realeza. Quer dizer, você gostaria de ser tratado como alguém da realeza, não é? Claro! E no fim, acabei me acostumando e continuei fazendo, e isso virou uma carreira pelos 30 anos seguintes. Certamente não foi nada planejado por mim, nada disso… Apenas foi… Sabe?

 

 

  • Por que você doa trabalhos para igrejas, e por que se veste como um jesuíta para fazê-lo?

 

Isso também foi algo meio impulsivo. Eles gostam de ter ícones, e foram muito muito gentis e apreciativos, e eu recebi algumas cartas realmente bonitas e inspiradoras de arcebispos, cardeais, coisas assim… Quero dizer, realmente bonitas.

 

 

  • A princípio você não quebrou nenhuma lei, mesmo que as suas atividades tenham sido claramente enganosas. O fato de você fazer isso sem ter a intenção de fazer fortunas, doando os trabalhos para especialistas, pode ter te protegido dos olhos da lei. Alguma ação já foi movida contra você quando as cópias foram descobertas?

 

Não. Lá atrás, 30 anos atrás, comecei a pensar depois de um tempo: “Hum, será que vou ter problemas com isso?”. Mas nada aconteceu. Uma vez – e isso faz muito tempo – um museu, mais ou menos um ano depois que comecei, me mandou uma carta formal dizendo que eles olharam o trabalho e decidiram não aceitá-lo em sua coleção permanente, esse tipo de coisa. E eu pensei “bom, ok. Isso é tudo o que vai acontecer”. Um dia descobrirão tudo, ela estará no porão… Mas parei de me preocupar com isso completamente mais ou menos um ano depois que comecei a fazer.

 

Johannes Worsøe Berg – Retrato de Mark Landis (JWB4142)

  

 

  • Existem trabalhos em exibição em galerias e museus que ainda não foram descobertos como sendo cópias?

 

Não que eu saiba, porque eu realmente não tenho ideia. Eu imagino que a maioria já tenha sido descoberta a essa altura. Mas claro, você nunca sabe… Eu poderia muito bem perguntar. Conheço vários deles porque recebo ainda cartas formais e etc., mas não tem como dizer. O único jeito de descobrir seria o de eu perguntar, e eu não quero. Mas se ainda há, não devem ser muitas.

 

 

  • Você produziu trabalhos de William-Adolphe Bouguereau, René Magritte, Paul Signac, Antoine Watteau, o que demonstra talento e versatilidade incomuns. Conte-nos sobre o seu processo criativo, desde escolher o artista até finalizar o trabalho.

 

30 anos atrás ainda não havia a internet, não é? Eu comecei quando tinha a sua idade. Fazia uma pequena pesquisa no Guide to the Museums in the USA, um livro muito importante de referência daqui, e buscava um museu naquele livro pra descobrir o que eles colecionavam, e daí… Eu apenas queria fazer algo que eles iriam querer para a sua coleção, porque os museus são seletivos, apenas colecionam certas coisas. Então eu teria que fazer algo que eles desejariam. Eu descobria qual obra seria, algo que não fosse tão difícil, algo que não fosse tão grande. Pra que eu pudesse carregar.

 

 

  • Porque tantas instituições foram tão facilmente enganadas?

 

Eu não sei. E… Não, eu não diria que foram facilmente enganadas. Veja, ao que tudo indica, elas descobririam mais cedo ou mais tarde. Mas por sorte, nunca descobriram antes de eu ter ido embora. Essa era a minha preocupação. Às vezes descobriam logo depois que eu tinha saído, e às vezes apenas anos depois. Você nunca sabe, e isso não era algo que me preocupava, porque eu gosto da experiência de estar lá e fazer isso. E claro, eu sempre me sentia encorajado quando recebia cartas gentis, e eles mostravam a pintura, e chegavam mais cartas efusivas sobre o quanto eles tinham apreciado, esse tipo de coisa. Eu gosto disso. Mas o principal é: no que concerne a ter sorte, eu tive muita sorte de que sempre que descobriram, eu não estava lá. Eu odiaria ver isso. Você não? Então, por sorte, sempre que aconteceu eu não estava por perto.

 

 

  • Que obra de arte você alteraria sem pestanejar?

 

Oh… Bom, eu já fiz isso algumas vezes. Mudei algumas coisas, tornei-as mais bonitas. Eu provavelmente mudei um pouco algumas das obras modernas que fiz.

 

 

  • Quais são as suas referências artísticas?

 

Os artistas que gosto são os artistas que a minha mãe gosta, e que eu também gosto. Eu gosto dos artistas vitorianos. Gosto de crianças bonitas, Madonnas, gatinhos. Inclusive eu faço as minhas próprias pinturas de bichinhos fofos. Já pintei alguns animais de estimação para estrelas do cinema… Enfim, é desse tipo de coisa que eu gosto. Artistas vitorianos. Os acadêmicos.

'Art and Craft': How a Master Art Forger Was Found Out

Agradecimentos especiais a Gesoel Mendes e Ana Paula Nadalini Mendes pela realização e pelo apoio e principalmente para Colette Loll (http://www.artfraudinsights.com/) e Laila Jadallah, por possibilitar o contato, pelos materiais enviados e pelo interesse demonstrado em nosso trabalho.



English version

It is a pleasure to feature you in our Mag, Mr. Landis.

 

Thank you!

 

 

Why do you do what you do?

 

Okay, it’s probably better to say “why did I do”. I wanted to impress my mother way back, I don’t know, 30-something years ago. I just had the impulse and I’ve been seeing people do things like that on TV. I always wanted to be a big rich art collector and a philanthropist, as probably do most people. Wouldn’t you like to be a big rich art collector? Of course, you know? I did a picture myself and I gave it to the museum and they were so nice to me, and I’ve never been treated like that before. They treated me like royalty. I mean, you like being treated like royalty, don’t you? Well, sure! And you know, I got used to it and kept doing it, and for the next 30 years I turned it into a career. For sure it wasn’t anything I planned or anything, it just sort of… You know.

 

 

Why do you donate artworks to churches, and why do you dress up like a Jesuit priest to do that?

 

That was kind of an impulse too. They like to have icons, and well, they were real nice and appreciative, and I got some really beautiful, inspiring letters from archbishops, cardinals, and things like that. I mean, really, really beautiful.

 

 

It seems that you did not break any law, even if your activities were clearly misleading. Doing that without the intention of making a fortune, donating the works to specialists, may have protected you from the eyes of the law. Did you have any kind of legal action brought against you when the copies were discovered?

 

No, I haven’t. Way back, 30 years ago, after a while I started thinking: “Gee, I wonder if I can get into trouble for this?” you know. And nothing happened. One time I got a… – this is way, way back… One museum, after about a year, they sent me a stiff letter saying that they looked at it and they decided not to accept it into their permanent collection, and that sort of thing. And I thought “well, ok. That’s all that’s ever gonna happen”. They will eventually find out, probably in the basement… So I stopped worrying about it completely a year or so after I started doing it.

 

 

Are there works still on exhibition in galleries and museums that have not been unveiled as copies yet?

 

Not that I know of, because I don’t really know. I imagine most of them they probably found out by now. Of course, you never know… I can very well ask. I know a lot of them because I got stiff letters and things like that, but there’s no telling. The only way to find out would be for me to ask, and I don’t want to. If there are, it wouldn’t be that many.

 

 

You produced works by William-Adolphe Bouguereau, René Magritte, Paul Signac, Antoine Watteau, which demonstrates unusual talent and versatility. Tell us about your creative process, from choosing the reproduced artist to the work’s conclusion.

 

30 years ago the internet didn’t exist, ok? When I was your age, that’s when I got started. I would do a little research on the Guide to the Museums in the USA, a great big standard reference book. I’d look up the museum in that book to find out what they collected, and then, from there… I just wanted to do something they’d want for their collection, because museums are selective, they only collect certain things. So I would have do to something that they would want. I would find that, and something that wasn’t too hard to do, something that wasn’t too big. So that I could carry it.

 

 

Why so many institutions were so easily deceived?

 

I don’t know. And… No, I wouldn’t say they were easily deceived. You see, what would happen is that they would find out most of the time, it seems. But fortunately, they didn’t find out until I was gone. Which is all I cared about. Sometimes they’d find out just after I left, and sometimes years later. You never know, and it is something that I didn’t worry about, because I like the experience of being there and doing it. And of course, it always gave me a boost when I got nice letters and they were displaying the picture, and lots of nice gushy letters about how much they appreciated, that sort of thing. I like that too. But the main thing is: as far as being lucky goes, I was lucky that when they did find out, I wasn’t there. Cause I hate seeing this. Don’t you? So, fortunately, I wasn’t around when it happened.

 

 

Which work of art would you modify without thinking twice?

 

Oh… Yeah, sometimes I have done that, a few times. I changed things a little bit, I made them a little prettier. Some of the modern thing I’ve done I probably changed a little bit.

 

 

What are your artistic references?

 

The artists I like are the artists my mother like and that I like too. I like Victorian artists. I like cute children, angels, Madonnas, cute kittens. I also do my own paintings of cute pets. I’ve done some pets for some movie stars… Anyway, that is the sort of thing I like. Victorian artists. The academics.

marlonjaanjos@gmail.com

<p>Mestre em artes visuais. Neoísta.</p>

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