InterrogatórioPor aí

Interrogando Marco Giacomelli

[vc_row][vc_column][vc_column_text]Em um Interrogatório um pouco diferente do que costumamos fazer, dialogamos de maneira mais detida com Marco Giacomelli, pensando nos múltiplos sentidos da sua arte. Giacomelli é um dos artistas expostos no MuMA, Curitiba, dentro do circuito da Bienal de Curitiba 2015.[/vc_column_text][vc_column_text]

“Se estivermos envolvidos honestamente com nossos projetos, os próximos acabam seguindo uma curva crescente na construção pela própria evolução de nossos questionamentos.”

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Diferentemente dos Interrogatórios que costumamos publicar em nossas edições, vimos no trabalho de Marco Giacomelli uma oportunidade de construir uma entrevista mais dialógica, onde exploramos um pouco os nossos pontos de vista e jogamos a bola para que o artista explore os seus próprios. Ao invés de perguntas curtas e objetivas, queremos acender um pouco a discussão fazendo com que o artista disserte em função de nossas dúvidas. Especialmente neste caso, já que o trabalho de Marco é, em grande medida, conceitual. Esta entrevista é uma conversa. É a pulga que surgiu atrás da nossa orelha, e quem sabe de outros tantos espectadores.

 


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  • Você se considera um fotógrafo?

 

         Me considero uma pessoa curiosa e inquieta. Acho muito limitante quando assumimos um determinado rótulo. Prefiro ter o desprendimento e poder mergulhar em diferentes ideias para contextualizar tudo isso com meu próprio conteúdo.

 

         Acredito que nossa percepção pode ser influenciada pelas definições que assumimos, e se não tomamos máximo cuidado, significamos parte de nossa existência na disciplina de trilhar por caminhos com limites e regras pré definidos na ótica de um determinado grupo. Ao seguirmos as regras do grupo nos afastamos da oportunidade de nos perdermos, o que proporcionaria espaço para surgimento de novos caminhos. E por não termos novas perspectivas a oferecer ao mundo, a importância de nosso trabalho é para apenas validar o discurso do grupo.

 

         A fotografia faz parte do meu processo de trabalho, e mesmo tendo um conhecimento avançado de sua técnica não me defino como fotógrafo, com isso tenho mais leveza para experimentar e depois voltar a seguir meu próprio caminho.

 

 

  • Sob alguns pontos de vista, pode-se afirmar que a fotografia como gênero artístico visual seja um meio que se repete em si mesmo, dentro de estilos e temáticas, e por melhor que seja a sua execução, ainda se encaixa em um determinado tipo de estética relativamente bem definida. A saída apresentada pelo seu trabalho tende a um resultado estético que se inclina ao abstracionismo, o que nos faz lembrar de movimentos que a pintura inaugurou há mais de cem anos, desmaterializando a forma concreta e convencional. Os trabalhos apresentados em ‘Ondas de Luz’ nos sugerem, inevitavelmente, esse mesmo movimento. Portanto, o que surge quando a ‘pretensão da verdade fotográfica’ é desmascarada? Como isso se difere de uma fotografia borrada, simplesmente?

 

         É muito difícil julgar o trabalho de uma pessoa em arte conceitual apenas do ponto de vista de um projeto, é preciso conhecer a evolução de seu processo, e seus questionamentos. É importante deixar claro que na instalação “Ondas de Luz”, apresentada no MUMA, não estou interessado em contar nenhuma história, documentar um evento, nem pretendo representar a natureza em sua forma convencional. Faço uma abordagem pessoal alternativa com processos orgânicos que dialogam comigo como um jogo.

 

         Represento a minha natureza de forma conceitual, da maneira como eu a sinto. A estética à qual você se refere não é um objetivo propriamente dito, em vez disto é o resultado de um processo estimulado por minha relação psicológica com a natureza, cuja ambiguidade é proporcionada quando retira elementos chave de seu contexto original.

 

         Fotógrafos são frequentemente prisioneiros de tradições, de conteúdo e de enquadramento racional. Acho que apresentar meu trabalho como fotográfico o torna provocativo aos que já chegam condicionados pela ótica pré concebida do que esperam encontrar. Se inclinam em racionalizar o que não entendem enxergando somente o que procuram em suas projeções.

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         Para esses o trabalho sempre será definido por imagens borradas e coloridas, e eu não me importo nem um pouco com suas opiniões. Condicionados, perdem a possibilidade de ser provocados pelo trabalho, ou de vivenciar o universo paralelo sugerido pelo autor.

 

         A capacidade de ler qualquer obra depende da nossa capacidade de falar a língua. Línguas são compostas de elementos organizados de acordo com as regras. Quando estamos preocupados com conteúdos relacionados com a mensagem em fotografia priorizamos a escolha de palavras no contexto de regras bem estabelecidas. Quando estamos preocupados com processo, priorizamos considerações gramaticais no contexto das regras que temos desenvolvido para atender nossos objetivos. A fotografia borrada para uma pessoa é a priorização de ambiguidade e incerteza para outra, enquanto assunto.

 

 

  • A fotografia – convencional, figurativa, reconhecível – é uma das ferramentas para a criação das suas imagens: parte-se dela para alcançar um outro ponto. Ou seja, além da câmera, da edição e do material, a própria imagem fotografada está entre os materiais usados para a construção de um trabalho. Fale sobre o seu processo criativo e sobre essa desconstrução/deformação que a imagem sofre dentro desse percurso.

 

         Não existe possibilidade de desconstruirmos algo que ainda não dominamos, e essa construção não é apenas vinculada a um conhecimento técnico, tem toda uma base filosófica que sustenta nosso processo de experimentação. Antecipar esse passo resulta em um trabalho vazio e pretensioso, o trabalho vira um monólogo sem alma. Você precisa entender as regras para poder quebrá-las e reinventá-las segundo suas próprias necessidades.

 

         Se estivermos envolvidos honestamente com nossos projetos, os próximos acabam seguindo uma curva crescente na construção pela própria evolução de nossos questionamentos. Tudo isso é muito natural até chegarmos num ponto em que nosso trabalho acaba por só nos trazer as mesmas respostas. Este local é sedutor e perigoso. Para avançarmos, o único caminho está em desconstruir aquilo em que acreditamos. Mas isso envolve não apenas domínio técnico ou coragem, necessita também de confiança e rigor para que sejamos capazes de nos perdermos e de tolerar estar perdido, é tudo muito intenso e psicológico. É simplesmente impossível descobrir novos terrenos genuínos se somos incapazes de cortar o cordão umbilical com nossa zona de conforto. Paradoxalmente, este processo não apenas nos introduz a novos ambientes como também nos permite olhar para onde viemos sob uma nova perspectiva.

 

         Desta maneira, a todo momento você está resignificando quem você é e seguindo novos caminhos, e se você for honesto isto estará presente em seu trabalho. Olhando por essa perspectiva você não consegue mudar o que você faz como artista conceitual se não mudar seu percurso. Seu processo de trabalho é um espelho de quem você é.

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         Uma das armadilhas do trabalho artístico está em não estipularmos prazos para o fechamento dos projetos, eles acabam entrando em um ciclo de mudança constante e um único trabalho toma toda uma vida. Desta forma, mesmo que você trabalhe honestamente, não será possível perceber a evolução de seu processo. Expor o resultado é outro passo muito importante para a evolução do processo, e não deve ser encarado como uma busca por reconhecimento pessoal. É simplesmente um ponto final ao trabalho dando a possibilidade de um novo capítulo para sua evolução. É um ritual de passagem para estarmos abertos a algo novo. Você oferece ao mundo seu trabalho, e ele cria vida, e você consegue se distanciar dele. Se você termina um projeto e o guarda, ele se torna algo mal resolvido em sua vida.

 

         Você não precisa sair para fotografar quando inicia um novo projeto. Em meu processo a captação e a composição das imagens são trabalhadas separadamente, um não depende do outro. O sentimento que tenho no momento da captação não tem nenhuma relação ao momento que estou compondo. Eu hoje coleciono imagens e elas vão sendo plenamente descobertas quando inicio minhas composições. Como ainda gosto de tirar fotos, continuo a produzir, mas isso não valida meu trabalho, só diz respeito a mim. Eu poderia absolutamente nunca mais fotografar e continuar compondo novos trabalhos normalmente com as imagens que eu possuo.

 

         Tudo depende de como você encara seu processo, algumas limitações podem ser ótimos desafios, como o trabalho do pintor abstrato francês Pierre Soulages, ele usa apenas a cor preta em praticamente todos os quadros que pintou em sua vida, é um trabalho tão significativo conceitualmente que coloca em xeque o que ainda podemos fazer pela pintura.

 

         Não é sua habilidade técnica, o conteúdo que você aborda e muito menos o material usado em seu trabalho que faz de você um artista, seja você fotógrafo, pintor, gravurista, escultor… arte contemporânea não é produto, é processo. Ela não fornece respostas, mas questiona.

 

 

  • Além do que tratamos acima com relação ao processo, julgamos que outros dois pontos são fundamentais para a concepção do que se vê na exposição: o estilo de impressão e a curadoria. O curador de ‘Ondas de Luz’, Scott MacLeay, defende a exploração de novos modos de se conceber a fotografia, inclusive orientando outros artistas neste mesmo viés, e vê na materialidade da impressão uma realização concreta desses novos caminhos. Assim, o tratamento das impressões vistas na exposição é um ponto-chave, tornando, de algum modo, palpáveis e materiais essas imagens formadas de cores e de luz, diminuindo a distância entre a obra e o espectador. Fale sobre esse tratamento e sobre a influência do pensamento de Scott MacLeay no seu trabalho.

 

         Não existe um estilo de impressão e curadoria. Eu até poderia justificar sua afirmação com a mesma resposta fornecida anteriormente. Talvez o que tenha chamado mais sua atenção é que o trabalho tem vida, ele proporciona uma sensação de movimento, ele interage dialogando com você. A organização de toda apresentação de um trabalho não deve ocorrer ao acaso. A forma, a proporção que cada imagem possui, a opção por não usar vidro, a ordem das imagens pelo pouco espaço de recuo, o tipo de luz do ambiente, o tamanho e local do texto… Precisamos entender que cada decisão tomada tem um propósito, e tudo foi cuidadosamente pensado e estudado antes de ser colocado em prática. Se eu houvesse optado pelo vidro na frente das imagens o reflexo dos cartazes da parede oposta interfeririam no trabalho e perderia uma parte de sua força. Não existe espaço para avançarmos se não formos questionadores, e não devemos nunca baixar a cabeça para fazer de conta que você não está percebendo o elo fraco das centenas de variáveis que influenciam toda força do trabalho.Não existe ponto-chave, ou melhor, todos os pontos e decisões são chaves para que o trabalho ganhe vida, e consequentemente, diminua a distância entre a obra e o expectador.

 

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         Scott MacLeay é um artista multimedia, por quem tenho uma profunda admiração pessoal e profissional, aprendi e aprendo muito com ele. Participei em 2012 de seu programa pedagógico para artes contemporâneas, que me ajudou a alcançar um nível técnico e conceitual bastante avançado. Ele introduziu-me a diversas perspectivas em composição em domínios como a música contemporânea e mídia arte e esta aprendizagem abriu-me campos de exploração completamente novos em meu trabalho. Ele é diretor de arte em meus projetos e curador de minhas exposições. Scott ensinou-me que tudo é possível se você é honesto consigo mesmo, trabalha duro e não tem medo de errar.

 

          No final do dia o importante é o encontro entre o público e a obra. O trabalho está terminado neste momento e é responsabilidade de cada visitante perguntar o que ele tem em sua bagagem (cultural, intelectual,emocional, psicológica…) que permite dialogar e se o diálogo não for possível, perguntar onde encontrar esta bagagem necessária. Somente após estas interrogações é que podemos realizar um julgamento de valor pessoal sobre a importância de uma obra em um contexto individual e social.

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Vinicius F. Barth
Doutor em Estudos Literários pela UFPR. Tradutor das Argonáuticas de Apolônio de Rodes. Escritor e ilustrador. Autor do livro de contos 'Razões do agir de um bicho humano', (Confraria do Vento, 2015) e do livro de poemas e ilustrações '92 Receitas Para o Mesmo Molho Vinagrete' (Contravento Editorial, 2019). Ilustrador de Pripyat (Contravento Editorial, 2019). Estudante de saxofone.

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