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Interrogando Kaethe Butcher

Imagem: Untitled por Kaethe Butcher

Entrevista exclusiva com Kaethe Butcher, ilustradora alemã e residente em Londres, que nos contou sobre as raízes de seus traços sensuais, sensoriais, e, mais do que tudo, sinceros. Entre e encha os olhos com a sua bela arte. Por Vinicius F. Barth.

Pessoalmente, eu gosto de curvas macias com algumas falhas aqui e ali pelo corpo. A forma perfeita se forma da alma e do coração da pessoa. Hello Kitsch!”  

♦ Como, onde, quando e por quê.

 

 

Minha história – até parece que sou velha haha. Eu não nasci em uma família super artística e criativa, mas era uma guria nerdinha que estava sempre rabiscando e contando estórias. Isso mudou um pouco com o tempo e passei a praticar e aprender costura, tendo ido pra Berlim estudar design de moda. Eu sempre quero estar num outro lugar, e quando chego, quero estar num outro de antes. Então agora estou em Londres cursando meu mestrado em Ilustração. Vamos ver por quanto tempo fico aqui.

 

Então eu sempre estive desenhando, mas durante o tempo em que estava estudando em Berlim conheci uma garota que, creio, me inspirou a desenhar mais particularmente nesse tema erótico. Eu acho que estava desenhando o que eu desejava. Era a urgência de encontrar esses sentimentos, mas minhas dúvidas sempre acabavam mudando o tema e no fim eu ainda desenho sempre o mesmo, por causa da minha falta de experiência.

♦ Te incomoda falar de sexo o tempo todo por causa das coisas que você desenha? 

 

 

Não, nem um pouco, embora eu não fale muito sobre sexo (exceto quando rolam fofocas sexuais com amigos). Não se fala sobre coisas das quais você não sabe quase nada.

 

 

 

♦ Como você descreveria a sua relação com os sujeitos que desenha? Quem são, e para onde vão depois que você os coloca no papel?

 

 

Eles são uma manifestação do meu estado interior no momento. E não vão a lugar nenhum, estão presos no papel junto com sentimentos e pensamentos. Eles não irão parar de questionar, mas suas visões podem e irão mudar. Então, mesmo que estejam presos no papel, nunca serão sempre os mesmos, são fluentes.

 

 

 

♦ Nem todos os seus desenhos são eróticos/sexuais, mas as pessoas te conhecem principalmente por esses. Como você se sente com relação a isso, como sendo um tipo de sex-symbol no mundo da ilustração?

 

 

Ai deus, eu nunca me vi como um ícone sexual na cena da ilustração, mas parece ótimo. No momento eu estou me debatendo com o fato de as pessoas me conhecerem principalmente por causa disso. Eu, certamente, adoro desenhar garotas nuas num estilo atrevido, sem dúvida nenhuma. Mas também sou reconhecida pelo meu estilo de desenho com grafite em preto e branco. Quero tentar coisas novas, mas parece que não consigo sair disso sem deixar de lado o meu estilo ou, melhor dizendo, a alma da minha arte.

♦ Qual é o seu processo de trabalho? Você trabalha com modelos vivos ou somente fotos?

 

 

Às vezes com modelos vivos – mais para encomendas privadas. Ou em sessões de observação. Mas geralmente uso fotos como referências, fazendo colagens com o photoshop para organizar a composição.

 

Eu adoraria trabalhar principalmente com modelos vivos! Seria incrível, eu convidaria toda as meninas graciosas para uma reunião de chá enquanto as desenhava.

 

 

 

♦ Qual é o seu meio favorito e como você se relaciona com o desenho digital?

 

 

Lápis de grafite – ainda. E isso ainda depende do meu humor e do que quero fazer. Gosto muito de aquarelas. Acrílicas também, embora eu precise praticar mais. Sou aberta para qualquer meio – exceto carvão e pintura digital. Não, não consigo me relacionar com a pintura digital de jeito nenhum, mesmo que sejam super boas e eu acabe gostando do estilo ou do tema. Quando eu sei que é digital, minha pira com a ilustração em questão encolhe uns 20%. Me sinto meio mal por escrever isso e eu sei o quanto trabalho e habilidade você tem que ter pra pintar digitalmente. Provavelmente eu ainda tenha a cabeça fechada com esse assunto – mas não ligo.

♦ Robert Crumb chegou a dizer que em sua juventude costumava se masturbar para os seus próprios desenhos. Você já sentiu algo assim?

 

 

Não, não com meus desenhos. Eles são muito elegantes e nem um pouco perversos – pelo menos pra mim. Quando quero me masturbar, a única arte que uso pra isso é o Hentai. Deve ser sujo e mau e ao mesmo tempo abstrato o suficiente para não parecer real. Porque de outro modo eu me sentiria frustrada e melancólica e não conseguiria mergulhar no modo de ‘mente em branco’.

 

 

 

♦ Você recebe muitos pedidos ou comissões para produzir retratos de pessoas que querem se ver através de sua linha?

 

 

Infelizmente não muitos. Pelo menos não em troca de dinheiro.

 

 

 

♦ Alguém já te ofendeu de verdade por causa do trabalho que você produz?

 

 

 

Houve uma vez um comentário do tipo “ah, então você desenha mulheres peladas procurando atenção também. Mesmo que o teu trabalho lembre coisas como Egon Schiele, você nunca vai provocar tal como ele o fez em seu tempo.” Eu me senti honrada quando viram Egon Schiele no meu trabalho, porque ele era grande e seu trabalho sempre foi muito honesto. E mesmo que eu não seja Egon Schiele (obviamente), meu trabalho é muito honesto. A pele nua é sempre pura e muito real. Você não pode esconder nada. E se alguém diz que eu apenas desenho mulheres nuas para conseguir atenção, essa pessoa sugere que mulheres nuas são ofensivas, provocantes e sedutoras. Sim, a última palavra pode ser verdade às vezes. Mas como eu disse antes, a pele nua é pura e honesta, você não pode esconder emoções. Então minhas mulheres não são provocantes, são honestas e vulneráveis e fortes e muito mais ao mesmo tempo.

 

Então sim, esse comentário foi realmente ofensivo para mim (você percebeu, né?)

♦ Como as pessoas reagem ao seu trabalho? Parece inesperado – ou exagerado – às vezes?

 

 

Nunca é exagerado. Mas inesperado sim, mais para surpreendentemente bom. Na maioria das vezes essas mensagens chegam do nada. E daí chegam estranhos me contando sobre suas próprias histórias e como o meu trabalho os influenciou ou ajudou. É sempre emocionante ler isso com um “uau” no pensamento, sobre como esses estranhos dividem suas histórias e sentimentos profundos com você. Sou muito grata por isso.

 

 

 

♦ Albrecht Dürer disse: “Não há homem na terra que possa dar um julgamento final sobre qual deve ser a forma mais bela. Apenas Deus sabe.” Comente por favor, e conte-nos o que você descreveria como sendo a mais bela e perfeita forma.

 

 

Dürer com certeza estava certo sobre isso. Exceto na parte de Deus – que não sabe porra nenhuma, como todos nós.

 

Pessoalmente, eu gosto de curvas macias com algumas falhas aqui e ali pelo corpo. A forma perfeita se forma da alma e do coração da pessoa. Hello Kitsch!

 

 

♦ Quem são suas principais influências e heróis?

 

 

Egon Schiele, Gustav Klimt, Jamie Hewlett, Laura Callaghan, Riikke Sormunen, Takato Yamamoto, Hayao Miyazaki, Lady Gaga, Michael Ende (sim, os dois últimos não são ilustradores, mas meus heróis mesmo assim).

♦ Como você se sente a respeito de ser marcada como um símbolo lésbico? Você está engajada com algum tipo de movimento?

 

 

Me sinto honrada, porque não sou politicamente ativa, e há muita gente que realmente está lutando pelas suas vidas e direitos, e elas são símbolos verdadeiros.

 

 

 

♦ Você imaginava que seus desenhos fariam esse sucesso? Porque você acha que eles atraem tanto o público em geral? 

 

 

Na verdade eu não diria “sucesso”. Sim, tem muita gente que curte a minha arte, mas eu ainda não posso viver a partir dela. Talvez um artista não devesse pensar assim. Mesmo que apenas uma pessoa goste da sua arte (e que não seja seu familiar), você deve sentir como sendo um sucesso. Se você, como artista, termina um trabalho e está praticamente satisfeito com o resultado, deve se sentir bem sucedido. Pensamento romântico, quem estamos querendo enganar…

 

Não sei dizer o porquê, mas acho que muita gente consegue se relacionar com alguns pensamentos e emoções que eu ilustro. E minhas ilustrações não são exatas, elas são vagas. Há muito espaço, que acaba sendo completado pelo observador com suas próprias histórias e interpretações.

♦ Que obra de arte alheia você modificaria sem pestanejar?  

 

 

Talvez um desses atuais trabalhos abstratos, que você não pode separar um do outro. Eu queria, secretamente, adicionar mais umas pinceladas e ver se algum espectador notaria a diferença.

 

Mas tirando isso, eu nunca modificaria um trabalho artístico. É a maneira pela qual um artista expressa a si mesmo e a sua visão de mundo. Se você modificar o seu trabalho, como que modifica a pessoa viva em si. Parece bastante dolorido.

 

 

 

♦ Quais são as suas referências culturais?

 

 

Eu não costuma usar muitas referências culturais. Pelo menos não que eu saiba. Talvez subconscientemente. Talvez a cultura pop, porque sempre sou inspirada por letras de músicas para trabalhar. A mesma coisa com livros. Isso conta?

♦ Fale sobre os seus projetos futuros.

 

 

Estou atualmente trabalhando numa pintura para a mostra Girl Power Art no México.

Também tenho que me decidir sobre o que será o meu projeto de Mestrado. E eu não esqueci do projeto Body Insecurity, apenas não achei a maneira certa de realizá-lo. Ironicamente, estou muito insegura sobre a execução desse projeto, porque não quero desapontar quem participou dele.

 

 

 

♦ Existe algo que você sempre quis responder e nunca te perguntaram? Se sim, por favor responda. =)

 

 

Ultimamente tem sido muito relevante: você está insatisfeita com o plot twist que o mangá Ataque dos Titãs sofreu?

 

 

Sim, definitivamente estou!


English Version

How, where, when and why.

 

My history – sounds like I am that old haha. I wasn’t born into a super creative artistic family, but I was a nerdy little girl, who always was scribbling and telling stories. It changed a little over time and I’ve started practicing and learning sewing and went to Berlin studying fashion design. I always want to be somewhere else, after I get there where I wanted to be before. So now I am in London doing my MA in illustration. We will see how long I will be here.

So I was always drawing, but in the time, when I was studying in Berlin, I met a girl and I guess she inspired me a lot in starting to draw in this particular erotica theme. I guess I was drawing what I desired. It was the urge to go for these feelings, but doubts changed the theme and in the end I still draw the same, because of my lack of experience.

 

Does it bother you to talk about sex all the time because of what you draw? 

 

No not at all, although I really don’t talk that much about sex (except gossip sex talk from friends). Don’t talk about things you almost know nothing about.

 

How would you describe your relationship with the subjects you draw? Who are they, where do they go after you put them on paper?

 

They are the manifestation of my current inner state. And they are going nowhere. They are stuck on the paper, with these feelings and thoughts. They won’t stop questioning, but their views can change and will. So even if they are stuck on the paper, they are never the same, they are fluent.

 

Not all of your drawings are erotic/sexual, but people know you mainly for those. How do you feel about that, like being a sex-icon in the world of illustration?

 

Oh gosh, I never saw myself as a sex-icon in the illustration scene, but it sounds great. Currently I am struggling with that people mainly know me for this. I totally enjoy drawing naked girls in a bold style, no doubts here. But they also mainly know me for my black and white graphite pencil style. I want to try new things, but it feels like I can’t get out of this without giving up my style or more the soul of my art.

 

What is your process of work? Do you work with live models or only pictures?

 

Sometimes with live models – mostly for private commissions. Or joining life drawing sessions. But yes mostly using photos as references, doing collages with photoshop to arrange the composition.

I would love to work most of the time with live models! This would be awesome, I would invite all lovely girls to a tea party while drawing them.

 

What is your favorite media and how do you relate to the digital drawing?

 

Graphite pencil – still. And then it depends on my mood and what I wanna do. I really enjoy watercolors. Acrylics are also nice, although I need more practice with it. I am pretty much open for any media – except charcoal and digital painting. No, I can’t relate to digital drawings at all, even if they are super good and I actually like the style and motive. When I know it’s digital, my hype about this illustration shrinks at least 20%. I am feeling kind of bad writing this and I know how much work and skill you must have to paint digital. I am probably small-minded about this – don’t care anyway.

 

Robert Crumb once said that in his youth he used to masturbate to his own drawings. Did you ever feel something like that?

 

No, not with my drawings. They are too elegant and not naughty at all – at least for me. When I want to masturbate, the only art I masturbate to is Hentai. It has to be dirty and bad and at the same time abstract enough to not feel like reality. Because otherwise I would feel frustrated and melancholic and couldn’t dive into the ‘blank mind’ mode.

 

Do you receive many requests or commissions to produce portraits of people who want to see themselves through your line?

 

Sadly not that many. At least not for money.

 

Has anyone ever really offended you because of your work?

 

There was one comment once like “oh so you draw naked women for attention seeking, too. Even if your style reminds people of Egon Schiele, you will never provocate like he had in his time.” I am feeling honoured, when people see Egon Schiele in my work, because he was great and his work was always honest. And even if I am not Egon Schiele (obviously) my work is very honest. Bare skin is always pure and very real. You cannot hide anything. And if someone says I am only drawing naked women, because I am seeking for attention, he implies that naked women are offensive, provocative and seductive. And yes, the last word might be true sometimes. But like I said before, naked skin is pure and honest, you can’t hide emotions. So my women aren’t provocative, they are honest and vulnerable and strong and so much more at the same time.

Okay so yes, this one comment was really offensive to me (you already guessed, right?).

 

How do people react to your work? Does it seem unexpected – or exaggerated – sometimes?

 

Never exaggerated. But unexpected or more like surprisingly good. At most of the times, these messages are coming out of the blue. And then strangers are telling me there own story and how my work has influenced or helped them. It is always very heartwarming to read with a “wow” in my mind, that these strangers sharing their personal and deep thoughts and stories with you. I am very grateful for this.

 

Albrecht Dürer said, “There is no man on earth who can give a final judgment on what the most beautiful shape may be. Only God knows.” Please comment and tell us what you would describe as being a beautiful and perfect shape.

 

Dürer was definitely right about this. Except the God part – God knows shit, like all of us.

Personally spoken I like soft curves with some flaws here and there on the body. The perfect shape shapes itself from the soul and heart of the person.​  ​Hello Kitsch!

 

Who are your main influences and heroes?

 

Egon Schiele, Gustav Klimt, Jamie Hewlett, Laura Callaghan, Riikke Sormunen, Takato Yamamoto, Hayao Miyazaki, Lady Gaga, Michael Ende (yes, the last two aren’t illustrators, but my heroes anyway).

 

How do you fell about being flagged as a lesbian symbol? Are you engaged to any kind of movement?

 

I kind of feeling honoured, because I am not politically active and there are so many people who are really fighting for their lives and rights and who are the real symbols.

 

Did you ever anticipate the success of your drawings? Why do you think they are so appealing to the public in general? 

 

Actually I wouldn’t say success. Yes, there are a lot of people who like my art, but I still can’t live from it. Maybe an artist shouldn’t think like this. Even if only one person likes your art (which is not from your family), you should feel like it’s a success. If you, as an artist, finish an artwork and are almost satisfied with the result, you should feel successful. Romantic thinking, who are we kidding.

I can’t really say why, but my guess is that a lot of people can relate to some thoughts and emotions I am illustrating. And my illustrations aren’t that exact, they are vague. There’s a lot of space, which can be filled by the viewers own story and interpretation.

 

Which work of art would you modify without thinking twice?

 

Maybe one of those current abstract artworks, which you cannot keep apart from one another. I would like to secretly add some more brush strokes and see if any viewer can tell the difference.

Besides from this, I never would modify an artwork. It’s how an artist expresses themselves or his view of the world. If you modify his work, you kind of modify the living person itself. And this sounds quite painful.

 

What are your main cultural references?

 

I don’t really use cultural references. At least not that I know. Maybe subconscious. Maybe pop culture, because I am always getting inspired by song lyrics and using them in and for my art. Same with books. Does this count?

 

Please tell us about your future projects.

 

I am currently working on a painting for the Girl Power Art show in Mexico.

Also I have to think and decide about my Master project will be. And I haven’t forgotten about the Body Insecurity project, I just haven’t found the right way to realize it. Ironically I am very insecure about the execution of this project, because I don’t want to disappoint anyone who participated.

 

Is there something you always wanted to answer and nobody ever asked you? If yes, please do answer it. =)

 

Lately very relevant: Are you unsatisfied with the plot twist from the Attack on Titan manga? 

 

Yes I definitely am!

vinicius.rnott@gmail.com

<p>Doutorando em Estudos Literários pela UFPR. Tradutor. Estudante da literatura grega antiga. Autor de artigos científicos que ninguém nunca vai ler. Escritor. Autor do livro de contos ‘Razões do agir de um bicho humano’, publicado pela Confraria do Vento em 2015. Curioso do desenho e da fotografia. Nunca um entusiasta.</p>

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