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Interrogando José Bassit

“O branco e preto te tira um pouco da realidade que vivemos, e te coloca num mundo onde tudo pode acontecer. Cor é a realidade.”

 

  • Como, onde, quando e por quê?

 

Comecei a fotografar na época da faculdade de jornalismo, que terminei em 1980. Depois disso, passei um ano na Inglaterra, onde descobri que eu seria fotógrafo mesmo. Fiz meu primeiro ensaio, chamado The London Underground, sobre o fascinante metrô de Londres, que me deu um prêmio aqui no Brasil e diversas exposições, inclusive no metrô de SP, na estação de Santa Cecilia.

Depois que voltei, levei meu trabalho para o jornal O Estado de São Paulo, onde fiquei por 7 anos.

Trabalhei na grande imprensa por 15 anos, até minha primeira viagem para Juazeiro do Norte. Lá eu vi que queria fotografar o povo do Brasil e sua religiosidade. Trabalhava de freelancer em algumas edições, e usava todo o dinheiro para financiar as viagens atrás das festas religiosas. Foram 5 anos e 27 viagens por todo o Brasil.

A recompensa foi a edição do livro Imagens Fiéis, pela Cosac&Naify, em 2003.

Depois disso, comecei a fazer projetos pessoais sobre diversos temas. Meu último ensaio é sobre o Baixo Augusta, bairro boêmio de São Paulo.

  • De onde veio o ímpeto em registrar cenas de fiéis e também de diferentes rituais religiosos em distintas partes do Brasil?

 

Veio da minha primeira viagem a Juazeiro do Norte, quando fui fotografar a festa de finados. Não acreditei no que vi. Tanta gente humilde pedindo e pagando promessas ao Padre Cícero me emocionou de tal maneira que resolvi, com dicas de outros fotógrafos, onde iria encontrar manifestações religiosas como aquela. E encontrei tantas outras como a de Juazeiro pelo Brasil afora.

 

   

  • Você é uma pessoa religiosa? De que maneira esse trabalho te atinge?

 

Sou católico desde criança, mas nunca fui praticante até começar o trabalho do Imagens Fiéis. Aprendi que tem sim algo maior que nos protege. Hoje em dia frequento a igreja para agradecer e pedir bênçãos sempre que posso.

 

 

  • Fotografia documental, fotografia de rua, fotojornalismo, arte. Existe, para você, diferença entre tudo isso? Você se considera uma coisa, ou outra?

 

Para mim existe. O trabalho de jornalismo é pontual. No dia seguinte a foto esfria e você parte para outra matéria.

Atualmente me considero um fotógrafo documental. Acho um tema e tento me aprofundar tudo que der. Para isso, não existe tempo para o término e você consegue contar a sua história.

 

 

  • Qual é a sua relação com o sujeito fotografado?

 

De maior respeito possível.

 

 

  • Além das cenas ligadas ao universo religioso, o que mais atrai o seu olhar enquanto fotógrafo?

 

Tudo me atrai, desde que me interesse. As histórias estão ai parta serem contadas. Mas gosto muito de festas e rituais religiosos, pois a fé move o Brasil.

 

  • Boa parte do seu trabalho está em preto e branco, embora exista uma valiosa parte em colorido – como por exemplo algumas fotografias de mercados populares. Fale sobre suas técnicas e preferências dentro do seu estilo.

 

Costumo identificar o que vou fotografar na hora. Tem trabalho que é cor, e tem trabalho que é P&B. O branco e preto te tira um pouco da realidade que vivemos, e te coloca num mundo onde tudo pode acontecer. Cor é a realidade.

 

 

 

  • Existem diferenças entre a recepção do seu trabalho dentro e fora do país? O que você, como autor, diria do nosso cenário cultural – e fotográfico?

 

Acho que passamos o melhor momento para a fotografia que eu já vi. Apesar do grande numero de fotógrafos que surgiu, o mercado também se aqueceu bastante.

O mercado de fotografia de arte cresceu bastante, dando uma nova fonte de renda para os fotógrafos.

vinicius.rnott@gmail.com

Doutorando em Estudos Literários pela UFPR. Tradutor. Estudante da literatura grega antiga. Autor de artigos científicos que ninguém nunca vai ler. Escritor. Autor do livro de contos 'Razões do agir de um bicho humano', publicado pela Confraria do Vento em 2015. Curioso do desenho e da fotografia. Nunca um entusiasta.

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