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Interrogando Ethan Murrow

Imagem: Grand Rue, 2010

Interrogamos neste mês o artista norte-americano Ethan Murrow, criador de paisagens, espaços e estranhos personagens feitos em grafite. Mergulhe nesse mundo e visualize os contos desse fabuloso storyteller.


“Eu me importo muito com as contendas de poder nas quais estamos todos envolvidos, mas também vejo que muito do que fazemos sobre essa terra parece ridículo quando contrastado à pura estrutura sólida da rocha, das nuvens, do oceano, etc. Acredito na importância da risada na face da inevitabilidade.”

 

♦ Como, onde, quando e por quê?

 

 

Eu cresci numa pequena e modesta fazenda de ovelhas administrada por professores e escritores num pedaço bastante rural de Vermont (na região nordeste dos EUA). Isso significou que, quando eu era criança, passei muito tempo ao ar livre, trabalhando na fazenda e explorando as matas. Muito do meu amor por paisagens, espaços vastos, exploração e invenção vem dessas experiências. Meu irmão e eu fizemos também muitas coisas estúpidas. Há diversas maneiras de se meter em confusão numa fazenda, como, por exemplo, agarrando-se num trenó que está preso na traseira de uma caminhonete e dirigindo através dos bosques em velocidade máxima. Talvez o meu amor pelo que é idiota e absurdo vem de momentos como esse. Agora eu faço

trabalhos que lidam com a linha tênue entre o tolo e o gênio, e situações que examinam a frágil, absurda e intratável realidade dos nossos próprios passos em falso sobre a terra e entre um e outro. Eu culpo meus pais e avós por praticamente tudo, num bom sentido. Uma longa história de amor com o jornalismo, a escrita, a educação, bem como os valores e filosofias que acompanham essas profissões, definem a minha família e, como resultado, também o meu trabalho. Eu ligo para discursos de dentro do mundo da arte, mas frequentemente dou mais importância para conexões literárias ou históricas. Por exemplo, o livro Moby Dick, de Herman Melville, influenciou mais o meu trabalho do que qualquer outro texto, fonte ou conversa. Eu também estou profundamente comprometido com o trabalho e ofício, fazendo ambos no meu método e contentamento. Como resultado, meus desenhos são intencionalmente épicos, até obsessivos em sua construção, que filtra os cenários e personagens que os habitam. Muito disso vem das experiências da minha infância e também dos meus mentores. Esses indivíduos eram rígidos e bem estruturados, e me ajudaram a entender que a prática da repetição e treinamento assentam a base para um desenvolvimento conceitual.

♦ Como você define o seu trabalho? E por que o faz?

 

 

Mais do que tudo eu luto para ser um contador de histórias. Me custou muito tempo para estar confortável com isso e entender que a natureza da ‘história’ é muito maior do que um estereótipo de suavidade ou doçura. Meu trabalho é definido pelas quietas absurdidades humanas em paisagens imensas e sonoras. Eu me importo muito com as contendas de poder nas quais estamos todos envolvidos, mas também vejo que muito do que fazemos sobre essa terra parece ridículo quando contrastado à pura estrutura sólida da rocha, das nuvens, do oceano, etc. Acredito na importância da risada na face da inevitabilidade. Como resultado, meus desenhos e projetos investigam profundamente os momentos de caos e perigo, mas ali também espero encontrar o cômico e o irônico inerentes. As narrativas nos ajudam a entender quem somos, e essa, no final, é a simples e também grande razão pela qual eu faço o que faço.

 

 

 

♦ Sobre os materiais, você usa principalmente o grafite. Por quê?

 

 

Eu voltei primeiro para o desenho (vindo da pintura e escultura) como um meio de construir conexões às fotografias de filmes às quais eu fazia referência em projetos que se modelavam em exploradores como Shackleton e contadores de histórias como Charlie Chaplin. Isso ainda me importa e está evidenciado no meu trabalho. Toda vez que eu penso estar avançando e deixando o grafite ou o desenho, encontro novas maneiras de estabelecer desafios para mim mesmo e retorno de novo e de novo para esse meio plano e mínimo. A intensa repetição de se construir marcas semanas após semanas me dão tempo de analisar o conteúdo, e eu amo esses momentos de investigação. Ademais, é uma abordagem simples e sem afetações que coloca a imagem no primeiro plano do trabalho.

 

♦ Quem são os seus personagens, e de onde eles vêm?

 

 

Ultimamente os personagens têm se tornado muito mais anônimos ou têm desaparecido completamente, e eu tenho me remetido a grupos de pessoas ou figuras que estão fora de foco e envolvidas com um trabalho ou um problema. Se algo acontece, afeta a todos eles. Antes os personagens eram uma parte central do meu trabalho e eu estava particularmente interessado em um diálogo autodepreciativo a respeito de buscas com o objetivo único de alcançar luxúrias e glórias solitárias. Esses ainda são fatores importantes para mim, mas eu queria tirar a atenção do indivíduo para que as ações nos desenhos colocassem mais peso num coletivo. Minhas fontes variam de maneira vasta, mas acho que vêm todas de livros e filmes; desde os trapalhões idiotas de Asterix (o quadrinho francês) até narrativas ficcionais como os mistérios de Agatha Christie, indo até figuras históricas, como o presidente Lincoln e o Chefe Seattle, dos nativos americanos Duwamish.

 

 

 

♦ Qual é a recepção do público ao seu trabalho?

 

 

Na verdade isso depende da exposição e dos objetivos de cada projeto. Parte das razões pelas quais eu comecei a desenhar em paredes com canetas esferográficas e marcadores era por querer mudar o discurso do meu trabalho. Por exemplo, na Bienal deCordova, há dois anos, eu construí um desenho numa parede de três andares que discutia a tortura e a história da fome de poder dos Estados Unidos por via marítima. Centenas de desenhinhos de canoas, cargueiros, torpedeiros e submarinos acompanhados por uma história tagarela e teimosa em texto. Esse projeto intentava ser uma história subjetiva que funcionasse como um livro. Deveria ser lida e discutida, e como resultado isso acabou sendo muito diferente de vários dos momentos fantásticos de imaginação em que eu me ponho a pesquisar entre os meus trabalho no papel.

 

♦ Quais são seus projetos futuros?

 

 

Há um grande projeto vindo no verão de 2015, uma história múltipla desenhada na parede do Institute of Contemporary Art, em Boston, que lidará com o aumento dos níveis de água do oceano. Esse desenho será feito num tipo de átrio no caminho de entrada do museu, e eu estarei construindo-o diante do público enquanto entram e saem. Estou ansioso pelas questões e críticas informais que possam surgir dessa interseção entre o fazer e o público. Eu acho que curto esse tipo de pressão e o peso colocado nos meus ombros de performar e assumir responsabilidade pelo meu trabalho e conteúdo. Também abrirei uma nova exposição de desenhos em La Galerie Particulière em Paris, em dezembro.

 

♦ Maiores influências e heróis?

 

 

Além de alguns heróis literários e fílmicos que já mencionei, eu somaria alguns artistas com os quais eu vivo frequentemente obcecado: Francisco Goya, pela sua habilidade em confrontar as realidades da guerra com honestidade; Toba Khedoori, por sua habilidade em se destilar ao essencial enquanto faz algo massivo e glorioso com papel e imagem; e James Turrell, que cria espaços arquiteturais para a contemplação da luz, do céu e do lugar, e que parecem democráticos e distintos das discussões cerebrais de boa parte do mundo da arte. E finalmente, anuncio também a minha esposa, Vita Murrow, que tem trabalhado comigo através de anos. Aprendi muito com ela a respeito de estrutura, de linguagem falada direta e clara, e da necessidade de clareza dentro do absurdo. Ela é minha editora e colaboradora, e nada desse trabalho seria possível sem a sua crítica aguda. A colaboração com Vita e com outros me mantém (de certo modo) humilde e honesto, encorajando o esquisito.

 

 

 

♦ Alguma consideração final? =)

 

 

Obrigado pela oportunidade!


English Version

♦ How, where, when and why.

 

 

I grew up on a small unprofitable sheep farm run by teachers and writers in a very rural part of Vermont (northeastern part of the US). As a kid, this meant I spent a lot of time outside, working on the farm and exploring in the woods. Much of my love of landscape, deep spaces, exploration and invention come from these experiences. My brother and I also did a lot of stupid stuff. There are lots of ways to get in trouble on a farm, holding onto a sled attached to the back of a pickup truck and driving through the woods at top speed comes to mind.  Perhaps my love of the idiotic and absurd comes from moments like this. Now, I make work that deals with the tender line between the fool and the genius and situations that examine the fragile, absurd and intractable fact of our own missteps upon the land and amongst one another. I blame my parents and grandparents for practically everything, in a good way. A long love affair with journalism, writing, education and the values and philosophies that run parallel to these professions define my family and as a result, my work. I care about discourses within the art world, but I frequently place more weight upon literary or historical connections. For example, the book Moby Dick by Herman Melville has influenced more of my work than any other text, source material or conversation. I’m also deeply committed to the labor and craft of making both in my method and content. As a result my drawings are intentionally epic, even obsessive in their construction and this filters into the scenarios and characters that inhabit them. This comes as much from my childhood experiences as it does from the mentors. These individuals were tough and structured and helped me understand that repetitive practice and training lays the groundwork for conceptual development.

 

 

♦ How would you define your work? And why do you do it?

 

 

More than anything I strive to be a storyteller. It it took me a long time to become comfortable with this and understand that the nature of “story” is much bigger than a stereotype of softness or sweetness. My work is defined by quiet human absurdities in loud and big landscapes. I care deeply about the power struggles we are all involved in,  but I also see that much of what we do upon this earth looks ridiculous up against the sheer massiveness of rock, cloud, ocean and so on. I believe in the importance on laughter in the face of inevitability. As a result, my drawings and projects delve deeply into moments of chaos and danger but I also hope to find the funny and ironic within. Narratives help us understand who we are and this, in the end, is the simple yet big reason I make what I do.

 

 

♦ About materials, you use mainly the graphite. Why?

 

 

I first returned to drawing (from painting and sculpture) as a way to build connections to the films photographs I was referencing in projects that sampled from explorers such as Shackleton and storytellers like Charlie Chaplin. That still matters to me and is evidenced within the work. Every time I think I’m going to move on from graphite or drawing I find new ways to set up challenges for myself and so I return again and again to this plain and minimal medium. The intense repetition of building marks over weeks and weeks gives me time to analyze the content, and I love these moments of investigation. Plus, it’s a simple and no frills approach that puts the image at the forefront of the work.

 

 

♦ Who are your characters, and where do they come from?

 

 

Lately the characters have become much more anonymous or have disappeared altogether and I have been referring to grouping of people or figures that are out of focus and involved with a job or problem. If something happens, it will effect them all. Previously, character was a central part of my work and I was particularly interested in a self-deprecating conversation about single minded pursuits and a lust for solitary glory. These are still important factors to me, but I wanted to take the attention away from the individual so that the actions within the drawings put weight on a collective people. My sources range widely but I suppose they all come from books and films; from the bumbling idiots within Asterix (the French comic) to fictional narratives such as Agatha Christie’s mysteries and then on to historical figures such as President Lincoln and the Duwamish Native American Chief Seattle.

 

 

♦ What is the public reception to your work?

 

 

Ideally that depends on the exhibition and the goals of the various projects. Part of the reason I started building wall drawings in ball point pen and sharpie was to change the discourse within my work. For example, at the deCordova Biennial two years ago I built a huge three story wall drawing that discussed the tortured and power hungry history of the United States via watercraft. Hundred of tiny drawings of canoes, freighters, destroyers and drug subs accompanied by a chatty and opinionated history in text. This project was meant to be a subjective history and function like a book. It was meant to be read and argued with and as a result was very different from some of the fantastical moments of wonder that I often have delved into within my works on paper.

 

 

♦ What are your future projects?

 

 

A big project I have coming up int he summer of 2015 is a multi story wall drawing at the Institute of Contemporary Art in Boston that will deal with rising water levels in the ocean. This drawing will be made in the atrium-like entry-way of the museum and I will be building it in front of the public as they stream in and out. I’m looking forward to the informal questions and critiques that might arise from this intersection of making and the public. I guess I enjoy this kind of pressure and the weight it puts on my shoulders to perform and take responsibility for my content and work. I will also open a new show of drawings at La Galerie Particuliere in paris in December.

 

 

♦ Greatest influences and heroes?

 

 

Beyond some of those literary and filmic heroes already mentioned I would add a few artists I’m currently and frequently obsessed with: Francisco Goya, for his ability to confront the realities of war with honesty, Thoba Khedoori for her ability to distill down to an essential while doing something massive and glorious with paper and image and James Turrell who creates architectural spaces for the contemplation of light, sky and place that feel democratic and distinct from the cerebral discussions of much of the art world. Finally, I have to give a shout out to my wife, Vita Murrow, who has been making work with me off and on for years. I’ve learned a tremendous amount from her about structure, direct and plain spoken language, the need for clarity within the absurd. She’s my editor and collaborator and none of this work would be possible without her sharp critique. Collaboration with Vita and with others keeps me (somewhat) humble  and honest and encourages the weird.

 

 

♦ Something else you’d like to add? =)

 

 

Thanks for the opportunity!

vinicius.rnott@gmail.com

Doutorando em Estudos Literários pela UFPR. Tradutor. Estudante da literatura grega antiga. Autor de artigos científicos que ninguém nunca vai ler. Escritor. Autor do livro de contos 'Razões do agir de um bicho humano', publicado pela Confraria do Vento em 2015. Curioso do desenho e da fotografia. Nunca um entusiasta.

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