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Interrogando Eric Yahnker

Entrevistamos o desenhista norte-americano Eric Yahnker, que já trabalhou na produção de programas de TV como South Park e Seinfeld, mas que na verdade é autor de monumentais obras cômicas e satíricas feitas em lápis de cor

“O que significa o riso numa obra de arte? É melhor do que um peido, eu acho.”

  •         Como, onde, quando e por quê.

 

 

          Enquanto eu crescia em South Torrance, California, parecia que eu era o único judeu numa terra que vivia em torno do Natal. Dá pra dizer que a minha família é tão decente e pirada como qualquer família americana; uma garagem empilhada com produtos Amway que não foram vendidos, uma dose saudável de débito e dúvida, um equilíbrio vacilante de ignorância, compaixão, rusticidade, educação, artifício e malícia. Quando adolescente, não lembro de ter uma certeza absoluta do que ia fazer com a minha vida, além de tentar, sem nenhum sucesso, fazer com que meus poros parassem de cultivar espinhas. De algum jeito, depois de ganhar uns prêmios de escrita no segundo grau, acabei entrando na única faculdade a que me candidatei, a USC (University of South California), e me formei em Jornalismo. Dois anos depois eu já tinha me transformado completamente em um desses babacas de fraternidade, virando barris de cerveja, trotando calouros e caçando vaginas como um guarda de fronteiras caça búfalos. Acabei tendo que tirar um ano de hiato dessa vida no palácio do Calígula para arranjar algum dinheiro para pagar o ensino, trabalhando com vendas em período integral, enquanto resetava o meu disco rígido, voltava à sobriedade, e me livrava da besteirada das requisições da educação básica numa faculdade local da comunidade, por cerca de $30.000. Lá, decidi fazer aulas de desenho só pra tirar uma onda, e minha professora surtou, dizendo que eu tinha capacidade de entrar no CalArts’ Character Animation Program (Programa de Animação de Personagens). Fiquei muito excitado com isso, já que nunca tinha tido nenhum tipo de encorajamento desse tipo antes. Me candidatei, entrei, e passei a próxima década dedicado à animação, trabalhando em projetos como South Park, MADtv e Seinfeld. No entanto, quando a maior parte das animações passou oficialmente ao meio digital e era feita quase exclusivamente por computadores, mirei um campo que ainda tinha espaço para animadores habilidosos e que trabalhassem manualmente – comerciais de TV. Como era de se esperar, isso acabou virando um exercício desalmado e medonho na mediocridade da piadinha. No fim de 2004 eu larguei tudo, aluguei um estúdio e comecei a fazer qualquer merda. Comecei com esculturas trabalhosas, inspirado pela Arte Povera (raramente eu mostro esses trabalhos, mas alguns ainda podem ser vistos no meu website). Em 2007, posso dizer que passei por autoflagelação suficiente, e afortunadamente voltei ao meu primeiro amor, desenho e comédia. Esse tem sido o esteio da minha prática desde então.

  •           Humor, sarcasmo, androginia, e muitas celebridades: como você escolhe os seus temas?

 

          Eu apenas me atenho ao que me anima. Minhas exposições solo geralmente se constroem em torno de uma única tese ou espinha conceitual onde eu penduro a carne cômica, o que costuma envolver eventos atuais e o estado sociopolítico do estado.

 

  •           Como as pessoas reagem ao seu trabalho? Alguém já se ofendeu com o que você faz?

 

          Eu espero que alguém se ofenda! Se o trabalho não é odiado por ninguém, então eu sou apenas um outro bostão tedioso que cria trabalhos para combinar com a porra da cortina. Mas também não é o meu objetivo ser um cara ultrajante que venda um trabalho fácil. Por exemplo, não vou desenhar o Profeta Maomé só com a intenção de causar umas hemorroidas flamejantes. Isso é muito fácil, e muito burro.

 

  •           Fale sobre os seus materiais. Por que você trabalha com lápis de cor? E ainda, qual seria o valor disso frente a ferramentas como o Photoshop, por exemplo?

 

          Eu apenas curto usar a ponta afiada de um pauzinho pontudo. Isso me dá o controle que desejo ter. A pintura faz muita sujeira e a colagem por Photoshop é muito mundana. Embora eu talvez fosse classificado como um foto realista, eu quero conscientemente que o meu trabalho mantenha uma qualidade de feitura à mão, que seja algo mais perto de um desenho que de uma fotografia. 

  •           Políticos, cultura-pop, marcas famosas. O que você tenta sublinhar exatamente quando põe tudo isso junto?

 

          Eu não procuro martelar a cabeça das pessoas com mensagens específicas, mesmo que elas existam de fato no trabalho. Sou um satirista, e a minha abordagem geralmente gira em torno dos meandros ferrados da língua inglesa, e da idiocracia retardada e bêbada da qual todos participamos. Tal como dizem vários autores, “escreva o que você sabe”, na melhor das hipóteses eu estou simplesmente explorando o território com o qual estou mais familiarizado. Todos os americanos têm uma poltrona na primeira fila para ver a nossa colisão em câmera lenta com algum iceberg proverbial. Alguns escolhem documentá-lo, outros apenas mudam de canal para ver as Kardashians.

 
  •           Qual é o seu processo criativo?

 

          Se eu estiver trabalhando numa exposição individual, arranjo uma planta do espaço e começo a moldá-la mentalmente, tentando achar algum tipo de equilíbrio físico e conceitual. Em geral eu sei exatamente o que fazer com todo o espaço antes de começar um trabalho. Às vezes as coisas se reviram um pouco nos vários meses necessários para preparar uma exposição solo, mas posso passar um mês ou mais apenas mentalizando antes de colocar um lápis no papel.

  •           As mulheres peladas interagindo com as suas imagens são uma parte do seu trabalho?

 

          Eu fotografei uma modelo nua posando com o meu trabalho para a exposição ‘Ebony & Benghazi’ na Ambach & Rice em L.A., lá em 2013. Fiz isso apenas uma vez, e, pra ser honesto, eu apenas estava tentando atravessar todo esse barulho que existe online para fazer as pessoas olharem a droga da exposição. Felizmente ou infelizmente, uma mulher nua sempre será uma ‘isca de clicks’. Acho que funcionou, mas não tenho certeza de que faria isso de novo.

 

  •           O que significa o riso numa obra de arte?

 

          É melhor do que um peido, eu acho. Ultimamente, qualquer reação, boa ou ruim, significa que o trabalho está se conectando em um nível visceral. Quase tudo no universo é ignorado, então ter alguém que tome alguns segundos preciosos para se conectar com um trabalho artístico é realmente uma dádiva.

 

  •           Revendo a sua carreira, o que mudou desde o início até agora?

 

          Acho que a cada ano eu me movi um pouco mais perto de saber o que realmente importa e o que é besteira. Eu costumava ficar todo enredado nesse nonsense do mundo da arte. Meu cérebro está mais engrenado para jogos que possuem regras definidas, mas acabei aceitando que, na verdade, não há nenhuma.

  •           Quais são seus projetos futuros?

 

          Tenho duas exposições individuais em 2016. Em fevereiro, no Zevitas Marcus em Los Angeles, e em maio no The Hole, New York City.

 

  •           Maiores influência e heróis?

 

          Eu apenas aprecio a autenticidade no fazer artístico, ou qualquer coisa não relacionada ao crime. Dá pra farejar quando um artista está sendo insincero ou fazendo algo pelas razões erradas. Costumo amar artistas que passam a carreira toda se desprendendo da crítica e sendo fieis à sua munição intelectual ou cômica. Lembrando rasamente, estou pensando no geral em humoristas e diretores como Mel Brooks, Woody Allen, Don Rickles, Andy Kaufman, The Three Stooges, Marx Brothers, & Jacques Tati.

 

          Eu também já estive sutilmente interessado em quadrinhos políticos no passado, e tinha bastante afinidade com Paul Conrad, do L.A. Times. 

 

  •           Existe algo que você sempre quis responder e nunca te perguntaram? =)

 

          Sim. 

          P: Por que você é um amante tão formidável?

          R: Eu não sei. É um dom. 

Site oficial: http://www.ericyahnker.com/

vinicius.rnott@gmail.com

Doutorando em Estudos Literários pela UFPR. Tradutor. Estudante da literatura grega antiga. Autor de artigos científicos que ninguém nunca vai ler. Escritor. Autor do livro de contos 'Razões do agir de um bicho humano', publicado pela Confraria do Vento em 2015. Curioso do desenho e da fotografia. Nunca um entusiasta.

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