Revista virtual de arte e cultura

Home / Interrogatório  / Interrogando Arnaldo Branco

Interrogando Arnaldo Branco

“Eu queria estar falando de Adriano Imperador, Miss Bumbum, Masterchef, qualquer outra coisa.”

  • Como, onde, quando e por quê.

 

Arnaldo Branco, carioca, 1972, Flamengo, era Zico, tragédia do Sarriá, metaleiro, faculdade de jornalismo, balconista de locadora depois de formado em jornalismo, quadrinhos na internet, Capitão Presença, Mundinho Animal, roteirista, dores nas costas.

 

  •  Uma frase de Watchmen, de Alan Moore, diz: “A partir do momento em que você percebe que tudo é uma piada, ser Comediante é a única coisa que faz sentido”. Comente.

 

Eu acho que depois que você se dá conta de como as coisas são de verdade a única coisa que faz sentido é ser banqueiro. Mas concordo que virar comediante é mais fácil, olha o caso do Leandro Hassum.

  • Como foi publicar a série do Mundinho Animal no portal de notícias do G1? Houve algum dia em que o tom do seu material não caiu bem?

 

Não, porque as tiras ficavam escondidas na seção de entretenimento, que os malucos dos comentários frequentam menos – mas frequentam, geralmente relacionando qualquer notícia da área de cultura ao comunismo, Lula ou PT. E também acho que a tira só passava pelo pessoal da estiva que atualizava o site, porque falava bem mal do jornalismo de portal e eu nunca tomei nem um tapinha no pulso.

  • Seja sincero: é um sofrimento ter que acompanhar diariamente o noticiário para poder produzir tiras?

 

Sim. Principalmente porque as últimas notícias têm sido ao mesmo tempo apavorantes e aborrecidas – todas essas tramitações e conchavos, o sujeito pra ser político ou tem que ter uma disposição de santo ou ser muito mal intencionado, infelizmente temos mais voluntários do segundo tipo. Eu queria estar falando de Adriano Imperador, Miss Bumbum, Masterchef, qualquer outra coisa.

 

  • As tiras e charges encontraram um novo habitat dentro das redes sociais. Houve uma mudança no perfil dos seus leitores? Boa ou ruim?

 

Sim, o maior alcance das redes sociais tem vantagens e desvantagens: elas fazem seu nome circular, chegar a um povo que pode te contratar (ou se interessar sexualmente por sua pessoa), mas também te levam de encontro um grande manancial de analfabetos funcionais e chatos que gostam de enxergar nuances e subtextos em piadas em que você deu duro para conseguir atingir o mínimo denominador comum.

  • Quem influencia diretamente o seu trabalho?

 

Nem sempre cartunistas: às vezes músicos, cineastas, escritores. Aliás, preferia ser qualquer um dos três do que cartunista, hehe. Consegui ser roteirista (vivo disso atualmente), que é alguns degraus abaixo dessas categorias, mas é menos degradante do que fazer quadrinhos.

 

  • Que cartunistas brasileiros e estrangeiros você não suporta ler?

 

Sempre tive bom estômago para as coisas de que não gosto, nunca fui aquele cara que fica no churrasco trocando a música toda vez que toca algum som que desagrada – se a cerveja estiver gelada, tudo bem. Então esse lance de “não suportar” é meio frescura demais. Mas claro que existem cartunistas cujo trabalho não me desce, e no passado já falei mal demais de caras como Chico Caruso e Miguel Paiva pra fugir da sua pergunta, hehe. Gringo de trabalho irritante não lembro de nenhum, deve ser por que chegam em menor número nos grupos de família do whats.

  • Fale um pouco sobre música, cultura pop, futebol e carnaval. Além disso, já te ofereceram um contrato para fazer um filme do Capitão Presença?

 

Música: me atrapalha um pouco quando estou trabalhando e, como tenho trabalhado demais, tenho ouvido pouco, só quando vou correr na praia (pois é, faço essas coisas), ocasião em que só consigo ouvir determinado tipo de som, geralmente hardcore – então não me procurem pra fazer listas do ano. Cultura pop: sou um observador imparcial, não tenho mais idade pra viver a coisa intensamente. Futebol: ouço muito, porque deixo a TV ligada o dia inteiro nos canais de esporte mas mal tenho tempo de virar a cabeça pra ver as jogadas, só abro exceção para o Flamengo, geralmente pra me arrepender depois. Carnaval: acho foda, vão ter que me levar de cadeira de rodas pros blocos no futuro, até estou pesquisando se já existe esse serviço. Capitão Presença: escrevi uma série de curtas de animação pro Canal Brasil uma vez, me pagaram e tudo – mas cancelaram o negócio no dia da dublagem, quando perceberam um pouco tarde demais que era negócio de apologia. Mas um dia quem sabe.

  • Você é um colecionador de críticas e ofensas por causa das suas tiras? Já conseguiu ofender as pessoas do círculo das artes e do cinema? Não esconda nada.

 

Não, as pessoas geralmente pensam que não é com elas, o que é bom – significa que a crítica tem um alcance maior mesmo que eu esteja falando de algum sujeito específico. Meu twitter rende mais mensagens de ódio, graças a Deus pela ferramenta mute.

 

  • Heróis, ídolos e pessoas que você inveja.

 

Keith Richards, Zico, Angeli, Suso Cecchi D’Amico (roteirista; essa devia dispensar apresentações mas muitos perguntam quem é: a mulher simplesmente escreveu Ladrões de bicicleta, Rocco e seus Irmãos, O Leopardo, Os eternos desconhecidos e uma caralhada de filmes favoritos de todo mundo). E inveja eu tenho de qualquer um que ganhe mais ou trabalhe menos do que eu.

  • Fale aqui sobre o que você sempre quis falar, com toda a liberdade, ou responda aquilo que nunca te perguntaram.

 

Nunca perguntaram o meu signo. Sou áries com ascendente em educação católica.

vinicius.rnott@gmail.com

<p>Doutorando em Estudos Literários pela UFPR. Tradutor. Estudante da literatura grega antiga. Autor de artigos científicos que ninguém nunca vai ler. Escritor. Autor do livro de contos ‘Razões do agir de um bicho humano’, publicado pela Confraria do Vento em 2015. Curioso do desenho e da fotografia. Nunca um entusiasta.</p>

Review overview
1 COMMENT

POST A COMMENT