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Hilma af Klint: arte como caminho

“Suas pinturas em grande formato, e seus milhares de desenhos e muitos cadernos, estavam sempre ligados a essas experiências, cheias de símbolos, palavras inventadas, repetições e formas geométricas.”

 

          Quando questionado a respeito da relevância da pintura num mundo onde já existia a fotografia, Edvard Munch, alguém que sabia dar respostas mais ou menos dramáticas aos seus inquisidores, disse que apenas quando uma câmera fotográfica pudesse retratar o céu ou o inferno ele se preocuparia com ela. Ou seja, existiriam mundos não visíveis, porém muito reais, que um aparato mecânico não captaria. Existiriam mundos que não veríamos, e não apenas num sentido metafísico, mas toda a angústia humana e outros infernos particulares que Munch, por exemplo, ele sim um ótimo fotógrafo desse tipo de desolação, tornou visível através da pintura.

 

          Acontece que desde seu o início a arte esteve ligada a aspectos mágicos e espirituais. Aqui no Ocidente, temos aprendido há muito tempo a olhar com olhos racionais e analíticos para um quadro, ou para um poema, mas os mais antigos artefatos artísticos encontrados neste mundo em geral compuseram altares e rituais mágicos. Me lembro, por exemplo, da dificuldade que a maioria dos resenhistas da exposição Terra comunal, da Marina Abramovic, pareceram sentir diante de uma performance cujo centro eram energias de cristais e meditação. Há muito tempo, separamos o espírito do corpo e o corpo, do raciocínio. E talvez venha daí (mas agora, especulo) a dificuldade da arte contemporânea de se aproximar de seu público.

 

          E talvez seja por isso também que na grande exposição que aconteceu no Museu de Arte Moderna de Nova York – MoMA, em 2013 (Inventing Abstraction 1910-1925), sobre as origens da arte abstrata, o nome de Hilma af Klint tenha sido mais facilmente omitido. A exposição visava relacionar todos os artistas que teriam contribuído para o surgimento da arte abstrata no ocidente e a justificativa da curadoria em não incluir o nome de Klint nesse grande panorama era seu isolamento em relação aos demais artistas, o que, muito provável, se devesse a maneira como ela via seu próprio trabalho: um caminho espiritual, não apenas estético.

 

          Hilma af Klint (1862-1944) estudou na academia de belas artes de Estocolmo e no começo de sua carreira dedicou-se a paisagens e a pinturas botânicas, mas sua relação com a arte mudou totalmente quando ela passou a se envolver com a Teosofia de madame Blavatsky depois da morte de sua irmã mais nova. Teria desenvolvido uma clarividência e sensibilidade mediúnica que a permitiram “ver” em outro nível de consciência. Suas pinturas em grande formato, e seus milhares de desenhos e muitos cadernos, estavam sempre ligados a essas experiências, cheias de símbolos, palavras inventadas, repetições e formas geométricas. Antes dos surrealistas, ela e as outras mulheres do “The Five”, um grupo de estudos e dedicação espiritual, já desenvolviam desenhos automáticos; muito antes de Klee e de Kandinsky, ela já experimentava a arte abstrata que se desenvolveria por todo o século 20, e há alguns padrões que lembram muito algumas telas de contemporâneos como Beatriz Milhazes.

 

          Concentrada em sua investigação estético-espiritual, ela conseguiu (ou facilitou que a deixassem separada) isolar-se no meio da efervescência vanguardista da Europa no começo do século 20. Em seu testamento, inclusive, ela pedia que suas pinturas abstratas só fossem mostradas vinte anos depois de sua morte.

 

          A investigação de Klint estava mais próxima às mandalas budistas que do problema da representação do real ou do estatuto da pintura na modernidade. Pela proficuidade com que trabalhou, suponho que se tratava de exercícios, de um caminho de concentração, muito mais do que um objeto estritamente estético. E por estar, portanto, mais no templo que no museu, ela esteve desconhecida e ausente dos manuais de história da arte que pontuam os começos dos movimentos.

 

          Como uma forma de justiça histórica, digamos, em 2013, o mesmo ano da exposição do MoMA sobre as origens da arte abstrata que a omitiu, o Moderna Museet de Estocolmo montou a grande exposição individual Hilma af Klint: a Pioner of Abstraction. Tem muito de um orgulho nacional envolvido nisso, é claro, e não há nenhum mal em se recuperar mais um nome feminino omitido na história da arte. Mas essa questão da “invenção” sempre será questionável. Em 1985, o poeta francês Franck André Jamme, obcecado que estava com umas pinturas abstratas indianas que vira numa exposição nos anos 1970, viajou para a Índia para entender melhor do que se tratava. Mas nessa viagem, ele sofreu um terrível acidente com o ônibus, sofreu de dor e de obsessão, e organizou um lindo livro de arte abstrata, Tantra songs, com as pinturas geométricas do século 17, muito parecidas com o construtivismo que veríamos surgir no ocidente apenas na metade do século 20. E, não por acaso, aquela geometria estava ligada aos mistérios das coisas.

E se a mão se fizer

De ouro e aço,

Desenharei o círculo. E dentro dele

 

 O equilátero

(Hilda Hilst)

 

Vanessa C. Rodrigues
(rodrigues.c.vanessa@gmail.com)

 

vinicius.rnott@gmail.com

Doutorando em Estudos Literários pela UFPR. Tradutor. Estudante da literatura grega antiga. Autor de artigos científicos que ninguém nunca vai ler. Escritor. Autor do livro de contos 'Razões do agir de um bicho humano', publicado pela Confraria do Vento em 2015. Curioso do desenho e da fotografia. Nunca um entusiasta.

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