Revista virtual de arte e cultura

Home / Visuais  / Herança maldita: Platão

Herança maldita: Platão

Na coluna de Visuais deste mês, Marlon Anjos trata do papel do artista na filosofia de Platão e em sua república, e das considerações de Nietszche sobre esse mesmo papel. Seria real a inutilidade política da arte dentro de uma sociedade?


“De outro modo, é uma tentativa de fazer com que a razão colonize a arte, as sensações, a ponto de domar a realidade e transformá-la em um conceito claro.”

“[…] Que não se pretenda me objetar Platão. Em relação a Platão sou profundamente cético e nunca partilhei da admiração pelo artista Platão, tradicional entre os sábios. […] Platão é tedioso […] Na Grande fatalidade do cristianismo, Platão é esta fascinação de duplo sentido chamada “Ideal” que permite aos caracteres nobres da Antiguidade se enganar a si mesmo e abordar a ponte que se chama “cruz”. […] A coragem diante da realidade distingue, em última instância, caracteres como Tucídides de Platão: Platão é covarde diante da realidade – por conseguinte, se refugia no ideal; Tucídides é senhor de si, portanto, é também senhor das coisas… (NIETZSCHE, 2008, p.102 – 103)

Platão (428/427 – 348/347 a.C.), amplamente político, numa luta pela dominação da mente dos homens, concebe a arte como um inimigo. Expulsa-a da república alegando que seja algo espúrio, distante do embevecimento das virtudes, tendenciosamente relacionada aos vícios e ao entorpecer da razão e do ideal.

 

 

É como se o próprio platonismo estabelecesse um lugar para a arte, junto aos delitos e imperícias, a partir da qual ela nada possa fazer acontecer devido à sua estreita relação com a representação do universo perceptível: mimesis.

 

 

Platão identificou na arte a criação da aparência, distante da realidade ou do ideal. Algo que, devido ao descuido essencial de sua feição, não contém o conhecimento do que imita ou representa, apresentando apenas o ruído da forma. Nesse sentido, a nascença e a feição da obra estariam duplamente desprestigiadas, pois entorpeceriam as faculdades do pensamento.

 

 

O ataque platônico intenta transpor uma teoria da qual a realidade, ou o conceito de realidade, é imunizado contra a arte. De outro modo, é uma tentativa de fazer com que a razão colonize a arte, as sensações, a ponto de domar a realidade e transformá-la em um conceito claro.

 

 

Nietzsche, rival declarado do platonismo, nomeia este movimento como “socratismo estético”, pois, ao elevar a razão ao caráter de belo, formula uma estrutura de grade onde nada mais poderia ser belo se não correspondesse aos cânones objetivos de que a razão dispõe. A filosofia platônica oprime a arte com todo o seu peso sistemático. E nesse sentido, poderíamos afirmar que a história da filosofia se esforçou para tornar a arte efêmera. A história da arte é a história da censura da arte, da delimitação – senão a supressão – e a lista dos inventários artísticos corporifica o controle.

 

 

Uma gestão não selvagem seria elaborada ao longo dos séculos por aqueles que levaram a sério a opinião do filósofo ateniense. Como o ato de transformar mulheres em damas, pondo-as em saletas para apenas se ocuparem com a práticas de ofícios, dispostas a se ocuparem para o prazer falsamente desinteressado do opressor. Desta mesma forma, estaria o ideal e o belo, dúbias palavras que firmaram-se como censores em relação a produção e a receptação das obras de arte ao longo dos séculos.

Eu sou um bloco de texto. Clique no botão Editar (Lápis) para alterar o conteúdo deste elemento.

Eu sou um bloco de texto. Clique no botão Editar (Lápis) para alterar o conteúdo deste elemento.

“Não é de espantar que Platão odiasse a arte. E não é de se espantar que a arte devesse odiar a si mesma se desse crédito ao platonismo, já que no melhor dos casos o artista adquiriu consistência no espaço no qual tanto queria volatilizar-se, num feito de completa realização do diáfano. É o meio que separa a realidade da arte. (DANTO, 2010 p. 226)

Os diálogos platônicos formam um monumento que se tornou uma espécie de esfinge pelo fato de a história da filosofia tê-lo tomado como a referência fundamental para a própria constituição da filosofia. Nesse sentido a influência de Platão foi viral e por séculos negou potencialidades cognitivas à arte e atividades do devir. A teoria platônica é amplamente política, e a arte é puramente fútil por se debruçar apenas na realidade da aparência. Ou seja, a arte não condiz com a realidade do pensamento e não tem aderência às práticas cívicas, como observou Danto:

[…] Mas se o único papel político da poesia é esse oficio cerimonial, desviante e consolatório – para não dizer relicário -, por que é tão difundida essa atitude política de que a arte é perigosa? A história da arte é a história da supressão da arte, ela própria um tipo de futilidade, se aquilo que se procura acorrentar não possui qualquer efetividade e se confere à arte a ilusão de competência, tratando como perigoso algo que não faria nada acontecer se lhe fosse permitido ser livre. […] (DANTO, 2014, p. 38)

A inutilidade da arte não vem do conhecimento histórico e sim de uma crença filosófica. Os ataques de Platão contra a arte podem ser encontrados nos livros III e X da República, que enxerga a arte como uma atividade relacionada à aparência e, como sabemos, a realidade das aparências para o filósofo ateniense é desprestigiada em comparação com a forma ideal. Também acrescenta que o desprezo da arte em relação à prática política é uma maneira de colocar a arte em quarentena e dizer que ela nada faz acontecer. Cita-se ainda que diminui a importância do artista e das obras de arte por não participarem ativamente da polis, e também por acreditar que os artistas não compreendiam a sua atividade. Ao se preocupar com a realidade das aparências, com a representação, a arte enquanto utilidade nada faz além de memorizar o factível. A Guernica fez tanto pelos defuntos dos aldeões quanto memorizá-los, em um sentido cerimonial, nada tenha feito acontecer de relevante. (DANTO, 2014)

 

 

Duas perspectivas prevalecem na arte: uma, que a arte é perigosa e sujeita à censura ou ao controle político, não tendo liberdade plena, como os artistas modernos gostariam de pensar.  E a outra, que a arte existe a vários níveis de distâncias da realidade ordinária, impotente para efetuar qualquer mudança significativa no mundo humano.

 

 

Contudo, o filósofo, tendo jogado todo seu peso sistemático de pensamento sobre pontos da arte, retém da arte apenas o que é pertinente à sua problemática.  Talvez os sistemas filosóficos não fossem, em última análise, arquiteturas penitenciárias, de modo que é difícil não vê-las como labirintos para abrigar perigos e desafios, protegendo-nos, assim, de algum perigo puramente metafísico. E se tal labirinto abriga uma inquietante dúvida, que não está banida mas sim locada nessa arquitetura: não seria a arte a razão pela qual a filosofia foi inventada? Contudo, essa é uma questão insolúvel. Resta-nos apenas refletir se esse paradoxo é ideal ou real.


Bibliografia

DANTO, Arthur, A transfiguração do lugar-comum. Ed. Cosac&Naify, 1ª reimpressão São Paulo, 2010

DANTO, ARTHUR, O Descredenciamento filosófico da arte. Ed. Autêntica. 2014

NIETZSCHE, F. Crepúsculo dos Ídolos. Editora Escala. São Paulo 2008

POST TAGS:

marlonjaanjos@gmail.com

<p>Mestre em artes visuais. Neoísta.</p>

Review overview
NO COMMENTS

POST A COMMENT