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Fazer Fazendo

“Assim, primeiro há no acúmulo algumas combinações que são bastante fortes quando associadas aos meus mitos, mas enquanto a obra vai se formando, ela mesma começa a formar as suas próprias leis, ou seja, relações que ela me aponta parecem mais pertinentes do que o que foi pré-concebido por mim.”

          Em seu livro Problemas da Estética, Luigi Pareyson nos coloca três modos de fazer tradicionais da arte: a arte como fazer, a arte como conhecer e a arte como exprimir. Nenhum deles é considerado satisfatório, por exemplo, o aspecto fabril e o expressivo estão presentes em todas as operações humanas, então não definem a ação como arte. Depois de expostos estes problemas, Pareyson nos dá uma nova saída, que ele chama de formatividade: “O fato é que a arte não é somente executar, produzir, realizar, e o simples ‘fazer’ não basta para definir sua essência. A arte também é invenção. Ela não é execução de qualquer coisa já ideada, realização de um projeto, produção segundo regras dadas ou predispostas. Ela é um tal fazer que, enquanto faz, inventa o por fazer e o modo de fazer.”

 

          Conheci esse texto durante a graduação em pintura, e isso já se aplicava ao meu trabalho, que mesmo com tintas, quase sempre partia das qualidades sensíveis do material, especialmente cor e textura, mas acredito que não podemos desconsiderar os cheiros do material e ferramentas, que envolvem o artista durante o trabalho e acabam também ativando qualidades simbólicas e todo o vocabulário pessoal do artista acerca daquilo.

 

           A liberdade da formatividade foi ficando mais forte quando, aos poucos, fui trocando a tinta por assemblagens com papeizinhos, objetos e gosmas; e mesmo no laboratório de fotografia os negativos davam lugar a materiais diversos, e no fim do período havia produzido muito mais fotogramas do que fotografias tradicionais. Eu cozinhava bastante na época e não havia casquinha, lâmina, brotinho ou fiapo que eu não colocasse contra a luz para verificar a transparência e levar para o ampliador. Na pintura eu testava reações com temperatura, ferrugens, num grande parque de diversões com os materiais, não havia embate. E mesmo quando tinha que resolver uma questão teórica ou conceitual, era na cozinha, na relação com outros materiais e reações que a solução aparecia.

 

          Naturalmente é essa técnica, que assumi há anos, que me move agora: cozinhar.

 

          Como grande parte dos ingredientes é sazonal, o que está bom bonito e barato é o primeiro elemento da composição. Ele então recebe todo um acúmulo de símbolos, mitos (que realmente deixam o resultado final muito mais nutritivo), composições tradicionais, composições experimentais que me deixam curiosa, meu vocabulário de técnicas de preparo… e ele fica marinando nisso tudo.

 

          Então é hora da escolha do preparo, dos cortes: essa edição, por sua vez, pode levar em conta o clima do dia, minha vontade, restrições dos comensais e, como não pode deixar de ser, o aspecto material conhecido no métier como “o que mais tem na geladeira”, afinal, há muitos perecíveis por aqui.

 

          E ainda assim, mesmo quando o menu está todo esboçado, materiais comprados, mise en place prontinha, tudo pode mudar. Como sempre comemos e desde pequeninos formamos os nossos gostos sobre comida, os materiais da cozinha estão todos impregnados de muita memória afetiva, de preconceitos, de mistérios também. Isso coloca o cozinheiro na mesma situação em que Lévi-Strauss escreveu sobre o bricoleur:“Tais elementos são, portanto, semiparticularizados: suficientemente para que o bricoleur não tenha necessidade do equipamento e do saber de todos os elementos do corpus, mas não o bastante para que cada elemento se restrinja a um emprego exato e determinado”. (LÉVI-STRAUSS, Claude. O Pensamento Selvagem, pág. 33)

 

          Assim, primeiro há no acúmulo algumas combinações que são bastante fortes quando associadas aos meus mitos, mas enquanto a obra vai se formando, ela mesma começa a formar as suas próprias leis, ou seja, relações que ela me aponta parecem mais pertinentes do que o que foi pré-concebido por mim.

 

          Com essa liberdade, qualquer coisa pode ser o gatilho para que o caminho mude, pois cada elemento novo – ou cada mudança em algum elemento – muda toda a composição, pois muda a relação entre eles; encontrar um lugar para cada elemento, dentro desse processo, é, segundo Luigi Pareyson, seguir a lei da própria obra, num tal fazer que, enquanto faz, inventa o por fazer e o modo de fazer.

Sobre Aline Higa:

 

Aline se formou em artes plásticas durante os muitos anos que morou em Curitiba, e quando foi para Porto Alegre fazer o mestrado, virou cozinheira e nunca sentiu que tivesse mudado de área. Hoje mora no interior catarinense, onde os vasos de temperos estão cada dia mais bonitos.

vinicius.rnott@gmail.com

<p>Doutorando em Estudos Literários pela UFPR. Tradutor. Estudante da literatura grega antiga. Autor de artigos científicos que ninguém nunca vai ler. Escritor. Autor do livro de contos ‘Razões do agir de um bicho humano’, publicado pela Confraria do Vento em 2015. Curioso do desenho e da fotografia. Nunca um entusiasta.</p>

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