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FARSÁLIA

Imagem: Adolphe Yvon, Caesar

A Farsália, poema épico escrito pelo romano Lucano no séc. I d.C.,  é apresentada por Guilherme Gontijo Flores, que traz também um belo trecho do texto em duas traduções: de Brunno V. G. Vieira e Márcio Meirelles Gouvêa Jr.


“Depois que o mútuo olhar, não fraco pelo espaço,

os rostos divisou, e então, irmãos e pais

viram seus filhos, descobriu-se o horror civil.”

Como no caso de praticamente todos os poetas antigos, sabemos muito pouco sobre a vida de Lucano. No seu caso, são três fontes principais, para termos uma ideia de sua trajetória: uma biografia de Suetônio, outra de um certo Vaca, editor póstumo da obra, e uma narrativa sobre a conspiração e suicídio feita por Tácito (Anais 15). Eis um resumo:

Marco Aneu Lucano nasceu em Córdoba, Hispânia, em 3 de novembro de 39 d.C., numa família aristocrática; o jovem era neto de Sêneca, o rétor, e sobrinho de Sêneca, o filósofo, ou seja, nasceu numa família que prezava pelas letras e pela política. Teve uma formação de elite com estudos em Roma e Atenas, onde sabemos que foi colega de Pérsio, poeta satírico, e é provável que já conhecesse Nero pessoalmente desde bem jovem, já que o filósofo Sêneca foi preceptor do jovem Nero.

Em 54 d.C., Nero torna-se imperador, com apenas dezessete anos; nos primeiros cinco anos de poder, o jovem parece ter seguido de perto os preceitos de “rei sábio estoico” propostos por Sêneca, até que por volta de 59 Nero mata a própria mãe e dá uma guinada em seu governo, forçando Sêneca a se progressivamente afastar da corte (até romperem de todo em 62). É nesse período que ele convoca Lucano, então com cerca de 20 anos, para seu Círculo de Poetas e para ocupar o cargo de questor — antes da idade mínima oficial. Sabemos que, com a questura, Lucano organizou jogos gladiatórios (mostra de seu gosto pelo gore estético aliada ao panis et circenses romano?) para ganhar mais apoio popular.

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Em 60, Lucano ganhou o prêmio das Nerônias (festival criado por Nero) com um poema de louvor ao imperador e também apresentou por essa época um poema sobre Orfeu. Pouco tempo depois, sabemos que ele já apresentava os primeiros cantos da Farsália, a única obra sobrevivente; sabemos também que Nero acabou por proibir recitais de trabalhos oratórios de Lucano, o que gerou certamente rivalidade entre os dois; mas podemos nos perguntar mais precisamente qual foi a ordem precisa desses acontecimentos, qual foi a causa do veto ordenado por Nero. A resposta a essa pergunta — uma reposta decerto hipotética — pode implicar muito sobre a forma como lemos a Farsália.

 

Nos anos seguintes, Lucano casa-se com Pola Argentária, mulher de família também rica e divulgadora póstuma da sua obra, e passa a frequentar os círculos que odeiam o império desregrado de Nero. Em 64, Roma sofre o famoso incêndio (Lucano escreve um poema sobre o tema), enquanto Nero aproveita o estrago para reformar parte da cidade e construir sua domus aurea, o que cria muita desconfiança sobre as verdadeiras causas do incêndio (desconfiança que perdura até hoje). Com um clima de insurreição instalado, Lucano participa da Conspiração Pisônia, que pretendia matar Nero e — talvez — restaurar um regime republicano; no entanto, a conspiração foi descoberta, e o poeta foi condenado ao suicídio em 30 de abril de 65.

 

Sobre a Farsália, ou Guerra civil, houve dissenso desde o início. Como o poema narrava os conflitos históricos entre Júlio César e Pompeu, em meados do séc. I a.C. (que acabariam resultando na ditadura de César, seu subsequente assassinato, novas guerras civis e por fim o principado de Augusto), e ainda por cima evitava o maquinário divino tradicional da épica, muitos consideraram a obra mais afim à história do que à poesia. Quintiliano, por exemplo, afirmava que Lucano serviria mais se fosse imitado pelos oradores do que pelos poetas (magis oratoribus quam poetis imitandus), deixando claro que valorizava seu estilo, mas de algum modo o achava pouco interessante para a poesia stricto sensu; opiniões similares vão aparecer em Sérvio, Suetônio e Isidoro, por exemplo. Em todos os casos, apesar de ser praticamente uma censura à sua poética, tal afirmação implica as complicações no limiar entre história e poesia; talvez por isso a estética e o estilo de Lucano mais se assemelhem ao Lucrécio de Da natureza das coisas do que ao Virgílio da Eneida. Tal como um orador, Lucano assume a voz de seu poema (daí a presença de tantas apóstrofes, um convite ao leitor como juiz), enquanto os poetas augustanos podiam dividir sua voz sobre o poema da voz do poema.

 

Talvez por perceber essa nova força na épica romana é que Percy Bysshe Shelley diria, mais de milênio e meio depois, que Lucano era “um poeta de grande gênio, que transcendia Virgílio” (a poet of great genius and transcending Virgil) — uma afirmação precisa, sobretudo se tomarmos “transcender” como a possibilidade de escrever em/a partir de outro lugar poético; nesse caso, certamente Lucano transcende Virgílio. Uma apresentação mais recente do poema, escrita por Frederick Ahl, a meu ver, resume o cerne político e poético (ético e estético) da obra e da vida de Lucano:

Ela é um ato político bem como um poema político […] Sua Farsália se opõe à Guerra Civil escrita por César como interpretação do que significaram as guerras civis, e o assassinato do último descendente da casa de César [Nero, pela Conspiração Pisoniana] iria, assim ele esperava, desfazer as consequências da vitória de César.

Nesse ponto a vida e a obra se complementam, a conspiração para matar Nero quase se torna parte dos intertextos que compõem a Farsália. Essa é, talvez, a primeira épica a apresentar uma crítica aberta ao status quo.

 

Isso pode também explicar a suposta ausência de deuses nessa épica. Em primeiro lugar, a simplificação não é bem uma verdade — temos aparições/menções a Júpiter (como totius Ioui, numa figuração estoica), Netuno, Febe, Febo, Tétis, etc. A grande diferença é que não temos os deuses antropomórficos das épicas de Homero e Hesíodo, por sua vez retomados por Virgílio. Mas, se pensarmos bem, a quebra de paradigma estético é condizente com a ética proposta por Lucano: por um lado, a poesia virgiliana tentava justificar o status quo do principado augustano (apesar das dissonâncias evidentes espalhadas pela Eneida) a partir do desejo fatídico dos deuses, sobretudo de Júpiter, em refazer a civilização troiana num império romano; por outro, Lucano buscou subverter a justiça da história (lemos no livro 1 que, se os deuses foram favoráveis a César, então eram desfavoráveis ao grande Catão, símbolo do estoicismo) — aqui, rever o conceito de história implica rever o conceito de épica. Por isso, em vez de um panteão olímpico, temos quase sempre a ação de uma Fortuna (espécie de agente estoica do Totum universal) e fata (Fados) que regem o destino de modo muito mais abstrato, ao mesmo tempo contraposto a uma confiança cega no destino (portanto também antiestoico, já que questiona a Providência Benévola presente na teoria mais ortodoxa, cf. 7.445-7). Enfim, para escrever a Farsália, era necessário um embate direto com dois textos fundadores do mundo imperial: a Eneida de Virgílio (fundamento mítico e poético) e s Guerra civil de César (fundamento político e oratório).

 

Logo abaixo seguem duas traduções brasileiras do mesmo trecho: uma de Brunno V. G. Vieira, que saiu no volume Farsália Cantos de I a V (Ed. Unicamp, 2011), com metade do poema anotado e poeticamente traduzido — esperamos, ansiosos a continuidade desse trabalho —; outra de Márcio Meirelles Gouvêa Jr., ainda inédita. É a prova de que Lucano está em boas mãos e de que em breve teremos traduções dignas do poema, capazes de fazer com que ele entre, de fato, na literatura brasileira, com um atraso de cinco séculos. Diante dessa força contestadora (talvez/provavelmente a primeira na história da épica ocidental), optei por mostrar um trecho atípico do poema. Se ele se tornou famoso principalmente pelas cenas de violência explícita, há um trecho poderosíssimo sobre o que poderia ter sido o fim da guerra civil. Antes de uma batalha, os acampamentos dos dois lados da guerra civil estão muito próximos, então os parentes conseguem se reconhecer à distância, e um desejo de paz os toma. Na história humana, uma espécie de guerra inacabável entre povos, essa cena poderia ter força de um respiro, uma chance que reverteria o ciclo de carnagens e promoveria um reencontro entre nós mesmos. Infelizmente, é esse mesmo reconhecimento que possibilita a paz a marca maior do crime: depois de se reconhecerem como amigos, parentes, irmãos, tornar à guerra civil é assumir o fratricídio. No entanto, a cena tem sua força sugestiva, seu poder subversor, ainda que sem grandes esperanças; como afirmou Ahl, “Os fatos ainda estão do lado de César. Mas a dissociação entre verdade e fato, entre ideal e história, é uma grande ilusão capaz de alterar o fato.”

 

guilherme gontijo flores

♦♦♦

illic exiguo paulum distantia uallo

castra locant. postquam spatio languentia nullo

mutua conspicuos habuerunt lumina uoltus,                                              170

[hic fratres natosque suos uidere patresque]

deprensum est ciuile nefas. tenuere parumper

ora metu, tantum nutu motoque salutant

ense suos. mox, ut stimulis maioribus ardens

rupit amor leges, audet transcendere uallum

miles, in amplexus effusas tendere palmas.

hospitis ille ciet nomen, uocat ille propinquum,

admonet hunc studiis consors puerilibus aetas;

nec Romanus erat, qui non agnouerat hostem.

arma rigant lacrimis, singultibus oscula rumpunt,                                   180

et quamuis nullo maculatus sanguine miles

quae potuit fecisse timet. quid pectora pulsas?

quid, uaesane, gemis? fletus quid fundis inanis

nec te sponte tua sceleri parere fateris?

usque adeone times quem tu facis ipse timendum?

classica det bello, saeuos tu neclege cantus;

signa ferat, cessa: iam iam ciuilis Erinys

concidet et Caesar generum priuatus amabit.

  nunc ades, aeterno conplectens omnia nexu,

o rerum mixtique salus Concordia mundi                                                    190

et sacer orbis amor: magnum nunc saecula nostra

uenturi discrimen habent. periere latebrae 

tot scelerum, populo uenia est erepta nocenti:

agnouere suos. pro numine fata sinistro

exigua requie tantas augentia clades!

pax erat, et castris miles permixtus utrisque

errabat; duro concordes caespite mensas

instituunt et permixto libamina Baccho;

graminei luxere foci, iunctoque cubili

extrahit insomnis bellorum fabula noctes,                                                   200

quo primum steterint campo, qua lancea dextra

exierit. dum quae gesserunt fortia iactant

et dum multa negant, quod solum fata petebant,

est miseris renouata fides, atque omne futurum

creuit amore nefas. nam postquam foedera pacis

cognita Petreio, seque et sua tradita uenum

castra uidet, famulas scelerata ad proelia dextras

excitat atque hostis turba stipatus inermi

praecipitat castris iunctosque amplexibus ense

separat et multo disturbat sanguine pacem.                                               210

[Livro IV, vv. 168-210]


Assentam-se ali mesmo em dois acampamentos

de parca paliçada. Então, nada distantes,

se encaram e um brilho no olhar distinguiram:                    170

irmãos, e pais, e filhos viram-se uns aos outros,

e era patente o nefas civil. Pos instantes

franziu o medo as faces, mas logo saudavam-se

oscilando a cabeça e balouçando o gládio.

Daí foi que avivado por algo maior

o amor as leis rompeu, e a soldadesca ousou

deixar seu forte para dar abraços fortes.

O nome um grita do hóspede, outro do parente,

na escola a meninice estoutros rememoram.

Todo romano tinha um conhecido imigo.                               180

Os beijos, o soluço e o choro as armas molham

e o soldado, sem nada de sangue nas mãos,

teme o que quase fez. (Por que esmurras teu peito?

Por que, louco, te atiras num choro leviano,

em vez de confessares que escolheste o crime?

Até que ponto temes quem temido fazes?

Se ele soa os clarins, cala os gritos de guerra;

se a ordem é avançar, para e a Erínia civil

baixará, e na paz se amarão genro e sogro.)

__Vinde, ó Concórdia, tudo abraçando ad aeternum,              190

ó salvação de um mundo em plena confusão,

amor sagrado e universal! Este momento

é crucial às gerações que inda virão.

Findaram-se as escusas de tantos delitos,

dos culpados o álibi foi alijado:

aos seus reconheceram. Ah! Fado malévolo,

quanta desgraça engendras num breve armistício!

Veio a Paz. Misturaram-se os dois batalhões,

e os amigos transformam o chão duro em mesas,

e mistas libações fazem com vinho-Baco.                               200

Os altares de palha queimam e uns nos outros

recostados, insones, madrugam gabando

façanhas: a primeira guerra ou a destreza

com que lançavam dardos, e ora se exaltavam,

ora se desmentiam. Como quis o Fado,

os malsinados renovaram o antigo vínculo

e com o amor cresceu todo nefas por vir.

__Pois, tão logo Petreio soube dessa aliança,

sentindo-se traído e vendido o seu campo,

conclamou seus lacaios à luta nefasta                                     210

e com eles caiu sobre os rivais pacíficos,

desfazendo os abraços a golpes de gládio,

com um banho de sangue despedindo a paz.

 

(trad. Brunno V. G. Vieira)


Ali perto, num vale, os quartéis são montados.

Depois que o mútuo olhar, não fraco pelo espaço,

os rostos divisou, e então, irmãos e pais                                    170

viram seus filhos, descobriu-se o horror civil.

Em medo, por um tempo, as bocas contiveram-se,

só co’ o aceno da espada e nuto aos seus saúdam.

Quando, depois, o amor, ardente pelo estímulo,

rompeu as leis, ousou o soldado atravessar

o vale e dar as mãos abertas para u’ abraço.

Do hóspede um diz o nome; outro, chama um parente.

Dos estudos da infância, o tempo este recorda;

não há romano que u’ inimigo não conheça.

Molham armas com pranto e beijam-se, aos soluços.                180

Não manchado por sangue, o soldado receia

o que teria feito. O peito, por que bates?

Por que em vão choras, louco, e gemes sem dizer

que só por tua vontade obedeces ao crime?

Até onde temes o que fazes ser temível?

Toque a guerra os clarins: desdenha tu seu canto –

se insígnias leva, fica: a Discórdia civil

cairá e César, já um civil, amará o sogro.

__Co’ elo eterno abraçando a tudo, vens, Concórdia,

agora, ó salvação dos seres e do mundo,                                   190

sacro amor do orbe: do porvir tem nossos tempos

o risco. É findo de tamanho crime o abrigo

e, do povo culpado, a desculpa é tirada:

reconhecem os seus. De um deus sinistro, ó Fado,

co’ uma pequena trégua, aumentas as desgraças.

Os soldados, co’ a paz, erravam entre os campos.

Concordes, sobre o chão, dispuseram as mesas

e as libações com misturado Baco. Fogos

na erva brilharam. Como os leitos se ajuntaram,

alonga a noite insone a história dos combates,                         200

onde acampou-se, de qual mão partiu a lança.

Enquanto jactam-se do esforço que fizeram

e negam coisas que só o Fado pretendia,

dos pobres renovou-se a confiança, e cresceu,

co’ o amor, o mal futuro. Ao conhecer o pacto

de paz, Petreio vê-se e ao seu quartel vendidos;

e excita as mãos servis à luta criminosa.

Pela turba escoltado, expulsa do quartel

o inerme imigo; co’ aço aparta os abraçados

e anula a paz com muito sangue.                                               210

 

(trad. Márcio Meirelles Gouvêa Jr.)

ggontijof@gmail.com

<p>Poeta, tradutor e professor no curso de Letras da UFPR.</p>

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