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ESSA TERRA TEM DONO! (Co ivi oguerecó yara)

A artista e produtora cultural Ana Rivelles fala sobre a exposição intitulada “Essa terra tem dono!” e nos narra a reveladora jornada que fez com seu grupo até a comunidade indígena Tekoha Apika’y, na região de Dourados-MS. Uma história incrível que vale a pena ser lida.


“Lembro que um tempo atrás um amigo perguntou se na minha vida havia algum divisor que marcasse mudança entre quem eu era e quem sou agora. Naquele momento eu não soube responder, mas foi nesse dia.”

Em uma dessas conversas da vida, alguém me disse que arte é aquilo que deixa o mundo mais bonito. Ah, sinceramente? De beleza o mundo já está cheio. Eu gosto mesmo é de gente ferrada. Gente de verdade. Nunca me interessei por deixar o mundo mais bonito. Meu interesse é tentar deixar o mundo melhor, fazê-lo pensar em algo que não seja flores, fitas e purpurina.

Sou Ana Rivelles, 33 anos, bacharel em direito não praticante. Produtora cultural por amor e vontade. Tecnóloga em Cinema Digital e atualmente Produtora da • AIREZ • Galeria de Artistas Independentes, em Curitiba. Comecei a flertar com a câmera em 2010 e passei a dançar com ela em 2013.

 

Essa terra tem dono!” teve início em 2015 e foi uma grande oportunidade de conhecer gente real, gente guerreira e batalhadora, que sofre, sofre muito, mas ainda é capaz de sorrir e abençoar aqueles que se aproximam.

O projeto começou depois da revogação da liminar que determinava à União que providenciasse a compra de 30 hectares de terra para a comunidade indígena Curral do Arame (Tekoha Apika’y), que fica às margens da BR-463 em Dourados (MS), o que teve como consequência o prosseguimento de uma ação de despejo da comunidade, e esse despejo era iminente. Junto com isso, uma outra decisão, favorável à plantação de cana de açúcar vinculada à Usina São Fernando e à Usina Raizen, levou ao despejo de 30 famílias indígenas Guarani Kaiowá da Tekoha Apika’y, que fica a 5km do centro de Dourados-MS, obrigando essas famílias a viver à beira da rodovia, em condições muito além de sub-humanas. Não bastasse a perda de suas terras foram registrados inúmeros (e quando digo inúmeros, não exagero) casos de homicídios, abuso de poder, racismo e discriminação étnico-cultural e violências sexuais.

Foi então que conheci Andréa Baia (antropóloga) e Bárbara Carvalho (cientista social), grandes militantes que já providenciavam a arrecadação de donativos (roupas, remédios, alimentos, etc.) para essas famílias que não possuíam mais nada além de uma grande vontade de permanecerem nas suas terras, e de lutar o quanto fosse preciso por isso.

 

Na época, algumas pessoas próximas me disseram “Mas por que eles não se mudam pra outro lugar e simplesmente recomeçam?” É importante dizer que, para os povos indígenas, o tekoha não é apenas o território ou o lugar de onde tiram sua subsistência. Para os indígenas, é mais que isso: a terra é sagrada, é necessária à sua sobrevivência cultural, à sua organização social e religiosa. O tekoha é visto como a fonte de vida, a mãe que dá tudo para eles. Para esse povo, a terra sofre, a terra sangra, e isso é algo que vai muito além da compreensão capitalista que enxerga a terra como mercadoria. Retirar os povos indígenas das suas terras ancestrais é o mesmo que tirar a vida deles.

 

Com Andréa, Bárbara e mais alguns sonhadores, angariamos inúmeras peças de roupas e cestas básicas. Arrecadamos tantas coisas que o quarto vazio do meu apartamento estava abarrotado, não podíamos mais nem abrir a porta. E durante esse tempo, o projeto foi ficando maior, pessoas especiais apareceram com vontade de ajudar, mas ainda não tínhamos dinheiro para transportar tudo isso até Dourados. A região já era conhecida por ser perigosa: violência, homicídios e estupros aconteciam diariamente. Nenhuma transportadora aceitou fazer essa rota.

 

Foi então que surgiu a ideia de um show beneficente para arrecadar dinheiro para a viagem. O Bar Dom Capone (conhecido por ser um dos poucos a tratar os artistas com o devido respeito) abrigou o evento. Músicos incríveis como João Lopes (o bicho do Paraná), as bandas Eles Mesmos e Kosmic Groove doaram seus cachês, reunindo-se em uma noite mágica, que a querida Rose Reis (idealizadora do Rock Solidário) nos ajudou a organizar.

O dinheiro arrecadado ainda não era suficiente, mas a vida nos presenteou com mais uma sonhadora, a chef Gabriela Vilar de Carvalho, que apareceu somando ao projeto e nos ajudando com uma doação que possibilitou nossa ida. Pedro Fortes (também antropólogo) nos auxiliou com contatos no Mato Grosso do Sul e foi incansável em reuniões e mais reuniões para que nós entendêssemos melhor as necessidades dos Guaranis e Kaiowás.

 

Formamos um grupo de pessoas dispostas a correr o risco desse roteiro: Andreá Baia (antropóloga), Edson Straub (cineasta), Bárbara Carvalho (cientista social) e eu.

No dia 12 de outubro de 2015 seguimos. Andréa e Straub em um Corsa lotado de doações. Bárbara e eu de ônibus, com cerca de 20 sacos pretos de 50 litros e pagamento por excesso de bagagem. Foram mais de 10 horas de estrada, cansaço e muita felicidade por, finalmente, realizarmos nosso objetivo.

 

Chegando lá, um novo problema: Bárbara e eu, sentadas naquele monte de sacos pretos esperávamos, na frente da rodoviária, por Straub e Andréa, tentando falar com a FUNAI para que nos ajudassem a levar tudo aquilo até Apika’y. Para nossa surpresa, a FUNAI não queria que fossemos até lá. Área de risco – disseram novamente. Mas depois de muita insistência e com a promessa de que ficaríamos somente o tempo suficiente para descarregar os carros, um membro dessa instituição aceitou a empreitada e nos arranjou um lugar para dormir e tomar banho.

 

Já era noite quando conhecemos Matias, sua cuia de chimarrão e toda a boa vontade do mundo. Na casa simples que Matias dividia com outros amigos do CIMI (Conselho Indigenista Missionário), ficamos sabendo de histórias perversas que aconteceram em Apika’y. As mortes que ocorriam lá não eram “simples” homicídios, mas verdadeiras atrocidades. Alguns coronés haviam encontrado um grupo de idosos resistindo por suas terras, atiraram em seus pés e depois mandaram que corressem para que os próximos tiros não fossem pra matar. Uma adolescente indígena havia sido violentada por um grupo de calhordas que se revezaram para se satisfazerem.  E nós, que até então achávamos exagero a preocupação da FUNAI, compreendemos melhor a dimensão dos riscos. Matias, perseguido pelos coronéis e pistoleiros, mudava sua aparência a cada 30 dias e era uma espécie de missionário, que abdicou de sua vida pessoal por essa causa. Ainda lembro quando ele, bebendo tranquilamente seu chimarrão, nos disse: “A peleja é sofrida, mas esse povo é guerreiro. Vale a pena lutar por eles.

 

Nessa noite, absurdamente cansados, tomamos o melhor banho frio de nossas vidas e jantamos um macarrão delicioso feito por Bárbara e Straub. Eu, que sempre sofri de insônia, não demorei mais que dez minutos para cair num sono sem sonho algum.

 

Às seis da manhã do dia seguinte acordamos. E se o cansaço corroía nosso ritmo, a lembrança do que Matias nos contou na noite anterior fazia com que nossas energias fossem renovadas.

Lembro que um tempo atrás um amigo perguntou se na minha vida havia algum divisor que marcasse mudança entre quem eu era e quem sou agora. Naquele momento eu não soube responder, mas foi nesse dia.

 

Straub e eu levamos nossas câmeras e o desejo de fotografar e filmar para compreender a luta desse povo e levar a mensagem deles, para que mais pessoas, pessoas brancas e acomodadas a uma vida tranquila, pudessem ver que não se trata de um simples confronto, mas, alertados por Bárbara e Andréa, não sabíamos ainda se eles nos dariam tamanha confiança. Afinal, éramos forasteiros que saíram do conforto de suas casas e universidades de gente de classe média para aparecerem lá de repente.

 

Em Apika’y, a primeira pessoa que vimos foi ela, com seu boné surrado do Los Angeles Lakers: Cacique Damiana e seus 74 anos de sobrevivência. A última cacique de Apika’y. Damiana deve ter 1,50m de altura, mas é grande, é gigante. Logo em seguida apareceram outros que também vivem sem eletricidade, água potável, cuidados médicos, alimentação adequada e outras coisas que não passam do básico do básico pra nós. Dona Damiana viu a morte de seu pai aos 11 anos de idade, viu seu povo ser expulso de suas terras com suas casas e pertences queimados, assistiu sua tia já idosa morrer de intoxicação por agrotóxicos despejados por um avião sobre a comunidade, perdeu seu marido, três filhos e seu neto de apenas 4 anos nessa luta pela terra.

Dona Damiana nos abraçou, viu as câmeras ainda desligadas e disse “Leva! Leva mensagem. Leva aonde quiser!

Após suas rezas e bênçãos, Damiana nos levou para conhecer o cemitério onde seus ancestrais foram enterrados enquanto nos dizia: “Somos tratados como animais na nossa terra. Em nosso País. Sou vó, vi meu netinho Gabriel morrer, a camioneta passou três vezes em cima dele e tive que juntar os restos do meu neto. Ele tinha só quatro anos”.

Foi uma visita breve, mas saímos abençoados por eles, para que chegássemos em nossas casas em segurança, para que levássemos a mensagem dessa gente ao mundo, aos brancos que ainda não entenderam que “não foi o juiz, não foi o fazendeiro” que deram aquelas terras pra eles, mas sim o sol, como Damiana nos disse. Aquele sol que brilha pra todo mundo, que não vê quem é índio, quem é negro e quem é branco. A natureza não diferencia um do outro. Isso é coisa do homem. Dos homens covardes que matam, atropelam, estupram e violentam outros iguais pra conseguir mais dinheiro, pra conseguir mais terra.

 

A volta para casa foi silenciosa. Cada um de nós prosseguia absorvendo os ensinamentos recebidos de forma solitária. Eu, umbandista, após pisar em solo sagrado, onde os meus ancestrais viveram e lutaram, sequer sei descrever a grandeza do que vivi. Chegando em casa, me senti perdida. “E daqui em diante?” “Como voltar para a vida normal?” “Acaba aqui?” Entregamos muitas doações. Consegui fotografar. Edson conseguiu filmar. Gabriela Carvalho havia nos convidado a expor nosso trabalho em seu Café. Mas seria só isso? Quem receberia a mensagem de Dona Damiana?

 

Dias depois, quando a exposição no Quintana Café começava a tomar corpo, recebi uma mensagem de facebook. Era Cecília Kaplan, gerente do Bimbaê Córdoba, na Argentina. Cecília ficou sabendo do projeto e me convidou para expor em fevereiro de 2016.

 

No carnaval embarquei rumo a Córdoba, onde fiquei por 4 meses. Lá ninguém sabia que os nossos índios sofriam tanta crueldade. Os argentinos não conseguiam conceber os motivos que levaram nosso povo a cometer tantas barbáries e eu quase não conseguia explicar, me faltaram palavras. Essa terra tem dono! foi uma mostra de 30 dias no Centro de Expressão cordobense Cocina de Culturas, foi matéria do jornal de grande circulação La Voz e de algumas outras plataformas argentinas.

 

Ainda não tive a oportunidade de retornar a Dourados, de rever a Cacique Damiana e lhe dizer que fiz o possível para levar sua mensagem. Ainda não tive a oportunidade de abraçá-la e agradecer por ter me ensinado o que é resistir, o que é ser uma mulher guerreira, disposta a dar a vida pela peleja, disposta a defender os seus sem que nada seja impedimento, nem a morte e nem a miséria. Seu rosto marcado pela dor de tantos percalços permanece na parede da sala da minha casa e para ele eu olho todos os dias, lembrando que as pequenas batalhas cotidianas não são nada, que o sol permanece lá e que há de chegar um dia em que nos respeitemos como irmãos nessa terra que sangra por nos ver em constante embate.

 

Co ivi oguerecó yara” deu nome à minha primeira exposição. Esse foi o grito de guerra sempre pronunciado pelo Cacique Guairacá, que garantiu vitória em diversas batalhas no início do século XVII, quando espanhóis tentavam escravizar os índios. Hoje, enquanto escrevia esse texto, recebi a notícia de que mais um Guarani-Kaiowá foi assassinado. E anteontem outros dois. A luta não acabou. Talvez eu não veja ter fim. Mas enquanto estamos aqui, bebendo água potável, dormindo em nossas camas macias, sem que a iminência de um tiro nos tire a vida, os Kaiowá resistem bravamente. Pelas suas rezas e canções se fortalecem. As imagens produzidas naquela breve expedição seguem presentes, vivas, mostrando a dor dessa gente, mas também sua perseverança. A força de uma presença humana que, mesmo indesejada e ameaçada, nunca será apagada, e que luta para brilhar, agora e sempre.

♦♦♦

Sobre a artista:

 

Ana Rivelles é bacharel em Direito pela Unibrasil. Produtora cultural, transita entre fotografia, cinema e artes visuais. Atualmente, é produtora da • AIREZ • Galeria de Artistas Independentes. Seu interesse profissional está voltado para documentação e denúncia de questões sociais e humanitárias, procurando não se afastar do lirismo ou da sensibilidade.

 

behance.net/anarivelle1000

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