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Édipo Tirano, vv. 863-910

Imagem: cena do filme Oedipus Rex de 1957, baseado na adaptação do texto de Sófocles feita por William Butler Yeats.

Leonardo Antunes estreia na R.Nott trazendo um pouco de sua tradução, acompanhada de uma belíssima introdução, de Édipo Tirano, tragédia escrita por Sófocles no século V a.C. Não deixe de conferir!


“Honra a Apolo não se vê em nenhum lugar.

Os ritos se perdem.”

Sobre o nome da peça

 

Antes de falar sobre o que me levou a traduzir a obra-prima sofocleana, já tantas vezes e tão habilmente traduzida, e muito antes de comentar e mostrar o trecho que escolhi para dividir com vocês, preciso falar sobre o título escolhido: Édipo Tirano.

 

Desde o início da tradução, tenho lutado com este problema: como traduzir τύραννος?

 

A palavra “tirano”, em Português, não tem a mesma conotação da palavra τύραννος em Grego: τύραννος é aquele que sobe ao poder não por voto nem por sucessão hereditária legítima, mas por um golpe. Se será benevolente ou terrível, é irrelevante a seu estatuto de τύραννος.

 

A opção canônica é traduzir por Édipo Rei, mas isso apaga um problema inerente e discutido dentro da própria peça: o do estatuto do poder de Édipo, que é chamado por vários títulos pelas personagens, dependendo do momento e da afinidade com o protagonista.

 

Outra opção, que cogitei inicialmente, era a de esquivar-me do problema, chamando-a apenas de Édipo, e, ao longo da peça, traduzindo τύραννος por “soberano”, “monarca” ou algo assim mais neutro. Porém, isso também apaga o caráter precário do poder de Édipo, mantido não por prerrogativas legais, mas por força de sua inteligência.

 

Depois de toda essa volta pelas possibilidades, decidi que era melhor manter “tirano” simplesmente, que, se não tem de imediato a acepção ideal, ao menos chama atenção ao problema do que seja um tirano. No livro, isso se resolve de modo mais ou menos fácil com uma nota. Numa encenação, talvez se pudesse projetar a nota antes do início ou incluí-la no livreto a ser entregue à plateia.

 

Sobre o projeto de tradução

 

Deixando de lado o problema do título, devo dizer que o principal motivo para se traduzir alguma coisa é por amá-la. Em segundo lugar, e pensando de modo mais racional, minha razão para traduzir o Édipo Tirano é de caráter musical. Temos excelentes traduções já, tanto em prosa quanto em verso, para a obra de Sófocles, mas desconheço, em Português, uma tradução que tenha se preocupado em recriar a musicalidade do texto grego nos trechos corais a partir de uma aproximação rítmica. A equivalência métrica já foi tentada amiúde para as falas das personagens, mas os trechos corais são comumente tratados de modo mais livre, pela dificuldade de reproduzir, em Português, a essência variegada dos ritmos gregos.

 

A partir de uma abordagem musical, em que se espera que uma melodia criada para o texto grego possa ser aplicada também à tradução, é possível, como tenho mostrado e como tem se visto de modo admirável no trabalho do Pecora Loca, fazer com que o texto português adquira um andamento novo.

 

Esta tradução ainda é um trabalho em andamento e pode sofrer algumas mudanças até sua versão final. Por ora, não irei apresentar o trecho coral em música pois estou usando melodias provisórias para a tradução. Para o trabalho acabado e visando uma performance encenada, com canto coral e dança, espero contar com a ajuda de mentes mais habilidosas para essas outras artes.

 

Sobre o trecho apresentado

 

Neste coro, o terceiro da peça, encontra-se aquele que talvez seja o verso mais famoso de Sófocles: ὕβρις φυτεύει τύραννον (“híbris produz o tirano”). Curiosamente, também é um dos versos mais problemáticos, porque a ideia segue uma lógica inversa à observada no resto da literatura, em que a tirania é quem produz a híbris, e não o oposto, conforme atesta a peça de Sófocles.

 

Por conta disso, alguns editores chegam mesmo a alterar o texto, como Dawe, que anota: ὕβριν φυτεύει τυραννίς (“tirania produz híbris”).

 

Felizmente, a “última flor do Lácio, inculta e bela”, não se atém a essas minúcias de marcação sintática na declinação das palavras, de modo que, dentro de um discurso poético, onde a ordem das frases é frequentemente invertida, creio que o ouvinte possa facilmente entender “híbris”, em “híbris produz o tirano”, tanto como sujeito quanto objeto do verbo, à sua preferência interpretativa.

 

Foi assim que resolvi o dilema, evitando resolvê-lo.

 

Sem mais delongas, vamos ao trecho.


Édipo Tirano, vv. 863-910:

CORO

 

Que a Moira me encontre sempre a demonstrar

gentil pureza nas ações

e nas palavras, que obedecem normas

de altos pés, postas à luz

no etéreo céu, de um só pai: Olimpo.

Gerou-se não por mortal

estirpe de humanos, nem

jamais o oblívio vai colocá-la para descansar,

pois o deus é grande nas leis e não se esvai.

 

Híbris produz o tirano. Híbris, ao

inchar-se além da conta em vão

com coisas fora do seu tempo, inúteis,

ao subir no alto maior,

arroja-se à perdição extrema,

num ponto em que não há pé

de apoio. Mas peço ao deus

jamais na nossa pólis deixar solto um conflito assim.

Deus por protetor eu não deixarei de ter.

 

Mas, se alguém com arrogância

por ação ou verbo vai

sem medo nem da justiça

nem do assento de imortais,

terrível destino o tome

por orgulho desfeliz

se não lucrar seu lucro justamente

e de ímpios atos não fugir

ou se tocar no que jamais se toca.

Qual homem se ufana de evitar assim

flechas dos divinos na alma?

Se se derem honras a essas coisas eu

por que dançaria?

 

Nunca mais ao intocado

eu irei, ao ônfalo

da terra, nem mesmo ao templo

de Abas nem a Olímpia

se não se cumprirem esses

vaticínios aos mortais.

Regente, se correto assim te chamas,

Zeus, rei de tudo, que de teu

poder eterno não escape nunca!

As predições sobre Laio antigas já

se esvaziam e se esvaem.

Honra a Apolo não se vê em nenhum lugar.

Os ritos se perdem.

leonardo.antunes@ufrgs.br

<p>C. Leonardo B. Antunes é poeta, tradutor e professor de Língua e Literatura Grega na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.</p>

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