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É culpa da música?

Imagem: Norman Rockwell – The Music Man (1966)

De Platão a Barry White, para que serve a música senão para alterar ou influenciar o nosso estado de espírito? Seria ela capaz de influenciar ou conduzir ações concretas no mundo e na sociedade? Júnior Baracat investiga o tema.


“Embora o rock (assim como as sucessivas correntes inovadoras da música erudita e do jazz) faça o exato oposto da poesia pré-platônica, isto é, romper com a tradição estabelecida em vez de preservá-la, a preocupação com sua perniciosidade é a mesma.”

A música é capaz de moldar nosso caráter? Pode ela influenciar nossas ações e decisões? Nos tornaríamos pessoas melhores ou piores de acordo com a música que ouvimos? Pensando apenas na minha experiência própria, responderia que não – pelo menos nunca me apercebi agindo por influência da música. Mas sabemos que a discussão é bem mais complexa e bem menos ingênua do que a minha experiência particular. Desde Homero, é com o canto (aoidé) que as sereias enfeitiçam os navegantes para atraí-los e causarem sua perdição (Odisseia 12, 44). Da responsabilidade em suicídios (e.g. Ozzy Osbourne e “Suicide Solution”) e assassinatos (e.g. Charles Manson e “Helter Skelter” dos Beatles) ao estímulo do desenvolvimento cognitivo de bebês (e.g. “Mozart for Babies”), muita gente defende que a música (seja ela apenas instrumental, seja também vocal) tem, sim, a capacidade de nos afetar de modo intenso e – o mais importante – não racional, inconsciente.

Platão é provavelmente o ponto de partida da preocupação com os efeitos nefastos da música sobre a sociedade. A expulsão dos poetas da cidade ideal no décimo livro da República é bem conhecida, ainda que não tão bem compreendida. Um parêntese e um pedido de leniência aos classicistas: Platão expulsa os poetas, não os músicos; todavia, é preciso ter em mente que a poesia na Grécia pré-platônica não era lida individual e silenciosamente, mas era antes uma performance mais próxima de uma apresentação musical. Pois bem, Platão diz que é preciso banir os poetas/músicos da cidade se quisermos construir uma cidade que funcione bem. Por quê? Basicamente porque, numa sociedade em que a cultura era transmitida oralmente, a poesia era o meio mais eficiente para tal transmissão ser feita. Os poetas, sobretudo Homero e Hesíodo, eram os educadores dos gregos, pois incutiam nos ouvintes, de modo prazeroso e arrebatador, um imenso e variegado conjunto de informações religiosas, militares, sociais, técnicas etc. A poesia era o veículo para o ensinamento e para a manutenção dos valores tradicionais, do status quo; entretanto, esses valores tradicionais não só não haviam sido descobertos cientificamente como ainda carregavam inverdades perigosas (por exemplo: deuses que se comportam como humanos e que estão sujeitos à ira e ao ciúme, comentem adultério, e assim por diante). Como a poesia era parte central na educação das crianças e na diversão dos adultos, os valores tradicionais transmitidos por ela eram onipresentes. Não é à toa que, no quarto livro da República, bem antes de banir os poetas, Platão nos diz que nossa alma é tripartida: há a parte apetitiva responsável pelos desejos, a irascível responsável pelas emoções, e a racional responsável pela sabedoria e pela prudência. Não há felicidade, nem conhecimento, nem virtude, se a racional não rege as outras. E em quais partes age a poesia? Exatamente, nas partes irascível e apetitiva, e assim atrapalha o funcionamento da parte racional. A poesia é tão eficiente na determinação do comportamento da sociedade que precisa ser banida; quer dizer, não a poesia ela mesma, mas os poetas que existem e que são os responsáveis pela transmissão desses valores a serem rejeitados. A poesia admitida na nova cidade terá funções específicas e conteúdo controlado. Há mais coisa, muito mais coisa para dizer sobre isso, mas fiquemos por aqui. Entre os milhares de livros e artigos sobre o assunto, indico aos interessados o já ligeiramente antigo, mas sempre fascinante Preface to Plato, de E. A. Havelock (Harvard University Press, 1963).

 

 

Não vivemos mais na Grécia antiga, e nossos valores não nos são transmitidos nem preservados oralmente pela poesia/música. Além disso, há outra diferença fundamental entre a poesia/música que Platão quer expulsar de sua cidade e a nossa música: a poesia pré-platônica, como disse acima, preserva o status quo, ao passo que a nossa música contesta e reavalia os valores tradicionais. A história de todos os estilos musicais passa pela incorporação da tradição e pelo rompimento com ela, por releituras, inovações, paródias, esquecimentos, lembranças, adaptações e deformações da tradição. Se isso acontece na música erudita, o que dizer do rock, desde seu nascimento incômodo aos valores tradicionais? Embora o rock (assim como as sucessivas correntes inovadoras da música erudita e do jazz) faça o exato oposto da poesia pré-platônica, isto é, romper com a tradição estabelecida em vez de preservá-la, a preocupação com sua perniciosidade é a mesma. Ela advém do poder arrebatador que a música tem sobre nós, especialmente sobre os jovens, teoricamente mais frágeis e mais susceptíveis a esse poder: a indução ao sexo e às “coisas de negros” nos anos 50, ao sexo e às drogas nos anos 60, ao sexo e ao satanismo nos anos 70, ao sexo e ao sexo nos anos 80, ao sexo e ao sei-lá-o-quê depois disso. O mesmo efeito sobre as partes irracionais da alma que alarmava Platão.

 

 

(Segundo pedido de leniência: não acredito que haja apreciação musical que seja puramente racional, mas, apesar disso, reconheço que o apelo da música de vanguarda não se explica tão facilmente como o da música popular; afinal, alguém já sentiu uma vontade incontrolável de dançar ao ouvir Schoenberg, por exemplo? Mas isso é conversa para outro texto).

 

 

Creio que pouquíssima gente não concordaria que a música é fonte de prazer intenso e que ela nos afeta como poucas outras coisas. E, por mais fascinantes que sejam os relatos de Oliver Sacks acerca dos efeitos (perceptíveis, porém inexplicáveis) da música em pessoas com distúrbios neurológicos em seu Musicophilia. Tales of Music and the Brain (Knopf, 2007), a música continua a ser “um enigma”, na expressão de Steve Pinker; e mais: “no que concerne à causa e ao efeito biológicos, a música é inútil. Ela não mostra indício de um design para se atingir um objetivo como vida longa, netos, percepção e previsão acuradas do mundo. Comparada à linguagem, à visão, ao raciocínio social e ao know-how físico, a música poderia desaparecer de nossa espécie e o resto de nosso estilo de vida permaneceria virtualmente inalterado. A música parece ser uma pura tecnologia de prazer, um coquetel de drogas recreativas que ingerimos pelo ouvido a fim de estimular de uma só vez toda uma massa de circuitos de prazer (How the Mind Works, Norton, 1997, p. 543).

 

 

Voltando às nossas perguntas iniciais, parece que a música, apesar de nos causar tanto prazer ao excitar as partes apetitiva e irascível de nossas almas, nos termos de Platão, com pouca probabilidade nos levaria a fazer algo a que já não estivéssemos predispostos. E há um ótimo argumento para refutar o tal poder pernicioso da música, sem no entanto deixar de reconhecer o prazer que ela nos causa: se assumimos que a música pode levar ao suicídio, ao assassinato, ao uso de drogas, ao sexo, à rebeldia, ao satanismo, também precisamos assumir que ela pode nos levar à castidade, à sobriedade, aos santos, à igreja. Como diz o bom e velho Frank Zappa, que foi um dos muitos artistas perseguidos durante os tacanhos anos Reagan nos EUA, se a música nos influenciasse em algo, todos nós nos amaríamos uns aos outros, pois o que mais há no mundo são músicas de amor (eu juro que ele diz isso no The Real Frank Zappa Book, Poseidon Press, 1989, quando narra sua batalha contra o Parents Music Resource Center, mas estou sem meu exemplar para citar o número da página).

 

 

Tomara que ninguém lembre que o pessoal de um aquário na Inglaterra usou Barry White como trilha para encorajar tubarões a acasalarem e que, aparentemente, funcionou…

baracatjr@hotmail.com

<p>Graduado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (1997), mestre (2001) e doutor (2006) pela mesma Instituição, é Professor (Associado 3) de Língua e Literatura Gregas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tem experiência na área de Letras Clássicas e Filosofia Antiga, atuando principalmente nos seguintes temas: Neoplatonismo, especialmente Plotino (c. 205 – 270). No momento, dedica-se à tradução integral das Enéadas de Plotino.</p>

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2 COMMENTS
  • Cassiano 23/06/2017

    Belo texto, Junião, obrigado por nos alegrar com mais este! Uma única observação: “a poesia pré-platônica, como disse acima, preserva o status quo, ao passo que a nossa música contesta e reavalia os valores tradicionais.” A nossa música vírgula: nem toda ela. Se há muito aprendemos a nos debater com a tradição, há muito tb aprendemos q uma das maneiras de preservá-la, fortalecê-la e conformarmo-nos a ela é aparentemente contrariá-la. E infelizmente eu não vejo tanta energia renovadora e nem mesmo consigo ver muito o q seja “a nossa música”. Pode ser q seja influência de Godard, mas aí é um outro bom papo. Um abraço!

    • Junior Baracat 24/06/2017

      Obrigado pela leitura e pelo comentário, Cassiano! Você está inteiramente certo. Num texto curto e recheado de generalizações, é difícil não cometer algum deslize ou injustiça. A tradição certamente também se mantém pelo constante retorno a ela – “por releituras, inovações, paródias, esquecimentos, lembranças, adaptações e deformações da tradição”. Mas há duas questões que não cabem no texto e não vão caber nesta mensagem: 1) a primeira e mais óbvia é: o que exatamente entendemos por “tradição”? 2) E a segunda: mesmo que a tradição se mantenha, seja lá o que for isso, ela se mantém de modo imponente, impositivo,normativo? Eu tenho a impressão que não. Agora, precisamos nos encontrar pra conversar mais tradicionalmente. Grande abraço!

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