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Diferença festiva: Gogol Bordello contra o fascismo

Imagem: Gogol Bordello at Coachella

Gustavo Jugend estreia na coluna Ruído falando sobre a errância cigana e o não-estabelecimento de Gogol Bordello, na sua celebração às diferenças numa marcha contra as mais nefastas ideias fascistas.


“Gogol Bordello transforma as formas tradicionais de identificação e moldam uma forma de vida em combate ao fascismo. Uma forma de vida que não quer tornar nada grandioso como já foi, que aspira ao presente e o futuro”


Mussolini was a-shavin’, whistlin’ Tarantella,
Stalin was keeping eye on barbeque
When their fish line bell started to jingle,
Mussolini caught a-nothin’, Stalin caught two
O partigiano, portami via,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
O partigiano, portami via,
ché mi sento di morir.

Mais uma vez a música se torna arma contra o fascismo. Não que a idiotice se debele pelo canto, mas, talvez pelo canto possam formar-se modos de vida que debelem o fascismo. Isso não é novo; a Geleia Geral de Torquato Neto e Gilberto Gil, bem como toda a tropicália (incluindo-se aí um certo Mautner), já estava de olho nisso. Também um tal de Zappa, um Clash, uma Baez; um ancestral Guthrie e um contemporâneo Morello. E também um Bordello. Tudo isso e muito mais, músicos que se postam contra os grandes e os pequenos fascismos.

 

Para além de um fenômeno histórico e de uma posição política, o fascismo é um modo psíquico de estabelecimento de laços sociais. Em seu Torna, torna Garibaldi, discurso no qual Mussolini trouxe o termo a público pela primeira vez, já é possível reconhecer três dos principais aspectos psíquicos facho: a nostalgia e a promessa do retorno a um passado de glórias, a união daqueles que comungam desse passado contra os que supostamente que se colocam como obstáculo, e a noção de que a terra natal é o solo fértil de tais venturanças. Traduzindo em linguajeiro psicanalítico, trata-se de uma regressão narcisista, desejo de reviver um puro eu de prazer anterior à obrigação da renúncia que cada um deve fazer para viver em sociedade.

Explica-se[1]: formula um certo médico, sempre com charutos, que a série psíquica de prazer e desprazer se dá pelo rebaixamento da tensão de um organismo. Daí que, quando recém-nascida, a criança toma como idêntica a si mesmo tudo aquilo que oferece tal rebaixamento, isto é, a nutrição e a proteção; mãe e pai[2] – assim como diferencia de si tudo aquilo que lhe causa desprazer e dor. A esse estágio da vida psíquica Dr. Freud batiza de narcisismo primário, isto é, um puro eu de prazer, no qual sinto-me o mesmo que minha fonte de rebaixamento de tensão. No narcisismo primário vão se figurar modelos para o estabelecimento de laços durante toda a vida do indivíduo. Ele vai se ligar àqueles cujo modo de prazer lhe sejam semelhante, e rejeitar o diferente. Daí a ideia de um retorno em conjunto a um passado de glórias, isto é, um retorno a uma vida não castrada, apegada ao seio da mãe e protegida pelo pai: o direito à terra natal guardada pela força do estado. Se olharmos com atenção, tais ideais de passado glorioso que guiam os fascismos são ou míticos, ou inventados, ou religiosos (isto é, míticos e inventados); o estado, bom, olhando com atenção, o estado é tão mítico quanto. O que significa que ambas as tensões aí postas não são racionais, mas desejo de fonte narcisista. Livrar-se do desejo narcisista não é exatamente uma tarefa fácil, talvez impossível. Mas é possível, isso sim, mudar o destino desse desejo.

 

A música de Gogol Bordello já tem em seus arranjos e composições um indicativo de que aqui a coisa caminha em outras sendas. Com um movimento inverso da indústria cultural, que engole em pastiche tudo aquilo que já foi contracultura, os “punks ciganos” incorporam e desincorporam elementos regionais nas suas canções, para poder incorporar novos dados musicais de outros lugares. Misturam idiomas que vão do romeno ao português, da polca à cúmbia. Fazendo assim, Gogol Bordello se desidentifica do idêntico e se identifica com o diferente. De tal sorte que a ideia de que há um outro radical, isto é, um inimigo, só se apresenta na iminência do conflito:

 

 

Of course there is no us and them
But them they do not think the same
(Illumination)

 

 

A própria ideia de “punks ciganos” já indica marginalidade e errância daquele cuja vida não se liga a outras nem por identidade, nem por territorialidade. Aliás, talvez seja a errância, o elogio da migração, o não-estabelecimento em porto qualquer, a marca mais evidente de Gogol Bordello:

 

 

Hoptza! I see another immigrant punk!
There is a little punk rock mafia
Everywhere you go
She is good to me and I am good to her…
Legalize me! Realize me!
Party!
(Immigrant Punk)

 

 

Back in the day yo as we learned
A man was not considered to be
Considered to be fully grown
Has he not gone-a beyond the hills
Has he not crossed the 7 seas
Yeah, 7 seas at least!
(Wonderlust King)

 

 

Assim como também a luta pelo lugar e descriminalização do imigrante:

 

 

Immigrada, Immigraniada
We comin’ rougher everytime
(Immigraniada)

 

 

Em canções que unem a desidentificação territorial, o desejo pelo diferente e pela metamorfose, e que sempre celebram a alegria, até mesmo frente à morte (lembremos que para o fascista a morte é heroísmo e luto)…

 

 

To the song of wheels
All demons die
Rays of joy, they multiply
Harmony, you will be my bride
But when the sun comes up
I’ll let out last breath
And slumber softly into the death
(Sun is on my side)

 

 

Gogol Bordello transforma as formas tradicionais de identificação e moldam uma forma de vida em combate ao fascismo. Uma forma de vida que não quer tornar nada grandioso como já foi, que aspira ao presente e o futuro, que aspira novas e sempre novas identificações:

 

 

There was never any good old days
They are today, they are tomorrow
It’s a stupid thing we say
Cursing tomorrow with sorrow
(Ultimate)

 

 

Amaldiçoando o passado glorioso e almejando o futuro incerto, finito e sem destino, a ‘cigania vagabunda’ não somente descreve um modo de viver dançante – que, aliás, já era vislumbrado pelas patrulhas da CNT; sabedor que se no coração do fascismo reside medo, doses moderadas de satisfação e frenesis de violência, Gogol Bordello faz de sua poesia, de sua rítmica, uma proposta. A proposta de um mundo (muito a lá Malatesta) em que as noções de irmandade tão mal versadas se fixem não naquele que se lhe assemelha, mas naquele que o difere. Uma diferença festiva.

 


[1] Peço desculpas pela intromissão de um parágrafo acadêmico em uma revista de arte; quase que usei o termo ‘sublime’.

[2] E aqui já vemos um nexo nada fortuito entre o fascismo e a família tradicional.

gustavojugend@gmail.com

<p>“eu sou como eu sou / agora / sem grandes segredos dantes / sem novos secretos dentes / nesta hora” – Torquato Neto</p>

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