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Dai, pois, a César o que é de César

Depois de tantos séculos, as antigas Comédias ainda tratam de nós, de nossa humanidade. Leandro Cardoso volta para a coluna de Literatura para tratar de Terêncio, e do que nos é comum.


“sou humano: nada do que seja humano eu considero alheio a mim.”

Existem algumas frases da literatura que acabam ganhando corpo pra além do lugar em que foram, se assim podemos dizer, originalmente performadas. Isso acontece, é fato, com frases, passagens mais longas, temas e cenas de toda a literatura – e com outras artes também –, mas hoje falo a partir do meu lugar nesse mundo. Há uma frase encontrada em uma das comédias de Terêncio, um comediógrafo latino (para sermos mais exatos, cartaginês, como se acredita) de meados do séc. II a.C., que é comumente evocada como uma espécie de máxima humanista detentora de um profundo sentido ético (lembremos que falo, aqui, de literatura latina, não de literaturas ou gêneros mais conhecidos, então o comumente é bastante relativo). A frase, no latim homo sum: humani nil a me alienum puto, pode ser traduzida como “sou humano: nada do que seja humano eu considero alheio a mim.” Não é difícil, pois, percebermos nela uma possível verdade ética e mesmo moral, uma consciência social resultante do autoconhecimento e da percepção de que pertencemos à espécie humana e, portanto, nada que seja humano (o conhecimento, as experiências, as relações, os afetos, a convivência, etc.) está distante de nós, deixa de nos dizer respeito.

Pois bem. A sentença pode dizer isso sim – ou melhor, pode ter esse sentido. Mas a sentença, com esse sentido, pode ser atribuída ao Terêncio? Talvez não. A frase é dita por Cremes, um personagem do tipo ancião (os personagens na comédia romana eram bastante tipificadas) da peça Heauton Timorumenos (v. 77), algo como “O algoz de si mesmo”. Cremes é vizinho de Menedemo, outro ancião, que possui uma relação algo complicada com seu filho mais novo, Clínias – relação essa que move a trama da comédia. Pois bem, durante a peça, é possível percebermos que Cremes possui uma insaciável vontade de conhecer, nos detalhes, a vida de seus vizinhos, especialmente no que diz respeito aos seus casos amorosos. Em outras palavras, Cremes é, pois, um baita de um fofoqueiro. Em determinado momento, durante uma conversa entre os dois anciãos, Menedemo pergunta (v. 75-76): “Cremes, por acaso és tão tranquilo com relação aos teus assuntos que cuidas daqueles que em nada te dizem respeito?”, ao que, então, Cremes responde (v. 77-79): “sou humano: nada do que seja humano eu considero alheio a mim. Imagina que eu te advirta ou pergunte algo: se for o certo, é para que eu faça; se não for, é para que eu te desencoraje.”

 

Em que se assemelham, então, aquele sentido de alta consciência ética e social que se costuma atribuir à frase terenciana e o sentido que nela podemos ver na peça em que foi inscrita por Terêncio? Em muito pouco ou quase nada. Embora nela exista, mesmo que dita por Cremes, certa ética, me parece muito pouco provável que o uso dessa frase como uma máxima humanista tenha em vista a mesma ética que rege o comportamento de Cremes. Ainda que ele justifique seu interesse na vida alheia como uma forma de copiar boas ações e advertir sobre as prejudiciais, todos, ao lermos a peça e entendermos seu contexto, sabemos que o ancião está justificando, na verdade, seu comportamento bisbilhoteiro, a única forma que ele encontra para tentar saciar sua ânsia pela vida alheia. Se eu sou humano e você também é humano, Menedemo, nada do que você faça deixará de dizer respeito a mim também, então é lícito que eu me interesse. Eis Cremes e sua humanidade. Eis o que “Terêncio quis dizer”, como ainda se diz, colocando a famosa sentença na boca de um ancião fofoqueiro.

 

Sendo assim, aqueles que veem a frase quase como um preceito humanista cunhado por Terêncio estão errados? Também acho que não. E explico. A poesia (e entendamos aqui, como poesia, aquilo a que chamamos literatura, e não somente poema) pode ser pensada como uma forma de relação do homem com o mundo e consigo mesmo, visto que geralmente surge de relações entre o homem e as coisas do mundo e também as expõe, das mais variadas formas. A Comédia Latina, um gênero poético bastante importante na história da literatura dos romanos e que se desenvolveu não como traduções da Comédia Grega, mas a partir da tradução de comédias gregas tem, portanto, como base, um gênero que está bastante próximo do seu contexto de surgimento: muito daquilo que se vê nas peças que nos restaram dos gregos foi inspirado nos comportamentos e nas estruturas sociais da Atenas do séc. IV a.C., principalmente. De certa forma, então, o público que assistia às comédias, a despeito de toda a estilização vinculada ao gênero, podia perceber algo de si próprio e do seu cotidiano acontecendo ali sobre palco. O que eles faziam ao reconhecerem a si próprios ou ao reconhecerem situações e comportamentos não podemos afirmar – é justificável, contudo, afirmar que, ao menos em um primeiro momento, eles riam, pois se tratam de peças cômicas –, mas a possibilidade desse reconhecimento, seja em que nível for, é inegável.

 

Dificilmente nós, ao lermos essas peças, temos disponíveis as mesmas possibilidades de reconhecimento que os gregos e romanos tiveram, basta pensarmos que estamos delas separados por mais de 20 séculos – bastante intensos, diga-se de passagem. Mas essas peças ainda nos falam, mesmo que coisas muito diferentes, mas ainda nos falam – afinal de contas, somos todos humanos. Se à frase dita por Cremes no Heauton Timorumenos atribuímos um sentido diferente daquele que a vemos assumir dentro da peça, não é, pois, porque não sabemos apreciar o texto terenciano, porque somos ingênuos ou porque desrespeitamos a obra do mestre: é porque somos cleptomaníacos – e dos mais descarados. A frase de Cremes não só nos diz de Cremes e de sua relação com seus vizinhos, mas nos serve também para que digamos da nossa relação com o mundo e com tudo que nele se inclui – ou ao menos da relação que almejamos ter. A justificativa de um velho fofoqueiro não justifica uma consciência social ética e séria nos termos em que a pretendemos, mas nós nos apoderamos dela e mudamos-lhe o sentido. E tudo bem, pois (também) é assim que se dá a nossa relação com a poesia. Mas dai a César o que é de César: esse humanismo é nosso, e não era um valor para Cremes, nem um preceito apregoado por Terêncio por meio do seu personagem.

leandrodorvalc@gmail.com

<p>Doutorando em Literatura pela UNESP/Araraquara. Tradutor e leitor.</p>

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