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O submundo da tradução: Leandro Cardoso fala do reconhecimento da atividade tradutória, que talvez seja o meio mais valioso de interação entre diferentes culturas; coisa de que ninguém se dá conta.

“A tradução, sendo assim, é a prova de que o contato com o outro, e não importa o quão diferentes ou parecidos sejam os elementos em contato, pode gerar resultados valiosíssimos.”

Há tempos venho adiando um texto sobre tradução para esta coluna, mas, com um ensejo perfeito – o ensejo é mais para mim, para que eu me sinta à vontade de entrar no assunto, do que para o tema, pois não é necessário um contexto determinado para que se fale de tradução –, pois bem, com um ensejo perfeito como a comemoração do Dia Internacional do Tradutor no último 30 de setembro, encorajo-me. A cada ano, desde 1991, o Dia do Tradutor é celebrado nessa data, estabelecida pela Fédération Internationale des Traducteurs, a FIT; não por coincidência, no mesmo dia é rememorado o falecimento de São Jerônimo (347? – 420), conhecido como o tradutor da Vulgata, a primeira versão da bíblia traduzida ao latim diretamente do hebraico – embora existam dúvidas sobre o quão diretamente ela tenha sido vertida do hebraico. Por esse motivo, Jerônimo, comumente representado como um velhinho careca, magro e barbudo arqueado sobre livros e papéis ao lado de um leão, que ele teria domado após curar-lhe um ferimento na pata, é reconhecido pela Igreja Católica Apostólica Romana como o padroeiro dos tradutores – e também dos bibliotecários e enciclopedistas. Grande Jerônimo! [e nem vou me deter em como pode ser produtiva para se pensar o trabalho do tradutor a imagem de alguém que doma um animal selvagem arrumando-lhe uma solução para um seu problema].


Como a maioria das efemérides em que são lembrados profissionais cuja função não aparece às claras no mundo, o que não é de todo ruim, podemos dizê-lo, o dia do tradutor passou a ser um dia em que os próprios profissionais ou entusiastas dessa atividade trocam felicitações um tanto tímidas entre si e compartilham, em redes sociais, imagens que demonstram a importância e o labor da tarefa que exercem – muitas delas, diga-se de passagem, poderiam ser adaptadas a diversas outras atividades sem que deixassem de fazer sentido. É o eterno problema do específico da tradução se manifestando nisso também. Mas isso é assunto para outro momento. A questão aqui é de reconhecimento.


É muito fácil, e muitos o fazemos, atribuir qualquer aspecto negativo de um texto traduzido, mesmo aqueles mais subjetivamente percebidos como negativos, à imperícia do tradutor – e muito mais comum, infelizmente, atribuir-lhe imperícia por um simples aspecto negativo presente no texto final. Como se o tradutor fosse o único responsável pelo texto que sai impresso em forma de livro, por exemplo; como se todos fôssemos competentes na língua estrangeira do original que lemos em tradução a ponto de realizar o exercício crítico; como se qualquer defeito deva ser atribuído só, e somente só, ao tradutor, já que a instituição autor não é passível de erros textuais – um personagem mal elaborado sim, uma frase bisonhamente escrita, jamais! Essa só pode ser um erro do tradutor orelha seca. Quando se tratam de títulos, então, as orelhas de tradutores, secas ou gordinhas, fervem – afinal de contas, a comparação imediata entre o título original e o traduzido é bem mais fácil, especialmente por se tratarem, no máximo, de uma frase, quando não de simples sintagmas. Como se não houvesse toda uma questão de mercado determinando o título das obras, geralmente algo mais importante para quem contrata o tradutor do que a relação entre o original e o traduzido – sim, quem contrata geralmente manda, no mínimo, em uma ou outra coisinha do texto. Contudo, apesar de todas essas ressalvas, os tradutores erramos sim, como erram os autores, os revisores, os editores, os preparadores, os diagramadores…


Mas a questão aqui é de reconhecimento. Há um tempo, teve início a campanha “Nome do Tradutor”, encabeçada pela ABRATES (Associação Brasileira de Tradutores e Intérpretes) e pelo SINTRA (Sindicado Nacional dos Tradutores), cuja palavra de ordem é “Todo livro tem um autor, todo livro traduzido tem um tradutor”. O reconhecimento dos profissionais da tradução e a sua valorização são bandeiras extremamente importantes a serem levantadas tanto por tradutores, como por órgãos em torno dos quais eles podem se organizar, como o são as associações e sindicatos. Tal busca por reconhecimento, porém, pode trazer problemas se for tomada como simples agenda para o estabelecimento da instituição tradutor, como há a instituição autor. Seria bastante bacana se a responsabilidade dos tradutores pelos textos traduzidos fosse vista de forma análoga àquela dos autores por seus textos, garantindo àqueles não só a culpa pelos erros, mas os confetes pelos méritos. Mas isso não é tudo, e talvez nem seja o principal da questão.

 

Que se reconheça o tradutor como o responsável pelo texto traduzido e que isso tenha
consequências tanto para a abordagem crítica de seu trabalho – quer ela ocorra exclusivamente na academia, quer em minúsculos parágrafos de resenhas publicadas em diferentes meios de informação – como também, e principalmente, para as questões legais que envolvem o exercício da atividade. Até mesmo para a referenciação da obra em trabalhos acadêmicos e bibliotecas: por que não colocar, junto com o nome do autor e com os mesmos destaques, o nome do tradutor, tão ou mais responsável pela obra física que o seu autor? O reconhecimento do profissional, porém, não é a única carência envolvida na atividade; bastante relacionada a ela, mas bem menos considerada, me parece, é o caráter de tradução do texto traduzido – nem falo aqui sobre as brigas teóricas, críticas e mesmo filosóficas da academia em torno da condição de diferença da tradução em relação ao original, ou da crença da originalidade envolvida na recepção de uma obra traduzida. O fato é que isso, o ser tradução, deveria ser uma questão para quem lê a obra; ou melhor, deveria ser apresentado como uma questão para o leitor, seja aquele taxado como “comum”, seja o autointitulado “especialista” ou “profissional”. E surge a pergunta: “Por que deveria ser assim?” E eu ofereço, como resposta, outra pergunta: “Por que não ser assim?”.


Não penso aqui, é claro, que todos devam atentar para a tradução comparando-a com o seu original. Não se trata, enfim, de um manifesto pela criação de multidões de críticos capazes de julgar o trabalho do tradutor a partir do exercício crítico que esse tipo de texto, enquanto tradução, exige. Uma obra traduzida é mais que uma obra assinada por um tradutor; ela é uma construção que se fundamenta no contato entre diferentes: um texto específico, escrito em uma língua específica, por uma pessoa específica e que se relaciona de um modo específico com vários contextos do lugar em que foi escrito, é transplantado, não sem que se alterem violentamente algumas de suas especificidades, em um outro texto, escrito por uma outra pessoa, para uma outra língua e para outros contextos certamente diferentes daqueles de onde ela originalmente surgiu. E, o que é mais incrível, isso funciona! E é impossível que não ganhemos nada quando, mesmo incapazes de ler na língua em que o original foi escrito, paramos pra pensar na potencial impossibilidade de que dê certo uma atividade que busca construir um texto tão ontologicamente ambíguo como o é um texto Traduzido e, ao final, vemos que, de um modo ou de outro, essa atividade acaba fazendo surgir aquele texto – ou ao menos algo que possa ser minimamente identificado àquele texto – em e por um outro texto.


A tradução, sendo assim, é a prova de que o contato com o outro, e não importa o quão diferentes ou parecidos sejam os elementos em contato, pode gerar resultados valiosíssimos. Avanços culturais, tecnológicos e científicos só surgem a partir do intercâmbio de informações e ideias, do que a tradução é uma das engrenagens. Ela nos mostra que é possível aprender e construir-se a partir do contato, ainda que mediado, com o diferente, com o distante. Em tempos de um hedonismo e de um individualismo desproporcionalmente celebrados, em tempos de valorização de ideias perigosamente nacionalistas, a tradução é a prova de que a relação entre os diferentes é produtiva, que ela nos ensina, nos modifica e nos torna melhores, ainda que às vezes sejam tortuosos os caminhos. Pra isso não é necessário ser crítico ou teórico ou pensador da tradução; mas é preciso que se saiba o que é uma tradução, e o que ela põe em jogo. Que, portanto, se reconheça não só o tradutor, mas também a tradução, especialmente como algo que surge a partir do contato com um outro, com um diferente. E toca o barco.

leandrodorvalc@gmail.com

<p>Doutorando em Literatura pela UNESP/Araraquara. Tradutor e leitor.</p>

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