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da música instrumental

Lielson Zeni, colunista convidado para escrever a coluna Ruído deste mês, se embrenha, ou quase, nas densas matas da música instrumental. O que é a música sem palavras? Que energia ela emite e o quê, enfim, ela nos diz?

“Embora a falta de palavras possa ser uma quebra de comunicação, a música instrumental sai em movimento contrário, criando uma bomba de sentidos e significados pela não-palavra.”

Há quem não goste de filmes com câmeras paradas e sem pressa, há quem não goste de quadros com manchas que não se parecem com pessoas, há quem não goste de livros de linguagem inconstante. Não entendo esse povo, mas beleza, cada um do seu jeito e seguimos.

 

Mas de quem não gosta de música instrumental… bem, nesse caso, sou obrigado a ter pena mesmo. Nem vou falar de sinfonias e esses lances maneiros de música erudita visto que NÃO DOU CONTA, tô pra te falar de música dita pop, mais especificamente do dito post rock, que trato como a trilha sonora do dito tudo.

 

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É, tudo. Ponto. Trilha motivadora pro trampo mala, som de fundo pra escrever sobre música, companheira sonora do trem e, maior até que o tudo, alma do fone que me salva das conversas que não quero ouvir.

 

E se você não quer ouvir, tá justo, tá correto, tá bonito, um (vamos dizer) ruído/mm (OUÇA AQUI http://www.ruidomm.com/) pode salvar sua vida. Aliás, este texto saiu de um processo de ouvir os discos da banda em looping até tudo perder o sentido e começar de novo a fazer sentido.

 

Eu não sei se é besta dizer que não saber sobre o que escrever (filosofia + música), ou seja, o que me deixou sem palavras, me fez pensar em música instrumental.

 

Embora a falta de palavras possa ser uma quebra de comunicação, a música instrumental sai em movimento contrário, criando uma bomba de sentidos e significados pela não-palavra. Sim, porque o Introdução a cortina do sótão está entupido de não-palavras. Feche os olhos e veja.

 

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Eu sei que o acordo ortográfico mais recente do português prevê não-hífen em “não-palavra”, mas eu gosto assim. Eu olho pra ela e fico bem. Me deixa.

 

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Eu sei que o acordo ortográfico mais recente do português prevê não-hífen em “não-hífen”, mas eu gosto assim. Eu olho pra ela e sorrio. Sorria também.

 

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Maurice Merleau-Ponty, filósofo francês bem ranqueado lá em casa, disse que “[…] a linguagem, em todo caso, se assemelha às coisas e às ideias que ela exprime, é o substituto do ser, e não se concebem coisas ou ideias que venham ao mundo sem palavras. Seja mítico ou inteligível, há um lugar em que tudo o que é ou que será prepara-se ao mesmo tempo para ser dito.” (p. 33)*. O que pode ser lido como uma PROVOCAÇÃO.

 

Num textinho curto (“O Fantasma de uma linguagem pura”, capítulo inicial de A prosa do mundo, projeto de livro abandonado), M-P pensa a linguagem falada e escrita, cutuca também DE LEVS as artes visuais (que ele desenvolveria melhor em textos como O olho e o espírito e A dúvida de Cézanne), pensa sobre os algoritmos matemáticos, mas não fala da música.

 

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OU SEJA, não venha zoar o Merleau-Ponty, porque sou quem tô esticando o conceito dele.

 

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Qual seria o lugar da música instrumental já que não se concebem coisas ou ideias que venham ao mundo sem serem palavras?

 

Temos aí duas matas conceituais pra se embrenhar, mas eu só vou mostrar quais são e não vou entrar nelas, tá?

 

— Chame de medinho se quiser, não me importo —

 

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1) o M-P tá de brinks e quis mostrar como essa ideia de linguagem pura (atente ao título do artigo lá em cima) é zoada, se liga: “Não há virtude na fala, nenhum poder oculto nela. Ela é puro signo para uma pura significação. Aquele que fala cifra seu pensamento. Ele o substitui por um arranjo sonoro ou visível que não é mais que sons no ar ou garatujas no papel.” (p.35).

 

2) ele tá pensando que o processo composicional passa pela palavra, pois envolve o pensamento e que a música instrumental é um catalisador da expressão verbal, ainda que só aponte pra palavra nisso que eu tenho chamado de não-palavra.

 

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Pra escangalhar um tanto mais, Merleau-Ponty fecha o ensaio com a seguinte ideia: “Afinal, compreendo o que me dizem porque sei de antemão o sentido das palavras que me dirigem, e enfim só compreendo o que já sabia, não me coloco outros problemas senão os que posso resolver.” (p. 36).

 

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E o ruído/mm, que se dirige a mim por notas musicais? Deveria propor que eles não fazem sentido?

 

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De novo, ele tá pensando em língua falada/escrita. Mas eu tô loqueando e forçando os conceitos. \m/

 

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Se você só pode compreender o que eu escrevo por trazer em si um sentido imutável pra estes signos, não pode haver cognição do novo, nem reposicionamento de conhecimento anterior. Portanto, não há aprendizado. Se não há aprendizado, como você poderia ter aprendido os sentidos primeiros que leva consigo?

 

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Opções: eu tô lendo mal o texto, o Merleau-Ponty é um zoão ou se trata realmente de paradoxo no pensamento do cara.

 

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Quando há silêncio na música, pode ser apenas um momento congelado de tempo entre duas notas, momento que apenas aguarda até fazer parte de uma harmonia. As músicas instrumentais me lembram que o princípio era o verbo, que vai vir mais palavras depois e que esse entremeio é o lugar para tudo e para nada.

 

 

*Todas as citações foram tiradas de “A prosa do mundo”, coleção portátil n. 12, com tradução de Paulo Neves, Cosac Naïfy, 2007.

por Lielson Zeni

vinicius.rnott@gmail.com

<p>Doutorando em Estudos Literários pela UFPR. Tradutor. Estudante da literatura grega antiga. Autor de artigos científicos que ninguém nunca vai ler. Escritor. Autor do livro de contos ‘Razões do agir de um bicho humano’, publicado pela Confraria do Vento em 2015. Curioso do desenho e da fotografia. Nunca um entusiasta.</p>

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