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da leitura pública de textos poéticos

Imagem: Charles Dickens – Public Reading – Wood engraving from Harper’s Weekly, 7 December 1867

O fenômeno da literatura em leituras públicas: Leandro Cardoso discute o assunto da leitura e da mediação de textos com Flávio Stein, que é mais do que especialista no tema. Confira!


“A meu ver, é isso que nos falta hoje, no senso comum: a permissão de ler. É aproximar, novamente, a literatura da vida comum, ordinária.”

 

A leitura de um texto poético, seja prosa ou poema, possui (e nem poderia ser diferente) algumas dimensões extremamente pessoais: cada um de nós sabe de seus próprios daemones, as vozes que falam nossos pensamentos e as coisas que lemos, mas também do que fazemos com o texto após a leitura, de como ele se torna nosso – por exemplo. Pensar em tornar pública essa abordagem bastante particular pode não ser, então, somente uma externalização de vozes pessoais, mas também o resultado da equação de diferentes questões, inclusive de como relacionar o nosso texto, construído como uma experiência pessoal, com o texto escrito, aquele a partir do qual chegamos ao nosso. Somados a isso, leitor, texto, público e objetivo determinam uma série de escolhas a serem feitas e muito bem pensadas.

Para discutirmos a leitura pública nesta edição, entrevistamos Flávio Stein*, personagem importante da cena cultural curitibana, conhecido diretor teatral, musical e dramaturgista, mas também responsável pela curadoria de diversos projetos de incentivo à leitura, tais como Brasis: Leituras Plurais (2009); XX Narrativas do Século XX (2010) e entreMundos: mundo da leitura, leitura do mundo (2011). Mestre em Letras (Estudos Literários) pela UFPR com a dissertação Ler e vocalizar o texto literário: processos de mediação de leitura, Flávio Stein aceitou discutir conosco alguns pontos importantes dessas questões todas. Sem mais que não possa ser esclarecido pela conversa, a ela, então.

 

 

LC – Qual sua experiência como ouvinte de textos literários? Em que medidas você crê que o ouvinte seja afetado pela leitura?

 

FS – Nos últimos anos, eu tenho estado do lado de quem “fala/lê” o texto… mas a tua pergunta me fez buscar na memória minhas primeiras experiências como ouvinte, que claro, foram responsáveis pelo meu envolvimento atual com a leitura em voz alta.

 

A lembrança mais forte que me vem foi ter assistido no MASP, em São Paulo, com 16 ou 17 anos, um concerto de um grupo de percussão executando uma obra do Mário Ficarelli com a presença de um narrador lendo o conto O Poço e o Pêndulo de Edgar Allan Poe. Mas lembro também de 2 professores… um de português e teatro na escola, que lia regularmente, em sala, para os alunos textos literários, e o segundo, grande especialista em música antiga, que em todos os seus concertos recitava poemas da Idade Média ou do Renascimento.

 

Em todos os casos, o impacto era de ordem dupla: a presença cênica do leitor/narrador/recitante de um lado, com sua voz grave, seus gestos e olhares que sem dúvida causaram um efeito profundo, auditivo e visual, em mim; seja pelo aspecto estético, seja pela experiência dessa troca viva, de energias, que se dá entre um leitor público e um ouvinte. E de outro lado, o impacto do texto, com seus significados e a narrativa de alguma experiência humana.

 

Tenho certeza hoje, analisando essas vivências e as que pude presenciar através das minhas leituras, que uma narrativa literária por si só já tem um grande poder de atingir aquele que ouve, ao fazer que este reflita sobre o que está sendo narrado, na medida em que aquele evento pode espelhar alguma experiência sua, própria do ouvinte, já vivida ou prestes a viver… e que nesta medida o ouvinte se identifica, seja de maneira positiva ou mesmo negativa, não importa. Importa que essa narrativa o leva a pensar sobre suas próprias experiências e a rever conceitos, escolhas, autodeterminações e, inclusive, a visão de que cada um tem do futuro e dos seus desejos e interesses. Sem dúvida, a maneira de narrar, ou melhor, de ler, é fundamental para que o efeito, o impacto da leitura seja mais duradouro e efetivo ou não.

 

Uma leitura sem intensidade, sem uma preocupação com o texto e suas características, suas sonoridades e significados particulares, pode facilmente distanciar o ouvinte e não atraí-lo, tornando a experiência um entretenimento fugaz, esquecido instantes depois do final da leitura.

 

O grande mistério que a literatura de maneira geral nos oferece é que não temos ideia do que pode acontecer conosco ao iniciarmos uma leitura. Esse “penhasco” que se abre, quando abrimos um livro, talvez seja uma das grandes descobertas que um leitor pode ter. Entender que o inexplicável o aguarda. Que não se pode prever para onde seremos transportados e, por isso, concordo tanto com a afirmação de uma das grandes pensadoras sobre leitura da atualidade, Eliana Yunes, quando ela diz que “[…] quem vai ao encontro de um texto (livro, filme ou cidade), vai ou deveria ir com seus nervos, informações e interesses, reunidos sob sua experiência de vida.” Isto é, prontos para o salto!

 

A leitura de uma obra literária pode nos afetar de inúmeras maneiras e com intensidades absolutamente diferentes. Depende exclusivamente do nosso grau de abertura e disponibilidade para que isso aconteça e da relação que conseguimos estabelecer com cada texto.

 

 

LC – A leitura não se apresenta como um ato passivo, em que o leitor simplesmente encontra os caminhos criados pelo autor no texto, mas também como um ato bastante ativo, no qual quem lê determina muitos dos sentidos do texto. Sendo assim, de que modos a criatividade de quem lê publicamente pode interferir não só para “despertar um leitor” em quem ouve, mas também na própria criação do texto lido?

 

FS – Na década de 70 do século passado, através do famoso grupo de pensadores da Escola de Constança na Alemanha, foi comprovado que qualquer leitura, mesmo a silenciosa, nunca é passiva. O conceito de “Leerstellen” (espaços vazios), elaborado por eles, existentes em qualquer texto, descreve muito bem a necessidade (e importância) de que o leitor, em todo e qualquer texto, “complete” o texto. Isto é, a menos que seja uma leitura desatenta, distraída, o leitor tem o papel fundamental de dialogar com o texto. O leitor lê cada texto através da sua experiência de vida e, claro, da sua própria biblioteca de leituras, portanto, das leituras anteriores que ao longo dos anos vão se acumulando e transformando.

 

Se assumimos esse conceito como verdadeiro e efetivo, com facilidade chegaremos a ideia de que não existe a possibilidade de uma leitura neutra. A neutralidade também será uma interpretação, isto é, uma forma de ler, uma escolha interpretativa. E é justamente no equívoco dessa compreensão onde começa, para mim, um dos grandes problemas da educação e do estudo da literatura no Brasil (e claro, em outros países também) e que ainda nos atinge a todos.

 

A busca contínua e incessante de mergulhar no texto literário da maneira mais profunda possível e dele retirar seus significados mais densos e vitais nos fez, ao longo de anos e décadas, acreditar cada vez mais que cada texto possui um significado único, e que só através do mergulho profundo é possível encontrá-lo e nominá-lo. Essa maneira de abordar o texto literário fez com que apenas alguns poucos, escolhidos mesmos, pudessem “dialogar” com a literatura. E com isso, ela, a literatura, foi ficando cada vez mais distante da vida e das pessoas. Se eu, simples mortal, não posso ler qualquer obra literária, se preciso ter uma formação para tal e tenho, por fim, medo de me aproximar dela… a literatura passa então a não ter significado algum, porque passa a ser representada por um livro na estante. Isto é, um livro não lido é apenas um objeto decorativo. Se não posso me aproximar dela, ela passa a não ter sentido. A não dar sentido a minha vida. A meu ver, é isso que nos falta hoje, no senso comum: a permissão de ler. É aproximar, novamente, a literatura da vida comum, ordinária. Sem essa aproximação é muito difícil que a gente consiga reverter o quadro de um país de poucos leitores.

 

Dito tudo isso… a maneira com que se lê um texto em voz alta faz toda a diferença. A “interpretação” de um texto, seja ela qual for, determina o encantamento, a sedução (no melhor dos sentidos) do novo leitor. A leitura monofônica, monocromática que se instaurou no senso comum, a partir das alegações: que não devemos influenciar o novo leitor com as nossas leituras (leitores experientes), e com isso determinar uma compreensão específica do texto, e que é preciso que cada um descubra os significados recônditos em cada texto por conta própria, nos levou a uma situação onde qualquer um tem medo de ler, medo de fazer a sua leitura, medo de não compreender, medo de não ser capaz de dialogar com este texto minimamente.

 

É justamente essa leitura monofônica, monocromática, medrosa que ao longo dos anos se tornou a leitura padrão. É essa leitura que se impõe nas escolas, nas universidades. Qualquer texto, não importa o gênero – poesia, crônica, romance, biografia – todos são lidos sem expressão alguma. A “escritura” característica de cada autor não conta. Seu ritmo, sua poética, suas diferenças não importam. Todos são lidos como se cada frase, cada sílaba, cada acento não fizesse diferença. Sem falar da temática. Isto é, forma e conteúdo são passados por um funil que acomoda o texto em um modelo único. E é esse modelo, sem expressão, monocórdico que chega ao ouvido das nossas crianças e jovens.

 

Portanto, a meu ver, qualquer leitura, expressiva, criativa, que não queira ser teatral e performática, que queira “captar” o ouvinte não através de apelos visuais, mas sim, sonoros, expressivos na busca da relação entre texto e sua potência de significados, sua polissemia… vai fazer toda a diferença para envolver novos leitores e despertar, neles, um interesse, uma curiosidade pelo texto, seu autor e seu universo… misterioso, enigmático, característico de qualquer texto de boa qualidade. Quais mistérios, quais enigmas… compete exclusivamente, no primeiro momento, àquele que lê. Àquele que se confronta com um texto específico e se aventura por ele navegar.

 

 

LC – Como seria melhor pensar o ato de leitura pública: como acesso mediado ao texto, como apresentação de uma interpretação – seja para instigar ou mesmo para botar em questão a interpretação feita mais que o texto lido – ou como um pouco das duas coisas?

 

FS – Acredito que um pouco das duas coisas. O ato da leitura pública é sem sombra de dúvida para mim um ato de mediação. Mediamos o tempo todo. O professor é um mediador por excelência. Mas mediamos as relações. Entre pai e filho, neta e avó, nossos filhos com o mundo, nossos pais de mais idade com o mundo… qualquer coletivo que tem uma direção, coordenação, está sendo mediado. Portanto, uma leitura pública é um contexto de mediação. O leitor com o texto, leitor – autor, a obra com outras obras, etc.

 

É claro que poderíamos nos perguntar que tipo de mediação, ou que nível de mediação. Quão profunda, quão intensa… e o que nela há de transformador. Mas ler para o outro é uma forma de convidar o ouvinte a adentrar no seu mundo, neste mundo que você habita temporariamente quando lê um livro. E o grande efeito que isso pode ter é o leitor/mediador conseguir transformar o seu interesse no interesse do outro. Isto é, que o ouvinte acolha a obra de maneira que ela passe a ser dele. É um grau de invisibilidade que este mediador deve ter. Ajudar para que o outro descubra a obra e se apaixone por ela de maneira que ela, ao final, seja dele, e não mais do leitor/mediador.

 

E claro, isso tem tudo a ver com a maneira que se lê, com a interpretação daquele texto. Em como o leitor público dá vida ao texto, às situações e aos personagens… principalmente, quando estamos falando de um texto em prosa, onde a narração tem um papel decisivo e que em muitos casos não há falas diretas, nem personagens para serem “incorporados” na interpretação. Essa interpretação, portanto, está toda ancorada na própria linguagem, na sonoridade e na valorização do texto em si, com suas inflexões, melodias e ritmos, e não em possíveis “vozes” caricatas de personagens ou gêneros.

 

Por fim, para mim ao menos, o leitor está a serviço do texto. Minha interpretação não pode ser tão inexpressiva que não desperte interesse no ouvinte, nem tão exagerada que antes do texto chegue a minha personalidade de intérprete. É um dos problemas dos grandes atores ou das grandes vozes que a mídia veicula. A voz de fulano é tão marcante que você não ouve o texto. Ouve-se o texto tal na voz de fulano. Voz e leitor são a mesma coisa, e de tal maneira fortes e presentes que eu, ouvinte, acabo não ouvindo o texto. Me perco na presença exagerada da personalidade do ator/leitor.

 

 

LC – Como você vê o aproveitamento da leitura pública no Brasil: há projetos o suficiente que busquem explorar essa forma de trabalho com os textos? Há possibilidade de que ela seja utilizada, nas escolas, como ferramenta para o ensino da literatura?

 

FS – Infelizmente a leitura pública no Brasil está apenas começando, ou melhor, sendo redescoberta. A tradição que existe, discreta, comedida, é de contadores de histórias (que raramente trabalham com um texto na mão, portanto, raramente leem um texto – na sua ampla maioria os textos são decorados e interpretados na linha da performance teatral) ou de recitais poéticos, isto é, poesia declamada. A leitura de textos em prosa ainda é muito rara se pensarmos na dimensão do país e no número da população que tem a chance de assistir a uma leitura pública. Ler contos, crônicas ou mesmo trechos de romances ou ensaios é uma aventura que poucos ousam. Ainda mais se considerarmos a dinâmica fugaz do consumo, essa velocidade exigida por todos, a falta de tempo para se deixar levar por um texto mais longo.

 

Por tudo isso, acredito que ainda sequer começamos a realmente trabalhar de maneira significativa com essa forma de trabalho com textos literários, diferentemente de outros países em que tem a tradição de lançar, junto à versão em papel de uma obra, a versão lida. As duas versões saem conjuntamente e não importa se é um autor reconhecido ou se é um romance de 600 páginas. “Ouvir” um livro não é inusitado na Alemanha, França, Inglaterra, Estados Unidos, Japão entre tantos outros.

 

De outro lado, o que impressiona é que a leitura em voz alta já é usada em escolas públicas – por exemplo, aqui em Curitiba, com bastante intensidade. Em todas as escolas da rede pública de ensino infantil e fundamental, as crianças têm, se não diariamente, semanalmente oportunidade de ouvir uma professora lendo histórias para elas. E a pergunta que fica é: o que elas ouvem? Quem dessas crianças está realmente se tornando leitor através dessa prática? Que vozes leitoras são estas?

 

 

LC – Por fim, como você veria a inclusão de matérias específicas sobre esse assunto nos cursos de Letras das universidades brasileiras?

 

FS – Eu sinceramente acredito que os cursos de letras em geral precisam de disciplinas que ofertem este conteúdo: teorias da leitura, práticas de leitura – articulando teorias e rodas de leitura, leitura em voz alta e, principalmente, sociologia e filosofia da leitura.

 

O trato direto com a leitura, seus efeitos e impactos, seja na vida do indivíduo, seja na sociedade, me parece de extrema importância para aqueles que pesquisam e mergulham no universo literário dos escritores e das suas obras. É pensar para mim como a literatura atinge, chega no leitor. É a parcela de compreensão que muitas vezes falta da literatura no mundo real, da arte que chega às pessoas, do binômio fundamental para mim – literatura e vida!

 

A meu ver, é uma forma de dar sentido à nossa relação com os milhares de textos que temos contato e que escolhemos ler.

♦♦♦

* Além das já citadas ocupações, Flávio Stein é formado em música pelo Conservatório Musical Brooklin Paulista (SP), atua nas áreas de Música, Teatro e Dança como diretor musical, teatral e dramaturgista, tendo participado de mais de 40 espetáculos no Brasil e na Europa, onde viveu durante 6 anos na Alemanha. Nos últimos anos, tem se dedicado a estudos sobre processos de leitura e vocalização do texto literário e à realização de projetos de estímulo à leitura. Atua como orientador de laboratórios dedicados à formação de mediadores de leitura e como mediador em Ciclos de Rodas de Leitura em editais públicos da Fundação Cultural de Curitiba, tendo realizado mais de 500 rodas de leitura através do seguintes projetos entre 2010 e 2014: Laborintus: a leitura de cada um; Conto Contos Ponto: leituras breves para ler o mundo; Leituras do cotidiano: alteridade em terras de língua portuguesa e Mapa Mundi: a literatura como exploração. Realizou o projeto Extremos: ciclo de leituras radicais juntamente com o escritor José Castello e, com o diretor teatral Walter Lima Torres, o projeto Leitura Cênica: minha pátria é minha língua, a voz de expressão lusófona. Em 2013 criou o coletivo “O Círculo: núcleo de leituras” com quem realiza leituras públicas de obras literárias acompanhadas por música executada ao vivo. Com este grupo realizou os seguintes programas dedicados à literatura brasileira e à literatura internacional: Brasis: Leituras Plurais; O gaúcho Martín Fierro; Violência [des]esperada, Violência [in]esperada; Literatur im Dialog[o] da Literatura e Extempore: fragmentos do tempo e da memória. Publicou artigos sobre leitura na Revista Mediação, no Jornal Relevo e no Suplemento Cultural Pernambuco. Participa regularmente de eventos literários como mediador. Apresenta, na Rádio Lúmen FM, o programa diário Leitura Viva, dedicado à leitura de obras literárias em prosa.

vinicius.rnott@gmail.com

Doutorando em Estudos Literários pela UFPR. Tradutor. Estudante da literatura grega antiga. Autor de artigos científicos que ninguém nunca vai ler. Escritor. Autor do livro de contos 'Razões do agir de um bicho humano', publicado pela Confraria do Vento em 2015. Curioso do desenho e da fotografia. Nunca um entusiasta.

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