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Da Catalunha à Paraíba e além

Imagem: Paul Gauguin – A dança do fogo (1891)

Cassiano Terra Rodrigues, estreante no nosso Ruído, fala sobre a união da humanidade através da música: um sonho ainda não realizado, mas que segue aceso dentro de cada cultura


“A música torna-se base de uma igualdade genuína, a harmonia e a paz entre os povos parecem possíveis, enfim. A música nos sensibiliza e nos iguala, e, de quebra, mostra-nos herdeiros de uma mesma herança”

 

Jordi Savall, mestre catalão de viola da gamba, veio ao Brasil em 2015 com o concerto As Rotas da Escravidão 1444-1888, no qual contou 400 anos de história da escravidão em músicas folclóricas, da tradição popular e composições próprias, entrelaçadas por leituras de textos históricos. O registro fonográfico do espetáculo multicultural pode agora ser ouvido nas principais plataformas digitais (e em 2 cds e 1 dvd, importados).

O projeto de Jordi Savall é o da união da humanidade pela música. A música é o meio pelo qual nós nos comunicamos, entendemo-nos e tornamo-nos iguais. E é por meio de uma reconciliação musical com um passado incômodo que a obra de Savall torna-se uma preciosa fonte de inspiração para tempos tão estranhos e avessos à convivência com a diferença como os nossos.  Diz ele:

“Para compreender quem somos, precisamos conhecer nossa história. Se não conhecemos a história, não podemos construir nosso futuro. Vivemos num mundo em que há muito medo, e o medo não é um bom conselheiro.”

 

“Não devemos reagir em função do medo. Temos de compreender que os seres humanos de todas as culturas possuem coisas magníficas a partilhar. Não é porque há uns loucos, uns fanáticos, que somos obrigados a assimilar todo o mundo a esta minoria.”

Pelas músicas, somos levados a percorrer novamente as rotas da escravidão –da Europa à África, chegamos à América e ao Brasil, muito bem representado, aliás, pelo canto forte de Maria Juliana Linhares (que provavelmente também deve ter um dedo na escolha do repertório brasileiro, assim como os outros músicos devem ter feito com o repertório de seus países). Trata-se de genuína cartografia musical da instituição da escravidão: o gumbé de Guiné-Bissau leva ao son jarocho mexicano – cuja iguana é parente da salamandra do samba já antigo – que estira até jongo e o maracatu brasileiros, dos quais partimos para os sons da Fiesta de la Tirana do Chile, da Bolívia, do Peru… Por muitos sons outros, somos levados de volta a um passado prodigiosamente presente, de modo a rememorar o que um dia foi escrito com sangue.

 

É, por certo, uma obra sóbria e denunciadora, mas não sombria. Ouvimos, na verdade, um longo e ardoroso hino à vida, uma celebração com muitas partes, plena de músicas para chorar, cantar e dançar (quem imaginaria Jordi Savall tocando uma marcha-rancho? Pois é…). Se a música – particularmente, o ritmo e o canto – é a forma mais primordial de organização dos coletivos humanos, forma criativa primeira de introduzir um princípio de ordem em meio ao caos natural, as tensões auditivas em nós produzidas por essas músicas não servem apenas à denúncia de crimes históricos. Ao contrário, o festival antropófago de sons, pontuados pela narrativa histórica, concertam tamanha reconciliação musical que fica difícil duvidar das palavras do mentor do projeto:

“O que tento fazer com minha música, é mostrar que vivemos num mundo onde partilhamos todas as mesmas necessidades. Temos de fazer isso com generosidade e abertura. Não precisamos nos fechar porque temos medo. É preciso se proteger, isto é certo. Mas não é preciso fazer isso de modo que pessoas inocentes sofram porque temos medo e não queremos ajudar aos outros.”

 

A música torna-se base de uma igualdade genuína, a harmonia e a paz entre os povos parecem possíveis, enfim. A música nos sensibiliza e nos iguala, e, de quebra, mostra-nos herdeiros de uma mesma herança – o que ainda é incômodo, muito mais do que se admite (o ritmo do batuque, porém, faz o próprio corpo parecer um instrumento e batucar junto – e isso nada tem a ver com preferências pessoais, o tal gosto).

 

O texto abertura é uma paráfrase da Política de Aristóteles: “A humanidade divide-se em duas: senhores e escravos”. Eis a linha mestra: a naturalização da escravidão é parte de uma atitude do tal Ocidente para com todos os povos considerados outros. Os vários povos ameríndios, e, principalmente, os africanos, são considerados naturalmente destinados a ser escravizados – assim como a alma naturalmente domina o corpo, e o ser humano naturalmente domina outros animais ditos inferiores, aqueles nascidos para escravos devem se subordinar aos naturalmente nascidos para senhores. É a ordem da natureza, ainda que nem sempre respeitada pelas convenções humanas. A mesma ideia retorna em textos fundadores da cultura europeia, como o Código Negro, édito de Luís XIV, que, dentre outras coisas, proibia a escravidão na França regulamentando-a nas colônias ultramarinas. Ou, ainda, o capítulo 5º do livro XV de O Espírito das Leis, de Montesquieu, clássico da filosofia política europeia. Ali, o barão filósofo considera como verdadeiras finalidades do édito real garantir a soberania colonial francesa sobre os territórios americanos e fortalecer a economia do açúcar. O aristocrata francês fala com brutal sinceridade:

Tendo os povos da Europa exterminado os da América, tiveram que escravizar os da África para utilizá-los para abrir tantas terras.

O açúcar seria muito caro se não fizéssemos que escravos cultivassem a planta que o produz.

[…] Não nos podemos convencer que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, principalmente uma alma boa, num corpo todo preto.

[…] É impossível que suponhamos que estas pessoas sejam homens; porque, se supuséssemos que eles fossem homens, começaríamos a crer que nós mesmos não somos cristãos.

É imensurável o sofrimento imposto a milhões de pessoas, na África e nas Américas, por essa desumanização. Durante séculos, todo tipo de violência, ignomínia e opressão foi imposto a seres humanos considerados, no melhor dos casos, subhumanos, e, mais frequentemente, como animais. Tratados como mercadorias, meras coisas úteis para os ocupantes europeus, foram obrigados a desocupar sua terra de origem para dar lugar a empreitadas econômicas devastadoras. Viram os rios serem poluídos, as espécies extintas e a terra esgotada.  É claro que resistiram e ainda resistem, e sabemos das lutas e do sangue derramado.

 

Mas não só os chicotes dos feitores deixaram marcas profundas e indeléveis em todos nós. Durante séculos em que o medo parecia querer interditar o futuro, os escravizados usaram a música, o canto e a dança como forma de manifestar uma estranha mania de ter fé na vida. Mas o futuro, como escreveu outro filósofo, dura bastante, e a música manteve aceso o fogo da memória; pela música, ainda hoje vive e se dissemina até não mais se perceber a consciência da origem; até hoje resistimos tocando, cantando e dançando. É nossa a negação da negação.

 

Esse espírito soprou forte no canto popular do continente durante o século XX: Clementina de Jesus, Mercedes Sosa, Itamar Assumpção, Violeta Parra, Atahualpa Yupanqui… a lista é inumerável. Mencionarei três exemplos atuais, os mais recentes que conheço, para ilustrar como ainda sopra. Quando Diogo Nogueira canta, acompanhado do bandolim de Hamilton de Holanda, “meu batuque é a força das ondas/ o lamento do povo de lá/ que o canto veio libertar”, é a mesma afirmação de humanidade que se faz ouvir. Quando Luís Magín Díaz García reclama “los años me tienen ya cobrándome”, porque gravou seu primeiro disco aos 93 anos, em 2015, é uma voz ancestral que reclama por meio da sua.  Quando Criolo retoma o samba para cantar “eu não quero viver assim, mastigar desilusão/ este abismo social requer atenção”, a oposição desarmada à morte imposta pelas diversas formas atuais de escravização ressoa tão convicta como uma worksong blues no Mississipi de 1800.

 

Blues, aliás, ausente desse Routes of Slavery. Ausente? Nem tanto. A última leitura antes da música final vem de Por que não podemos esperar?, de Martin Luther King, Jr. O pastor afirma:

A discriminação racial corrompe a vida dos brancos, de tal modo que, em certo sentido, é um mal maior para eles, porque confunde a tantos com o preconceito a ponto de os tornar defensores de seus próprios opressores”.

Lá, como aqui, nada poderia ser mais atual. Que os cantos do passado nos façam ouvir melhor as vozes do futuro e que, ouvindo-as, não nos furtemos a fazer-lhes justiça.

cassiano.terra@gmail.com

Cassiano Terra Rodrigues é professor do Departamento de Filosofia da PUC-SP. Formou-se em filosofia na UNICAMP, onde também fez mestrado na mesma área, tentando relacionar Peirce e Wittgenstein. Doutorou-se, ainda em filosofia, na PUC-SP, com tese sobre o conceito de ciência de Peirce. Na vida acadêmica, ensaia pesquisas mormente sobre filosofia e lógica, cinema e filosofia, e leciona onde for necessário. Tem alguma experiência em audição diletante, mas é especialista mesmo em corinthianismo. Ultimamente, gostaria de dedicar-se mais a fotografar passarinhos.

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  • Socorro Figueredo 04/09/2017

    Adorei a matéria, só faria uma correção: O espetáculo “Rotas da Escravidão” de Jordi Savall nunca esteve no Brasil. A gravação do DVD e CD foi na França, na abadia de Fontfroide na cidade de Narbonne.

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