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cyberpunÆk°ØØã∞∞u∞ͱ

O caríssimo Flávio Carvalho apresenta o seu trabalho na R.You! desse mês. Passeando da música ao uso da tecnologia para o pensamento artístico, não estranhe se parecer que há algo errado com esta coluna.


“Não deu certo ser astronauta, então a segunda coisa que quis ser foi algo relacionado com a arte das capas de vinis.”

Início

Quando era pequeno brincava de carrinho enquanto via meu pai colocar vinil para tocar. Ele ficava por horas junto com os amigos discutindo sobre aquele músico do disco, ou sobre algum equipamento de som específico, sempre testando para saber qual era o melhor equipamento para ter a melhor experiência sonora possível. Tive muita influência dele, principalmente no campo da música, pois em casa existia a mais alta tecnologia em equipamento audiovisual. Cresci ouvindo muito Pink Floyd, Balão Mágico, Devo, Laurie Anderson, Giorgio Moroder, muita música clássica, jazz, mpb, e a lista é vasta, ouvia de tudo. Não necessariamente que eu gostasse de tudo, mas de grande parte. Então instintivamente, desde pequeno, eu tentava associar aquilo que eu estava ouvindo com a capa dos discos, era muita imersão.

Ainda criança queria ser astronauta e a ficção científica estava em toda parte e aquilo me atraía. Com os projetos espaciais da NASA acontecendo, com explosão da nave espacial Challenger, com os discos do Tomita ou Jean Michel Jarre pré-Rendez-Vous; aliás, minha primeira referência sobre a estética do erro foi no disco Zoolook de Jarre. Aquela capa e o som eram muito sinistros. Com os filmes Star Wars, Tron ou Blade Runner – e afirmo, até hoje, que o filme da minha vida é Blade Runner, lançado no mesmo ano em que nasci, 1982. Sinceramente, achava que o futuro iria ser igual ao filme, carros voadores, múltiplas culturas atemporais dividindo um mesmo ambiente, caos e desordem. Nessa época tive muita influência da TV e dos seriados que eu assistia, como Trovão Azul, Super Máquina, Esquadrão Classe A, Macross. Onde existia explosão, eu estava conectado. Não deu certo ser astronauta, então a segunda coisa que quis ser foi algo relacionado com a arte das capas de vinis. Não faço exatamente isso hoje, mas o design com que trabalho atualmente está interligado com isso.

Capa do disco Zoolook de Jean-Michel Jarre. Uma das minha primeiras refêrencias de glitch art.

Anos 1990

Em 1990 foi o ano em que ganhei meu primeiro computador, um 286 XT, com monitor EGA de 16 cores e com dois drives de 360kb. Pra época ele já era um pouco defasado, mas ali é que começou o meu gosto por esse tipo de máquina. Eu particularmente usava muito para jogar. Os títulos que eu mais adorava eram Prince of Persia, Indy Car 500, F-119, Golden Axe. Depois, em 1993, meu computador foi trocado e eu estava com um 486 DX, monitor Super VGA e kit multimídia. Então os jogos dessa época eram Civilization, Wing Commander 2, Doom II, entre vários outros.

 

A música ainda continuava, dessa vez com o som de Seattle. Minha mãe até me chamava pra ficar acordado mais tarde para assistir ao Hollywood Rock ou Rock in Rio. Em 1995 ainda ouvia muito Nirvana, Sonic Youth e conheci Mudhoney. No final dos anos 90 houve uma explosão da música eletrônica onde conheci pela MTV ao Prodigy, Chemical Brothers, Massive Attack, Underworld, Aphex Twin. Era muito ligado à MTV, um portal pré-internet para conhecer sons. Chegava ao ponto de acordar no meio da madrugada para gravar vídeo-clips em VHS. Nessa época também vivia em lojas de discos e bibliotecas. Conheci muito som na 801 Discos, Jukebox, Savarin. No Goethe Institut ia procurar discos de pós-punk alemão, adorava a sonoridade da língua e como se encaixava com a estética, a banda industrial Einstürzende Neubauten é uma das favoritas até hoje. Ao mesmo tempo comecei a frequentar o Lino’s Bar. Ali fiz novos amigos e conheci mais uma nova gama de músicas, filmes, fotografia, artes visuais e também literatura.

A influência dos jogos de PC. Imagem do jogo Civilization.

Crédito: Autor

Anos 2000

No Lino’s Bar absorvi muito da cultura underground que acontecia na cidade. Principalmente do punk, do gótico e do psychobilly. Havia muita troca de conhecimento, li muito fanzine, ganhei muita fita K7 e VHS, alguns livros, e descobri novos sons. Ovos Presley, banda psychobilly de Curitiba, foi um soco na cara. Até hoje os admiro, mas Zigurate, Catalépticos, Limbonautas também foram excelentes referências.

 

Paralelamente a isso, fiz faculdade de Publicidade e Propaganda na PUC/PR, e a primeira coisa que eu queria aprender era a fotografia. Meu pai tinha uma máquina analógica Olympus-OM1 e esse foi o maior incentivo para começar. Os ensinamentos da Fernanda Vilar, do Leomar Brito, e posteriormente do André Zielonka até hoje ressonam nos meus trabalhos. Tomei muito gosto por laboratório fotográfico tendo Man Ray como maior referência nessa época. Em 2002 estava fazendo várias fotografias para bandas curitibanas no estúdio da PUC/PR e também em shows, me baseando principalmente nos trabalhos de Charles Peterson, da gravadora Sub-Pop, e também da fotografia de estúdio de Michael Lavine. Nas fotografias de shows, minha primeira experiência foi no lendário 92 Graus que ficava na Rua Visconde do Rio Branco, quando o JR abriu as portas para fotografar a banda dele, o Limbonautas.

 

O meu contato inicial com a arte que estou desenvolvendo atualmente foi em 2001, no show da banda de hardcore californiano “Dead Kennedys” em Curitiba. A Fernanda Vilar me emprestou uma de suas máquinas fotográficas, uma Pentax K-1000 e subi ao palco para fotografar a banda. Estava feliz e tinha conseguido os melhores enquadramentos e composições, mas quando peguei o filme revelado, vi de longe o pacote murcho e me senti frustrado. Quando abri o pacote, todas as fotografias que fiz estavam no mesmo fotograma. Fiquei decepcionado, era um show icônico e tinha estragado tudo. Simplesmente a alavanca de transporte do filme não funcionou e isso gerou a minha primeira imagem em glitch[1]. Uma sobreposição absurda de fotografias onde a linguagem não funcionou como o esperado. Apresentei para o núcleo de fotografia da qual participava, e para minha surpresa todos gostaram do resultado. Nunca tinha parado pra pensar, afinal de contas queria fazer da forma correta, mas o jeito errado deu um resultado interessante que só fui compreender depois.

 

Deixei de lado a fotografia pois estava ficando caro bancá-la e fui trabalhar com criação publicitária em agências e produtoras. Flanei entre direção de arte, arte-final, produtor de conteúdo multimídia, editor de vídeo, assistente de direção de programa, até que fui me afastando da publicidade por me sentir desconexo daquele universo e me aproximando muito do design editorial de revistas e livros.

Glitch da câmera no show do Dead Kennedys em Curitiba, 2001.

Crédito: Autor

Anos 2010

Em 2010 fiz especialização interdisciplinar de Artes e Ensino das Artes na UNESPAR. Lá tive contato com um módulo e artes visuais e tecnologia com a Ana Lesnovski, e então entendi que era aquilo que eu realmente queria fazer. Comecei a estudar tudo relacionado a arte e tecnologia e utilizar, do meu background, tudo o que tinha feito profissionalmente para iniciar meus projetos. Participei em 2012 de workshop/exposição com os artistas Ricardo Palmieri e Kruno Jošt num projeto de instalação artística de novas mídias intitulado “Culture Robot 4.0”, que aconteceu no SESC do Paço da Liberdade. Em 2014, participei de outro workshop/exposição chamado “Derivas Audiovisuais” organizado por Fernando Velazquez e que aconteceu no Red Bull Station em São Paulo. Lá dei mais atenção para o estudo da glitch art[2], principalmente trocando ideia com outros artistas.

 

Voltei para Curitiba e me tranquei no laboratório que tinha construído, definindo uma estética nos meus trabalhos. E pensei: “E se eu misturar arte de rua com algo interativo como QR code e contar história entre estes suportes?”. A minha pesquisa de conclusão da especialização foi sobre arte de rua. Então fui praticar. Saí colando lambe-lambe interativo com QR code e o primeiro deles foi de uma passagem pela minha infância, uma glitch art homenageando Laurie Anderson, ao mesmo tempo que replicava seus passos na música “Big Science”, mas ambientando em Curitiba. Esse foi o primeiro trabalho que espalhei pelas ruas de Curitiba, em 2014. E este mesmo trabalho chegou até Zagreb, na Croácia, na Fu:bar/expo em 2015, com curadoria de Dina Karadžić e Vedran Gligo.

 

No mesmo ano, fiz um protótipo de um projeto de colaboração com poetas que está em desenvolvimento, baseado na websérie curitibana “Pássaros Malditos”, de Adriano Esturilho. Nesse projeto o meu foco é o universo do erro. Teve participação do poeta argentino, radicado em Curitiba, Ricardo Pozzo. Esse trabalho entrou em exposição na Escola de Fotografia Portfolio e foi selecionado para a primeira exposição do Glitch Art is Dead com curadoria da Aleksandra Pieńkosz e Zoe Stawska em Cracóvia, na Polônia.

 

Em 2015 também foi a minha estreia solo no Centro de Arte Digital do Portão Cultural, com a exposição Equitam. Um projeto de videoarte/performance interativa sobre minha perda de equilíbrio e o uso do medicamento para recobrar este equilíbrio, tudo isso em cima de uma slackline[3]. Este projeto se iniciou ainda na época da especialização e contou com muitas referências de artistas como: Nam June Paik, Michael Snow, Bruce Naumann, Vitto Acconci, James Marsh e Mike Figgis.

 

No penúltimo dia de 2015 lancei um curta chamado “Cthulhu Regio Entropy”, filmado com microscópio digital, e que faz uma alusão à sonda espacial New Horizons, que recolheu dados sobre o planeta Plutão. Esse filme é um estudo de linguagem que teve estreia em Berlim, na Alemanha, no Pop up Kino #8 Videoart Festival, e depois foi selecionado para alguns festivais de arte, cinema e tecnologia como: 19th Annual Subtle Technologies Festival em Toronto, Canadá, Bristol Radical Film Festival em Bristol, no Reino Unido, 28th Girona Film Festival em Girona e MADATAC 08 em Madrid, Espanha, entre outros. Também participei em 2016 das duas edições do Clube da Colagem de Curitiba, onde pude explorar bem a colagem com a estética do erro.

Métodos de trabalho

Alguns elementos da minha composição remetem à infância. A forma como os pixels são apresentadas nos jogos, sempre com baixa qualidade, devido à tecnologia da época. Isso me fascina, tem um lado nostálgico. Gosto de misturar estas tecnologias do passado com tecnologias atuais. Outro ponto da minha poética é o tempero da glitch art. Encaro como algo mais profundo e reflexivo, onde o erro significa os erros por quais passei e aqueles que observo no mundo.

 

Eu percebo que numa parte do meu processo criativo existe uma meditação entre o microcosmo e macrocosmo. E tenho consciência de que estou no meio como um vetor daquilo que observo, transpondo isso para minha arte. Esse tipo de observação tem muito a ver com a filosofia do livre-pensador Jiddu Krishnamurti, cujo trabalho é substancial na minha poética.

 

A narrativa transmidiática que pesquiso também me seduz dentro da cultura da convergência de mídia, como aponta o teórico da comunicação Henry Jenkins, ou também do empreendedor transmidiático, Robert Pratten. Essa mistura das linguagens em múltiplos espaços também tem alicerce nas ideias “radicantes” do teórico de arte Nicolas Bourriaud.

 

Na hora de botar a mão na massa tenho utilizado um software de computação visual[4] chamado ReacTIVision de forma hackeada. Desvirtuando o uso comum dele e extraindo uma parte da estética do programa diretamente para os meus trabalhos. Ele me ajuda na composição pixelizada e suja. Depois quebro essa imagem dentro do código binário, utilizando técnicas de databending[5] e se for uma sequência de imagens por datamoshing[6]. Num modus operandi, como diriam nos textos de William Gibson, cyberpunÆk°ØØã∞∞u∞ͱ`±÷≤K≤¬≥8≥Æ¥%¥úμμä∂∂y∂∑h∑‡∏Y∏—πJπ¬∫;∫μa.aßo! oõΩΩèæ ̃ÓΩ◊Ω ̊ØuÔ~Λ{fl^ ̃ÓΩ◊Ω ̊ØuÔ~Λ{fl∫ ̃^ ̃ÓΩ◊Ω ̊ØuÔ~Λ{fl∫ ̃^ ̃ÓΩ◊Ω ̊ØuÔ~Λ{ fl∫ ̃^ ̃ÓΩ◊Ω ̊ØuÔ~Λ{fl∫ ̃^ ̃ÓΩ◊Ω ̊ØuÔ~Λ{fl∫ ̃^ ̃ÓΩ◊Ω ̊ØuÔ~Λ{fl∫ ̃^ ̃ÓΩ◊Ω ̊ØuÔ~Λ{ fl∫ ̃^ ̃ÓΩ◊Ω ̊ØuÔ~Λ{fl∫ ̃^ ̃ÓΩ◊Ω ̊ØuÔ~Λ{fl∫ ̃^ ̃ÓΩ◊Ω ̊ØuÔ~Λ{fl∫ ̃^ ̃ÓΩ◊Ω ̊ØuÔ~Λˇ ÷fl„fl∫ ̃^ ̃ÓΩ◊Ω ̊ØuÔ}A}°~~b~¬#ÑÂÄGÄ®Å

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Exposição Equitam no Centro de Arte Digital do Portão Cultural.
Crédito: José Carlos Cunha

Remédios oferecidos no coquetel de abertura de Equitam
Crédito: Jonah Emilião

Hipogástrico Alumínio do Amargor na exposição Glitch Art is Dead em 2015.
Cracóvia, Polônia.
Crédito: Equipe Glitch Art is Dead

Parte do processo para a colagem de “A Grande Escapada de Houdini” para a 1ª exposição
do Clube da Colagem em Curitiba, 2016
Crédito: autor

Cenas do filme “Cthulhu Regio Entropy” filmados em microscópio e processado no ReacTIVision
Crédito: Autor

Estudo # 7 de animação
com ReacTIVion e vetores.
Crédito: Autor

Foto do artista
Crédito: João Pedro Rimenzonski

♦♦♦

[1]              Um pequeno problema ou falha que impede algo de ser bem sucedido ou funcionar do modo como se esperaria. Fonte: http://dictionary.cambridge.org/pt/dicionario/ingles/glitch (livre tradução)

 

[2]              A glitch art geralmente se refere à provocação intencional ou apropriação de um erro por um artista. Os artistas de glitch art investigam e coletam falhas para fazer trabalhos em vários meios (som, web, imagens, vídeo, performances de audiovisual tempo real, instalações, textos, videogames, artware ou arte do software, etc.) por muitas razões diferentes (para explorar a estética e o potencial conceitual dos glitchs, para examinar as políticas incorporadas nos sistemas tecnológicos, para criar experiências psicodélicas digitais e/ou sinestéticas, praticar o hacktivismo, para explorar temas de falhas, acaso, memória, nostalgia, entropia, etc. Fonte: http://gli.tc/h/faq/ (livre tradução)

 

[3]              O Slackline é uma modalidade esportiva na qual o objetivo é a manutenção do equilíbrio sobre a fita de diversas formas. Tem como habilidade determinante o equilíbrio. Teve sua origem numa mistura de alpinismo e arte circense (corda bamba e cabo de aço), que tanto usavam para treinar e aperfeiçoar suas capacidades na escalada, como para realizar performances e espetáculos circenses. A palavra slackline vem da língua inglesa, e significa linha (fita) bamba (frouxa), em razão da semelhança com uma linha. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Slackline

 

[4]              A computação visual é um campo bastante amplo com muitos subcampos, mas todos estão relacionados com o aspecto visual da computação. A computação visual lida com tudo relacionado à parte visual da computação – do hardware às equações matemáticas por trás de cada pixel da cor. Seu principal objetivo é usar entidades visuais para a manipulação de tudo ao nosso redor, tangível ou intangível. Fonte: https://www.techopedia.com/definition/16286/visual-computing (livre tradução)

 

[5]              Databending (ou data bending) é o processo de manipulação de um arquivo de mídia de um determinado formato, usando software projetado para editar arquivos de outro formato. Tipicamente ocorrem distorções no meio como resultado, e o processo cai dentro de uma categoria mais ampla de, ou é frequentemente empregado na glitch art. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Databending (livre tradução)

 

[6]              Datamoshing é o processo de manipulação de dados de arquivos de mídia, a fim de conseguir efeitos visuais ou auditivos quando o arquivo é decodificado. Fonte: http://datamoshing.com/about/ (livre tradução)

 

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